Se hoje

Se hoje fosse seu último dia? Se hoje você não pudesse mais sentir o perfume de sua esposa? Se hoje você não pudesse mais ver seus filhos brincarem? Se hoje você percebesse que o seu cão não vem mais ao seu encontro? Se hoje as suas músicas preferidas não tocassem? Se hoje o seu prato favorito não fosse mais servido a você? Se hoje você não relesse mais as cartas que um dia trouxeram alegrias e expectativas para sua vida? Se hoje você não pudesse mais tomar o café da manhã sem olhar o jornal?

Se hoje sua vida parecesse grandiosa demais para quem você realmente é? Se hoje você não pudesse ir à igreja? Se hoje não houvesse mais tempo para seu encontro com Deus? Se hoje você não pudesse mais aproveitar o seu carro a caminho para o trabalho? Se hoje tudo que você construiu em sua vida parecesse apenas uma, de tantas outras etapas ignoradas? Se hoje não houvesse jazz? Se hoje a sua luta parecesse inócua? Se hoje o seu labor diário não valesse a pena? Se hoje não houvessem dúzias de e-mails para serem respondidos?

Se hoje ninguém te chamasse de “meu amor”? Se hoje você não ouvisse ninguém te responder bom dia em francês? Se hoje os pássaros se recusassem a cantar? Se hoje o dia fosse cinza? Se hoje o seu terapeuta não pudesse te atender? Se hoje a sua voz presa fosse calada para sempre? Se hoje a sua voz presa pudesse se libertar com um grito forte e alto? Se hoje você não recebesse ligações de nenhum amigo? Se hoje os seus amigos desaparecessem de sua existência? Se hoje houvesse apenas você sentado no bar?

Se hoje uma cerveja gelada lhe fosse negada? Se hoje houvesse silêncio ao seu redor? Se hoje a música cessasse? Se hoje você não assistisse TV? Se hoje Drummond não fosse seu poeta predileto? Se hoje a poesia de Bandeira lhe fosse percebida como pobre e sem graça? Se hoje toda a miséria do mundo coubesse em suas mãos e você a destruísse? Se hoje você depositasse sua confiança em alguém? Se hoje você fosse apenas você, sem categorias ou classificações? Se hoje só você fosse trabalhar? Se hoje você não risse de alguma piada?

Se hoje você chorasse como uma criança pequena nos braços da mãe, buscando amparo e alento? Se hoje todas as coisas não existissem mais?

E se hoje, apenas hoje, você conseguisse ser apenas você e viver apenas a sua vida e apreciar somente as suas coisas e falasse apenas o que fosse agradável a você. E se hoje não fosse hoje?

Paradoxos

Apenas nascemos de fato ao morrermos. Toda a dor que passamos, todas as lágrimas, todos os sorrisos, todas as deixas (ou queixas?) para nos tornarmos alguém são, frequentemente, ignoradas. Com o tempo. E só nos é possível perceber que nascemos no exato momento em que – quase como Brás Cubas – nos isentamos de tudo e conseguimos perceber toda a paisagem que já nos passou. No vislumbre da morte.

Talvez seja um defeito. Talvez seja imaturidade. Talvez sejam as circunstâncias. Talvez seja genético. É possível que em nossa codificação de seres humanos exista um gene que determine que o nosso nascimento somente seja possível quando nos afastamos, quando deixamos de ver o óbvio e passamos a perceber o oculto, os implícitos, as nuances de cada instante.

E isso soa uma tarefa hercúlea para o material fraco e frágil de que somos feitos. Mas também não é defeito, é apenas parte. E de que mesmo importa se nascemos apenas ao morrermos? Vivemos de qualquer modo. Não há certo ou errado; há apenas o jeito de conduzir o que é possível.

Isso é paradoxal. Nascer é já, em si mesmo, viver. E morrer é constatar aquilo que nos recusamos a enxergar durante os dias todos em que acordamos e vivemos. Morrer é constatar que no último minuto que nos resta percebemos o quão grandioso foi o nosso nascimento. Ou, o quão grandioso foi aquilo que consideramos como prenúncio da inevitável morte.

Não se pense a morte como algo triste, soturno, irremediável. Aqui, ela apenas é o lugar da percepção do real nascer. Do reconhecimento de um parto longo, de vários anos. Nascer é o instante da percepção da morte. Morrer é o momento do reconhecimento do nascimento.

E que também não se pense a morte – aqui – como o fim da vida carnal. Morrer é todo o simbolismo inerente ao reconhecimento de algo que já passou. E – possivelmente – nem mesmo estejamos (sejamos?) corretos ao falarmos em nascimento. A probabilidade da certeza concentra-se muito mais em considerarmos o renascer.

A cada instante de morte, renascemos. A cada passo em direção à fuga da dor, a cada caminhada em busca de uma alegria, de um prazer, de um momento fugaz é quando morremos. Morremos de uma vida, iniciamos outra. Repetidamente agimos dessa forma. É o que nos sustenta, é o que nos mantém vivos, é o que nos permite nascermos em fases distintas (se é que são mesmo fases…).

