Zelo

Estranhamente, observo o descuido. Atentamente, percebo certas nuances de cuidados não mais encontrados no trato diário, ainda que inconstante, com os outros. Estranhamente, não há mais cuidado, não há zelo. Algumas singelezas são capazes de dizer aquilo que volumes e volumes de enciclopédias não podem abarcar.

Por isso observo o descuido. E estranho sua existência. Como estranho a mim, como estranho o outro, como estranho as coisas. Repentinamente, apenas uma troca ínfima de experiências – uma palavra, uma frase, uma confissão, um dizer qualquer – ressignifica a nossa subjetividade. O descuido é o oposto disso. É a falta de disposição para com o outro. Disposição para ouvir, gritar, chorar, calar, esquecer, animar, rir, brincar e quantos mais forem possíveis os verbos.

As experiências com os outros são partes e partículas essenciais para nossa definição de sermos o quê e quem somos. É o cuidado em cultivá-las, não apenas as experiências. Elas, encerradas em si, nada dizem e nada são. Como nós, sozinhos, nada somos. As experiências que demonstram explicita ou implicitamente o cuidado como o outro são gestos que, também, revelam nosso cuidado consigo próprios. É, decerto, bem óbvia tal constatação. Todavia, ainda me pergunto se de fato há alguém que já – efetivamente – tenha constatado tal obviedade.

O descuido é hoje parte de um discurso da coletividade. O que está bom para um, deve, obrigatoriamente, satisfazer a todos. Mas, e se em uma brincadeira dizemos “se eu adivinhar o nome do filme, quero um chocolate”? Todos devem ganhar apenas o chocolate? Ou será que dentre vários bilhões de pessoas, não existe alguém que espere ganhar um algo a mais, talvez um simples laço de fita ao redor do chocolate, ou quem sabe uma embalagem diferenciada, apenas para criar o suspense sobre o presente ou a aposta ganha? Esse é um desejo de um dos bilhões que habitam o mundo, claro. O grande diferencial é perceber numa simples assertiva o desejo do outro e a partir de então cuidar dele, isto é, do desejo. É observar que em uma brincadeira qualquer somos capazes de exercer o zelo, o cuidado. Afinal, o outro não são bilhões de pessoas. Eu não sou bilhões de pessoas.

Cuidamos de acordo com o que somos e também com quem o somos. E novamente afirmo: observo estranhamente o descuido. Não me questiono a razão de tal imperativo. Nem o quero. Agrada-me pensar que é sempre possível o diferente. Nesse caso, o cuidado, o zelo, a atenção nos atos singelos que praticamos para o outro.

É bizarro perceber que o termo “customização”, advindo do inglês, cujo equivalente em português é personalização, simplesmente vem sendo apagado de nossas relações. O personalizar tornou-se em agir igual em tudo e com todos, inclusive com nós mesmos. Há o apagamento do eu e do outro para uma singularização do neutro. Não somos: fazemos parte. Descuido. Ausência de zelo.

Isso me é estranho. Gosto do cuidado que me dispensam, gosto de dispensar cuidados aos outros. Embora os estranhe tanto quanto a mim, ainda assim prefiro zelar por uma subjetividade que aos poucos será revelada pelo gesto simples do cuidado. Penso, mesmo que equivocadamente, que sejam essas coisas todas, a atenção, o zelo, o cuidado, que nos ajudam a perceber a nossa própria existência não-neutra assim como também a do outro. A neutralidade implica em zero, absoluto vazio.

O descuido é vazio. O cuidado é sempre soma de diversas peculiaridades que se nos apresentam ao longo dos minutos que existimos. E não existimos sem cuidado, sem cuidar.

Parcialmente

Parcialmente liberto. Hoje, agora, é assim essa sensação estranha. Mas também de incompletude, pois não há ainda que dizer completamente ou absolutamente. É fato que existe essa uma tal liberdade. Tênue, porém, é essa linha divisória entre o completamente e o parcialmente. Aliás, não pode ser diferente. Somos, apesar do que digamos, humanos. Todos somos incompletos, inconclusos. Todos somos parciais. Não há nada, não há ninguém capaz de nos privar dessa parcialidade, dessa incompletude, dessa inconclusão. Todavia, e isso é outro fato, há o Outro. Esse ser singular com uma habilidade indecifrável de nos fazer sentir absolutos. É esse outro, que também é inconcluso, que nos permite enxergar dentro dessa delicada linha que nos torna como pêndulos, buscando sempre ou um lado ou um outro. Nunca um lado e o outro.