Não existe permanência no viver, no nascer e no morrer. São fases. Ou, ainda, são permanentes as fases de vida, de nascimento e de morte. Inescapáveis, até. São fases, são modos de perceber, são formas de considerar. O tolerável de nós mesmos é somente dado a conhecer quando morremos, simbolicamente, a cada troca que realizamos com o doloroso prazer de nascer.

Uma música, talvez

Há certos momentos cotidianos que nos mobilizam profundamente. Há certas ações pequenas que assumem um significado quase que transcendental. Uma breve lembrança de uma manhã de setembro, o rever de uma mensagem no celular (antes da tecnologia eram os bilhetes…), o gole de um vinho melancólico no fim de uma tarde de sábado, a melodia de uma música que ouvimos no som de um carro que passa ao longe, uma nota que escrevemos a nós mesmos que, depois de um tempo, é relida com a mais pura estupefação – pensamos: escrevi mesmo isso? era assim que eu pensava e sentia?

Todas essas coisas são capazes de nos tocar de maneiras bem variadas. Algumas vezes sentimos medo, outras solidão, outras uma alegria incontrolável e há ainda os momentos de riso, que não sabemos ser de surpresa, indignação, constrangimento ou qualquer outra coisa. Tudo isso provocado apenas por lembranças, momentos cotidianos.

No entanto, ainda acredito que nada se iguale ao que ouvimos e reouvimos em casa em um momento de pura distração com as atividades diárias. Há certas músicas que nem sequer sabemos quem compôs a letra ou a melodia, mas nos cortam feito navalha afiada. Sentimos que naquele instante tudo nos invade. Há um misto de raiva, rancor, tristeza, gozo, superação, esperança, choro… e, por mais que queiramos descrever, não conseguimos dizer com palavras o que aquela melodia, aquela letra ou mesmo aquele único verso nos dizem. Ou melhor: nos significam.

Recorremos às nossas experiências para tentar encontrar o sentido daquilo. Tantas vezes falhamos. É bem verdade que parte de nossa memória é seletiva e talvez por isso nos esforçamos para lembrar de algo que nos explique o sentimento (inexplicável?) e não conseguimos fazê-lo. Ele – o sentimento – fica lá. Audível e silencioso. Profundamente significativo e inócuo. Revelador e obscuro. Não sabemos, apenas sentimos.

É como se fossemos pegos de surpresa. Um susto enorme nos acontecesse e não pudéssemos reagir. Ao mesmo tempo em que estáticos ficamos, toda uma série de reações nos revolucionam por dentro. Um dedilhar de um violão, o piano suave ao fundo, um sax longo e melancólico, o pulsar de um contrabaixo ou mesmo as vozes agudas, graves, roucas, curtas, pausadas, arrastadas são capazes de provocar uma tempestade. Nosso coração dispara, nossa imaginação vai longe, nossas mãos se aquietam, nossas pernas relaxam e com elas todos os nosso músculos também. É a sensação de susto mais paradoxal que pode existir. A surpresa nos ataca e ficamos absolutamente relaxados, acompanhando o desenrolar daquela música. O coração, mesmo disparado, não nos trava. E depois que percebemos o que acontece, a sensação é a de que estamos caindo de uma altura enorme.

Tudo isso não dura mais que alguns minutos, o tempo da música acontecer. O tempo de percebermos o que o refrão nos diz, o que a melodia é capaz de nos fazer, o que a voz grave nos fala. Mas são minutos inestimáveis para compreendermos aquilo que nos move e nos toca. Uma música.

Aconteceu

Não sabemos quando certas coisas nos acontecem. Elas apenas surgem, acontecem, fazem parte de nossa vida. Achamos que amadurecemos, que seremos capazes de lidar de modo sensato, ponderado e, até certo ponto, indolor. O fato é que com 30, 40 ou 50, ainda somos os mesmos adolescentes. Sentimos um frio na barriga ao nos aproximarmos de alguém interessante, tememos alguém com maior autoridade do que a nossa, trememos ao nos depararmos com algo que não sabemos resolver, choramos porque fomos abandonados por alguém, gritamos desesperados (ainda que em silêncio) quando somos feridos por alguém, nos alegramos quando alguém nos considera o melhor amigo, exultamos ao saber que fomos procurados por sermos confiantes e seguros…

Acho que não existe passagem entre a vida adulta e a adolescência. Seremos os mesmos jovens temerosos que fomos até o fim de nossos dias. A única mudança são as máscaras que usamos. Muitas vezes elas são tão incorporadas a nós (e por nós) mesmos que achamos impossível sermos outra pessoa. A máscara cola em nosso ser e passamos a agir conforme suas características, seu molde.

Não importa se reconhecemos se essas características são boas ou ruins porque agora elas são nossas. Imputamos a nós mesmos essas características, já que não conseguimos deixar de ser aquela pessoa que se constitui entre os 14 e os 19 anos de idade. Ainda sonhamos com o que gostaríamos de fazer de nossa vida, fantasiamos os amores que ainda viveremos, afirmamos que nunca mais nos deixaremos machucar por ninguém, idealizamos a nossa vida pessoal, profissional e afetiva. A verdade, é que não vivemos como deveríamos.

Acredito que isso não seja uma doença, um desequilíbrio emocional qualquer. É apenas a forma que encontramos de (sobre)vivermos. Queremos dizer o que pensamos e não podemos, queremos expressar nossa raiva a quem nos machuca, queremos chorar e gritar com alguém só por que essa foi a primeira pessoa que encontramos para exorcizar nossos demônios. No fim, nada disso podemos fazer sem sermos considerados insanos. E por que não? Melhor um adulto insano do que um adulto sem sê-lo.

Ouvi, certa vez, que a vida era como uma doença grave que precisava de cirurgia. A doença nos acaba, lenta ou rapidamente, e para seguirmos adiante precisamos ser invadidos. No princípio, há anestesia, depois o corte e o sangramento. Mas depois que somos invadidos, cortados, sangrados, somos também curados. A cicatrização demora, mas nos livramos da doença. Cada decepção, cada tristeza, cada choro, cada momento de angústia, cada dor que sentimos no peito nos anestesiam profundamente. Achamos que daquele momento em diante não iremos mais sentir coisa alguma. Só que a anestesia não dura para sempre. Precisamos ser cortados pelas verdades que nos dizem no momento de dormência. As verdades que, muitas vezes, nós mesmos nos dizemos. Por vezes, é fato, não queremos ouvir nem a nós mesmos nem ao outro, porém isso passa. A anestesia não dura e o corte prevalece. Nesse instante de verdade, sangramos tanto que sentimos não haver mais nenhuma gota de sangue que nos faça retornar da mesa de cirurgia. Tudo parece se esvair dentro de nós: medos, desejos, esperanças, incômodos, tristezas, alegrias, sorrisos, lágrimas, silêncios, gritos… nada mais parece restar. Apenas parece. Resistimos tão bravamente à intervenção que ao sairmos somos quase outra pessoa. A cicatrização começa, começamos a sarar.

Não nos curamos completamente. As cicatrizes ficam. Marcas indeléveis de nossa doença, de nossa vida. Mas ainda assim superamos o mal. Não saímos da mesa de cirurgia ilesos. Não nos tornamos outra pessoa. Voltamos a ser os mesmos adolescentes com medo. Talvez um ano ou dois mais velhos, mas ainda na faixa etária dos 14 aos 19. A diferença são as bandagens que poremos nas cicatrizes. Talvez maiores, talvez menores e mais audaciosas… sempre bandagens.

E como a vida não se vive em um dia ou dois, como as cirurgias, somos diariamente operados. A cada instante nós somos anestesiados, cortados e sangrados, mas sempre nos recuperamos, sempre teremos cicatrizes.

Por isso, o melhor remédio para nossas cicatrizes chama-se “simplesmente aconteceu”. Não há cura por vivermos. Há intervenções que prolongam nossa existência. Há máscaras que utilizamos para não revelar quantas vezes fomos invadidos por cirurgias.

Onde vivem os monstros

Em algum lugar, usualmente bem distante, bem escondido, habitam em nós monstros gigantescos. Não são assustadores até que os encaremos fixamente. Eles nos olham de volta e aquilo que deveria ser a nossa pergunta única, exclusiva, absoluta, torna-se – apenas isso – o silêncio. Aquilo que deveria deixá-los amedrontados porque ignorariam a resposta as nossas perguntas é a causa de nosso vexame, de nosso calar, de nosso medo. Diante de uma pergunta que não fizemos, simplesmente calamos.

É também nesse lugar ermo, quase inabitado que percebermos nossa responsabilidade. Nós os alimentamos. Nós os criamos, nós os educamos até que eles consigam se adequar às nossas exigências mais singulares. Há, todavia, um ponto, um trecho, uma parte desse processo em que nos permitimos sermos, por eles, devorados. Tantas vezes olhamos com compaixão paterna, querendo compreender a razão de tamanha feracidade, de gigantesco apetite, mas falhamos no primeiro gesto de aproximação. Eles nos devoram antes mesmo de compreendermos suas ações. As que os ensinamos.

A cada palavra calada na boca, a cada silêncio travado na garganta, a cada choro engolido são eles a nos devorar. E os educamos para isso. Nem mesmo sabemos se o seu habitat é tão mais irreal do que as traves impostas por esses filhos que vivem nas sombras. São nossos filhos, educados ou mal-educados: inevitáveis crias. Aprendemos a lidar com eles, com todas as limitações possíveis. As nossas.

Se nos aproximamos de súbito, nos assustamos. Desconhecida é a reação. Talvez bem violenta. De um só golpe os monstros que cultivamos nos encarceram e nos engolem. Deixamos de ser predadores e nos tornamos presas. E vivemos desse modo, com receio do que criamos. A criatura supera o criador não por possuir mais ou melhores qualidades. Apenas por ter compreendido o medo do criador diante da obra criada. Da criatura em si.

Se devagar chegamos diante deles, como querendo fazer as pazes após uma querela qualquer, o pavor é ainda maior por desconhecermos as reações. O que se revela e se desvela aos poucos pode assustar ainda mais do que o susto do ímpeto e da surpresa. Parece que a lentidão cria um suspense indesejável, um mal-estar, uma náusea. É como uma morte lenta que sabemos irá acontecer. Uma ruminância em direção àquilo do qual não é possível escapar. E cedemos. Deixamo-nos ser presas fáceis.

E, ainda, se desejamos esperar, observar, analisar, prever o possível entreolhar entre criador e criatura, falhamos também. São olhos que não se enxergam mais. Há nesse mesmo lugar ermo tantas e diversificadas direções que não existe mais espaço para entreolhares, para uma percepção das intenções, para um reconhecimento das reações. Mútuas ou singulares. Nós criamos e educamos os nossos monstros.

É nesse lugar bem escondido que reconhecemos aquilo que nos tornamos diante do que não escolhemos. É nessa comunidade habitada por nossos filhos alimentados, criados, educados que nos tornamos estátuas impassíveis diante do medo ensinado. Daquele que ensinamos. E nem mesmo sabemos o por quê de o termos feito. O fizemos.

Não há escape senão perceber e aceitar que parimos os monstros que nos assustam e nos devoram. Como também não há escape em admitir que, embora parimos sozinhos, nunca concebemos em isolado. Os nossos monstros são nossos filhos. Eles têm pai e mãe. Eles têm pais. São frutos gerados a partir de nosso encontro com o outro, essa inescapável figura constituidora de nós mesmos.

Até mesmo eles – os monstros – nos são inescapáveis (indesculpáveis?) representações de todas as formas sem forma que se moldam larga e lentamente para nos formarem quem somos. Não são nossos reflexos, são uma ínfima e mínima parte refratada do que poderíamos ou desejaríamos nos tornar. E até mesmo o fazemos. Incorporamos um modo assustador de concebermos o nosso ser em vida. Monstruosa? Sim. É a nossa.

De fato, existe um lugar bem escondido onde habitam os monstros que não nos assustam até que os olhemos fixamente. Vê-los, reconhecê-los, ser por eles assustados é somente isso: reconhecer aquilo que nos tornamos diante do que não escolhemos. Monstruoso? Inevitavelmente.

Retoques

Toda dor sempre finda. Todo amor sempre começa. Tudo é sempre de novo. Nada há que não aconteça repetidamente. Mudam-se as cores, trocam-se os tecidos, renovam-se os modelos. Há sempre o mesmo insistindo em  ser diferente. Ou, há sempre o diferente apoiado no mesmo.

Funcionamos a partir de modelos já concebidos. É o que podemos fazer, é aquilo que conseguimos fazer. Nem mesmo há escapatória a isso, pois se houvesse, seria, também, repetição. Uma fuga repetida realizada por um outro caminho. Diferente? Sempre. Novo? Jamais.

Os amores são doces, são coloridos, são iluminados, são intensos, são para sempre. E um dia eles acabam e a dor inicia. Ela é cinza, amarga, não reluz mas possui a mesma intensidade do sol. Queima algumas vezes. Possuem um prazo de validade indeterminado até o instante em que a aniquilamos. E de novo ela finda, e de novo o amor começa, e de novo é sempre o mesmo.

Há retoques aqui ou ali. Inescapáveis. O existir é mesmo como uma sinfonia mal-composta. É monótono, é pesado, é sombrio e solitário. É o existir; e não pode ser diferente porque é o mesmo. Um mesmo que não é igual para cada um: existem os retoques.

Havendo ou não uma pincelada mais intensa, com mais cor, com mais profundidade, sempre existe um retoque. São eles que tornam o mesmo diferente. São os retoques que caracterizam o próximo movimento da monótona sinfonia do existir. E que nunca se pense monotonia como sinônimo de tristeza ou pesar. Um tom: é isso, apenas.

O tom do mesmo tentando ser diferente, o tom do diferente que já fora um dia o mesmo, mas nunca igual. Simplesmente porque as dores findam, os amores começam e tudo é sempre de novo.

É nossa inalienável condição de existência a busca pelo equilíbrio nesse abstrato pêndulo que – aos poucos – indica os passos prováveis de serem seguidos. Os caminhos só importarão a posteriori. Caminha-se, primeiro. Verifica-se o caminho durante o percurso, porque só então é possível o retorno ou o desvio. Só então é possível o óbvio: fazer o mesmo, o diferente. Aplicando retoques no tudo que é sempre de novo.

Contrários

Porque ser é apenas o contrário de tudo. Porque a vida não é o óbvio das coisas. Porque a morte é o motivo do abandono. Porque as coisas se resumem ao contraditório. Porque o espelho não reflete o que pensamos. Porque calamos é a razão de um silêncio maior.

Somos infinitamente moldados por razões fugidias, partes díspares de uma tentativa crescente em busca de um sentido – maior ou menor – qualquer que seja. Os sentidos são os contrários. Do que pensamos, do que julgamos, do que aprendemos, do que sangramos, do que desejamos. Os sentidos lógicos constituintes de nossa subjetividade apontam para o infinito momento de percepção dos nossos equívocos. Paradoxal que seja, são momentos infinitos. Não se apagam, não se esvaem em uma névoa qualquer. Buscamos o sentido no óbvio inexistente. E deles construímos a aparente segurança das escolhas feitas. Ela, também, nos molda. Não há segurança alguma, somente ilusão. De sermos. Porque ser é apenas o contrário de tudo.

Não ser é a própria vida. Ela inexiste no óbvio, no que salta aos olhos dos sentidos. É sempre uma percepção errônea. Há sempre uma percepção errônea. Se há alegrias, é porque precedeu-se a tristeza. Se há alento, é em razão da existência da solidão. Se há abandono, é devido a ausência dos que ora se fizerem presente. Se há choro (e, talvez até, ranger de dentes), é porque houve já um sorriso. Tudo é sempre ao avesso. E, em havendo prazer, este é precedido de uma dor tão aguda e voraz que consome até a penúltima gota de vislumbre de horas mais ricas do provir. Porque a vida não é o óbvio das coisas.

Mesmo a morte, tão sombria, tão assustadora, tão  causadora de silêncios é errônea. Morte maior não é quando se perde o óbvio. O abandono é a consequência da morte. Deixar de ser, deixar de estar, deixar, apenas. Poucos segundos bastam, são suficientes para senti-la. E sentimos, no abandono. Abandonar é o motivo maior da morte. Recusas, afastamentos, negações, despropósitos, argumentos inócuos, ausências… nomeiem! São abandonos. É a morte revelando, sem obviedade, a sua finalidade. Abandonamos quando desejamos matar e também morrer. Abandonamos em cada gesto carregado da intencionalidade de morte. Porque a morte é o motivo do abandono.

Não é real conceber o contrário. Não é o abandono que causa a morte, tampouco a presença que acende a vida. As ausências são formas de viver e apenas a morte pode ocasionar o abandono. Uma ausência não é capaz de causar óbito. Matamos porque desejamos que o outro seja abandonado por nós. O abandono que impomos ao outro é consequência de sua morte. Nunca sua causa. Vezes lento, vezes longo, demorado e penoso. O tempo é sem medida para isso. Porque as coisas se resumem ao contraditório.

E, talvez parecendo ilógico, seja essa mesma a intenção. Uma vida que não é no óbvio, um ser que deixa de existir pela ausência de sentidos, um abandono que finda por causa da morte… Os reflexos que vemos nunca podem ser verdadeiros. Sempre olhamos o que conseguimos, nunca o necessário. Nossos olhos se detêm na fachada possível de enxergar. Os limites ultrapassáveis são – indubitavelmente – intransponíveis.  Porque o espelho não reflete o que pensamos.

Porque calamos é a razão de um silêncio maior. E quando o fazemos, não é por razões alheias à nossa razão. Sabemos o que calamos. Calamos pelo não reconhecimento do óbvio que supostamente nos sustentaria. Silenciamos por reconhecer que o abandono não é consequência da morte, mas sua causa. Travamos as palavras na garganta, afogamo-las no pensamento por ter a certeza de que a vida só é possível através da vivência dos paradoxos. Porque, afinal, tudo é somente parte do que sequer saberemos sobre nós.

Inércia: desculpável

Não é o movimento que nos impulsiona a seguir adiante. É o seu oposto. O mais pleno e sincero travamento diante do que nos é impossível modificar é o que nos move. Estar parado, estar quieto, estar imóvel, ser quase imutável por uns segundos é a alternativa lógica capaz de indicar o exato instante em que mudanças precisam haver. Mudanças nem tão significativas, apenas suficientes para que saíamos da inércia, do lugar de sempre e nos movimentemos em direção ao que não se sabe existir depois da esquina.

Ser inerte é o que explica as possibilidades de criação do diferente, não necessariamente novo. Ou estar inerte é que o explique… Ainda não me foi revelada a diferença essencial entre o ser e o estar diante do mundo. Sei mesmo se um dia o será? Acredito que “sertar” devesse ser um verbo. Ele definiria os movimentos pendulares nesta troca de papeis entre o ser e o estar. Afinal, somos-estamos sempre alguma coisa. De desconhecida.
Ser inerte, estar quieto, estar travado, ser imóvel… São estados e ações que permeiam nosso lugar de existir no mundo, na vida e mesmo no que ainda há de vir – e pode ser mesmo a morte. E como não estar na morte? Como não sê-la? Simbolicamente, a morte caminha conosco, bem próximo, como se fosse um parente próximo ou mesmo uma melhor amiga. Não pensar nela, não falar sobre ela é perder tempo, um que já não temos. Ela é tão inevitável – a simbólica – quanto nossa inércia ou nosso desejo de movimento.
Agrada-me pensar na morte junto com a palavra tênue. É delicada, tem pouca espessura mas ainda assim é tão grandiosamente avassaladora que em conjunto com tal vocábulo estabelece um rico paradoxo. Há quem sequer perceba isso. Mas a nossa incapacidade de agirmos em certas circunstâncias é uma morte simbólica. Quando silenciamos, decretamos o nosso fim diante do outro que nos fala. Quando consentimos por não saber o que fazer, como agir, de que modo pensar, esse é o nosso suicídio. E nada há de absurdo ou anormal nisso. Somos nosso algozes, nossos juízes e executores. Ninguém há de desempenhar tal papel a não ser nós próprios. Se há mal nisso? Neurose ou paranoia? Nenhuma. Somos a medida exata daquilo que podemos ser – ou estar – nesses instantes.
Por isso, crer que o que nos impulsiona a seguir adiante não é o movimento das ações, mas uma resposta à nossa inércia e travamento diante de nossa própria morte simbólica, diante de nosso suicídio pessoal, particular e necessário é um modo relativamente saudável de compreendermos o porquê de não reagirmos, de não respondermos quando não conseguimos. Claro, há sempre os contraditórios. Há sempre os defensores do “avante!”, “não se deixe abater”, “reaja” e similares. Porém, quantas vezes nem conseguimos alcançar a primeira sílaba de tais palavras encorajadoras? Muitas. E é apenas isso. Porque somos feitos de nós mesmos, com pitadas agridoces de outros… Nossa mistura é heterogênea e fraca. Tentamos (e como o fazemos…) solidificar essa matéria tão insípida de que somos feitos. Não há defeitos, que se esclareça: há apenas humanidades. E travamos muitas vezes. E morremos muitas vezes. E outras renascemos, pois não há nenhuma desculpa para que isso não ocorra.

Ponto de equilíbrio

O que nos une como pessoas? As vezes as diferenças são formas tão mais intensas de nos unirmos, de estarmos juntos, do que aquilo que consideramos como semelhanças cruciais para uma boa convivência. Uma convivência múltipla, tão variada quanto as diferenças que nos unem. Estamos juntos porque nos apaixonamos, porque trabalhamos no mesmo lugar, porque participamos de uma mesma congregação religiosa, porque gostamos da mesma música, porque partilhamos, em suma, dos mesmos valores. No entanto, se nos olharmos atentamente uns aos outros, iremos enxergar que são as diferenças que nos mantém todos juntos.

A nossa capacidade de tolerar as pequenas falhas dos outros nos permite encontrar nesse outro, ou melhor, em suas falhas, algo que, na verdade, gostaríamos de ter e não temos. Um gosto absurdo por camisas floridas, a preferência por filmes estranhos, a capacidade de nos emocionarmos diante de uma comédia romântica hollywodiana, a inclinação por tomar sorvete comendo salgadinhos de queijo, o desejo de nos tornarmos tietes, ao menos por um instante, diante de um ídolo internacional ou mesmo a capacidade de ignorar uma celebridade quando ela está na mesa ao lado da nossa em um restaurante chiquerrímo não pedindo autógrafo ou cumprimentando-a. São nossos traços de personalidade. São os traços de personalidade do outro. São as diferenças que percebemos nos outros e as toleramos porque gostaríamos de ser assim, ao menos em parte.

Não nos enganemos pensando que o outro não sente nada disso e que esse sentimento é uma inveja doentia que deve ser combatida. O outro nos vê de modo semelhante. Ele deseja ter aquilo que temos e por essa razão esse outro nos tolera. É isso que nos une. É isso que nos faz sermos humanos. Não se trata apenas de enxergar aquilo que o outro tem e não temos. Trata-se de perceber no outro aquilo que não conseguimos ser e, por essa razão, nos aproximamos dele. Chegamos perto, fazemos desse outro nosso irmão de coração, nosso melhor amigo (ou amiga), nosso amor platônico, nosso companheiro de farras e festas, nossa paixão desmedida. É uma necessidade incrível essa que temos de elevar esse outro à condição de complemento essencial à nossa situação humana.

Nunca algo foi tão verdadeiro quanto a Lei da Física: os opostos se atraem. Hoje, essa Lei caiu no senso comum. É a justificativa para relacionamentos amorosos que, boa parte do tempo, não dão certo. Mas a verdade é que nos atraímos pelo oposto, pelo diferente porque necessitamos dessa diferença para a constituição do nosso ser. Precisamos incorporar aquilo que não nos é igual como forma de sobrevivermos no mundo, na vida social. Precisamos achar engraçado quando, em um bar, tomando um vinho ou uma cerveja, notamos uma mesa próxima na qual todos falam alto, riem, se abraçam, tiram fotos o tempo inteiro. Engraçado, sim. É a nossa forma civilizada de dizermos constrangedor. Aquele comportamento nos constrange, algumas vezes, porque não conseguimos fazer isso. É claro, esse é apenas um exemplo. Mas e todas as situações em que percebemos que nosso ser mais próximo não entendeu o enredo de um livro óbvio, ou não reconheceu a beleza de um jazz, ou ficou estático diante de um seriado de comédia americana, não achando a menor graça naqueles personagens surreais. Enquanto nos deliciamos por experimentarmos todas essas coisas, o outro mostrou-se impassível, indiferente. Acho que essa é a beleza: apesar de sabermos disso, por que não tivemos alguém como nós ao nosso lado partilhando o que nos delicia? Simplesmente porque não nos queremos duas vezes. Queremos o contraponto de nós mesmos para sabermos que somos únicos, especiais, exclusivos.

Ter alguém igual a nós mesmos ao nosso lado, me parece, é deixar transparecer, ainda que timidamente, que precisamos do outro para sabermos quem somos. Esse igual nos diz que não gostamos disso ou daquilo. Esse igual nos mostra que somos falhos em dizer a verdade, em negar um favor, em não precisar dar satisfações. E esse mostrar não serve para mudarmos, até porque, será que precisamos? Esse mostrar serve para nos desculparmos a nós mesmos dizendo, interiormente, que se o outro é assim, não devemos ou não precisamos mudar em nada. Só que no fim, essa relação entre iguais nos afunda em nosso “ser-eu-mesmo” para sempre, sem tolerância, sem desculpas, sem vontades de experimentar o diferente, não necessariamente a novidade.

Havemos de perceber, todavia, que há limites para tudo, porque mesmo necessitando do outro para nos complementar, temos também nossas reservas. Os nossos limites em relação à diferença do outro são tão frágeis que, insistentemente, evitamos ser invadidos por essa mesma diferença. Esse limite é o exato ponto em que nossa subjetividade se mostra. É onde nos reconhecemos como pessoas que são as diferenças para o outro. Sabemos disso também. Sabemos que é o nosso jeito contrário de ser que atrai o outro. E no momento em que deixamos o outro nos invadir com suas diferenças, sentimos que deixamos de ser nós mesmos e nos perdemos. Ao nos perdermos, perdemos também o outro, pois ele perceberá que já não é com um ser diferente que ele se relaciona, mas como ele mesmo.

Eu não sei se há alguém que partilhe dessas reflexões. Se houver, prefiro saber e estabelecer as diferenças antes de conhecer suas semelhanças comigo mesmo. Também não sei se há alguma espécie de verdade aqui. Não é pretensão minha. Prefiro pensar que o que nos atrai no outro são suas diferenças em relação a nós mesmos. Prefiro pensar que, mesmo através dessas diferenças, temos também limites. O ponto de equilíbrio entre o igual e o diferente deve ser encontrado por aqueles que se relacionam, e mais nada.

Somos ficção

Há que se considerar uma série de elementos constitutivos da condição humana. A fragilidade das relações, a emoção contida ou desmedida diante do não-sabido, a volatilidade dos sentimentos, a agressividade latente frente as frustrações, a delicadeza dos “adeuses”, a mesmice do cotidiano inevitável, o irresoluto silêncio que encara a impotência no agir, a falsa crença de que somos tudo e ainda podemos ser mais. Ao infinito tais elementos poderiam ser estender, todavia, findam pelo simples fato de serem constitutivos do ser humano. E, como tais, finitos somos.
Nada há que seja capaz de nos revelarmos como reais. Todo entorno é pura idealização do que poderia ser. É, realmente, uma condição criada pelo e para o imaginário necessário à sobrevivência como espécie. Tão frágeis somos que nossas interações, por mais que creiamos nelas, são frutos irrevogáveis do que imaginamos ser bom para nós. Não há bondade real, apenas ideal e, ironicamente, elas, as relações, tornam-se cínicas. Trata-se de um cinismo não jocoso, mas imprescindível. Somos o que conseguimos ser em cada instante de interação verbal e o outro, parte constitutiva de nossa humanidade, também dessa forma age. De simples saudações (um “bom-dia!” ou um “como vai?”) a complexas discussões filosóficas acerca da economia global são cenas teatrais que permeiam o ilusório dia a dia. E nesse quase palco, nos tornamos atores, diretores, cenógrafos, produtores e público. Tudo justificado tão somente pela nossa incapacidade de sermos quem de fato somos e, também, estarmos (conseguirmos, talvez?) inseridos em qualquer mundo social que seja. Conseguimos mais atuar do que efetivamente ser.
Nessa atuação contínua e constante, findamos por sublimar – para usar um termo freudiano – nossos mais intensos, secretos e obscuros desejos. Possivelmente ocultamos aqueles que nos doem mais: o desejo de saber. Desejamos saber a fofoca sobre o vizinho ou o colega de trabalho, desejamos conhecer aquilo que ainda não somos capazes de executar, ansiamos pelo dia da revelação em que todos os nossos anseios passem a ser justificados e racionalizados. Em uma palavra: compreendidos. Precisamos compreender pelo bem de nossa própria e particular (ainda que ilusória) sanidade. Contudo, nos contemos. E sempre o fazemos já que nosso agir nunca pode ser real, mas cínico – e até mesmo canalha algumas vezes. Nosso agir real, visto que inexistente, somente nos possibilita à contenção do desejo de saber. E, assim, contemos toda espécie de emoção possível: o choro, o riso, a raiva, a decepção, o desespero, a solidão, o abandono, a celebração… enfim, tudo o que for possível é sempre contido. Quase como uma consequência, contemos também nossa humanidade (claro, acreditando ainda que ela exista).
Se negamos um beijo, se cedemos ao mesmo beijo, se agredimos verbalmente, se ocultamos as lágrimas, se confessamos a paixão, se admitimos o ódio, se permitimos o silêncio, se sentimos… nada disso pode ser considerado como nosso real. Ou como alguma instância real de algo. São gestos, muito mais que ações reais. Gestos possíveis em instantes possíveis. Em outros instantes, outros gestos surgiriam. Nos confessamos amantes e nos revelamos distantes. Acreditamos na distância necessária ao mesmo tempo em que a negamos porque nossa incapacidade em lidar com as ausências exige a presença do ser gostado. Esse ser gostado, esse outro essencial, pode ser, sim, amado, esquecido, ignorado, cuidado, mas também pode ser, apenas, um outro indiferente. É o nosso ato teatral o responsável pela fala que poderá ser ocupada pelo outro. E, se não o quisermos, o outro existirá na medida em que for cabível a participação de um coadjuvante.
E, há ainda, que se considerar: quando não estamos imersos em um monólogo, os mesmos atos que praticamos servem – e em boa parte assim o são – como atos válidos do outro. Esse cínico coadjuvante se torna tão protagonista em nossas interações como nós próprios em relação a ele. Eis, então, apresentada a raiva em mais cinco atos. Ou dez, ou quantos mais forem possíveis. Frustrados, porque não é o real, mas o ideal possível e quase suportável, contemos, novamente, as emoções. Resta a raiva latente, pulsante, cortante e gritante a rasgar a frágil condição de humanidade que teimamos assumir como nossa. Ela, a raiva, fica lá, guardada, nunca exposta. Mostra-se apenas quando possível. Afinal, todo ato nosso não é outra coisa senão possível.
Nem percebemos chegar a hora dos “adeuses”. Dos longos, intermináveis, dolorosos e – inevitavelmente – possíveis “adeuses”. Talvez aí se perceba, do modo bastante rápido, uma certa delicadeza. Encararmo-nos como protagonistas e coadjuvantes exige mais um esforço em busca do adeus ideal. Entretanto, um adeus ideal não é possível. Por isso a delicadeza. Acredito que o mais próximo que nossa condição de humanidade nos permite chegar do real é no momento de um adeus. Por que despedir-se? Por que excluir o outro (e também ser cortado pelo outro) de outras interações? Por que não sermos mais capazes de manter o outro (ainda essencial? não creio…) junto de nós durante a execução de nossos atos? Porque não é mais possível, apenas isso. Despedir-se: ato delicado. Também ideal como os demais atos que praticamos.
No cotidiano é que sentimos essa idealização dos possíveis. Não queremos tantas coisas na mesma medida em que desejamos as mesmas e tantas outras. De um café amargo e requentado que tomamos (porque não há outro) até os mais excêntricos sonhos de consumo: titubeamos entre o querer e o negar esse mesmo querer. Porque nossos atos são cínicos. Se não queremos o café, porque insistimos em bebê-lo? Se ansiamos por infrutíferas interações, porque permanecemos negando o seu insucesso? Simples: cínicos e irreais são nossos atos possíveis e ideais. Precisamos deles, porque eles são os nossos possíveis. Entre um ato e outro, entre uma fala e outra, entre uma interação e outra existe o silêncio que, irresolutos, aceitamos. O vazio do que não foi dito preenche nossa condição de humanidade. Seguimos agindo acreditando que poderíamos ser mais, ter mais, poder mais, saber mais, sentir mais. Mais, sempre mais de um menos subtraído de nós mesmos: a impossibilidade de sermos reais diminui nossa capacidade de nos constituirmos através da pura e plena capacidade de sermos humanos em toda magnitude possível. E é somente isso: possível.