É nessa busca que findamos por perceber o que há de mais profundo em cada natureza que nos cerca. Nunca diremos, sem incorrer no risco de uma hipocrisia das palavras, que temos uma única natureza. Somos parciais e se assim o somos, possuímos naturezas diferenciadas. Ora coabitam pacificamente, ora desejam digladiar-se tentando prevalecer como vitoriosas no local que vivem: o humano. E somos desse modo. O Outro é igualmente assim. Relegamos, quando sentimos, qual natureza prevalece em qual momento. Quando sentimos é que percebemos que, distintas, diversas, diversificadas que sejam as naturezas permitidas a nos habitarem e a nos constituírem, é essa a única verdade humana: precisamos de um Outro. Precisamos das naturezas do Outro, inclusive daquelas que se engalfinham a cada centésimo de milésimo de segundo de nossa existência.

É no Outro que vemos a suavidade de um sim, a força de um não, a sutileza de um talvez. É no Outro que nos encontramos para nos vermos e nos enxergarmos como realmente esse outro nos reflete. E ainda existem os momentos em que nos percebemos no Outro e, por vezes, também o deixamos perceber a nós mesmos. É um jogo, não esqueçamos. Sempre escolhemos o Outro, suas naturezas e seus momentos de nos perceberem. Semelhantemente, também escolhemos nos perceber no outro. É novamente essa linha tênue, finíssima, que nos separa dessa completude esperada. Ou mais ainda, de uma liberdade completa e absolutamente esperada. É o jogo.

No movimento que faz o pêndulo, é lá que nos identificamos. Não estamos nem de um lado, nem estamos do outro lado. Estamos sempre em um movimento contínuo de uma eterna busca de completude. Nisso, também, devemos considerar como parte do jogo. E nossas naturezas complexificam-se ainda mais quando percebemos que além de nós e do Outro, existem ou outros e os Outros. Aqueles que num instante fugaz percebemos ao nosso lado porque escolhemos admirá-los enquanto, insisto, perto de nós, esses Outros ressonavam, deixando-se entregues. Uma entrega tão profunda que nos tornamos incapazes de desejar mal, fazer mal, tampouco pensar algo de mal. Pois, se assim o fizéssemos, estaríamos o fazendo a nós mesmos. Afinal, são esses outros que nos completam. São esses outros e Outros que nos são também.

São eles que vivenciam conosco a rede intrincada de relações humanas que nos cortam a alma tão delicadamente. São eles que possibilitam esses cortes que levamos conosco durante as horas e os dias que se passam. Esses outros, que vemos chorar, rir, abraçar, argumentar, seguir nossos devaneios, são os mesmos que lá estão, silenciosos, pacientes, tolerantes, esperançosos diante do palco iluminado no qual, parcialmente libertos, encenamos nossos atos, muitos deles até falhos.

É esse o jogo. Falhar sempre para no Outro e nos outros encontrarmos as correções que precisamos para atuar primorosamente. E não falemos de máscaras, já que esse é um lugar comum. Falemos de papéis que desempenham nossas naturezas. Não falemos de atores, pois esse é também uma fala comum, até mesmo política. Falemos tão somente dos instantes que as naturezas tão diversas, minhas e dos Outros encontram espaço para se entreolharem fixamente e decidirem qual prevalecerá.

Há os momentos da satisfação do Outro. Preciosos instantes nos quais renunciamos uma vontade pessoal imperiosa apenas para ver um quase-deslumbramento nos olhos do Outro. Um doce, um abraço, ou mesmo um bom-dia são capazes de fazer reluzir o mais opaco dos olhares. Instantes em que optamos por seguir adiante mesmo sabendo, ainda pela força da vontade pessoal, que o nosso esforço em precisar do Outro é tão menos grandioso do que a opção feita por essa criatura essencial em estar ali, transformando os minutos únicos de sua existência em minutos múltiplos de um estar-conosco.

Normose

Há algum tempo atrás recebi um e-mail muito legal sobre uma nova “doença”: a normose. Essencialmente, a mensagem dizia que, em tempos de respeito às diferenças, a normose poderia ser definida como a doença de ser normal. Mas, o que é hoje ser normal?

>> Veja aqui um post da revista Superinteressante sobre o assunto.

Hoje se prega o respeito às diferenças até o limite. Se alguém é homosexual, deve-se respeitá-lo, se uma criança é ativa ao ponto de aborrecer outras pessoas, há a justificativa de que pode ser hiperativa, se um chefe é sisudo, é porque deve ter problemas em casa, se um adolescente é emo, justifica-se pelo fato dessa ser uma época em que se deve experimentar as coisas para se definir a personalidade, e os exemplos podem crescer quase indefinidamente.

Pessoalmente, isso tudo é bobagem. Uma forma que encontraram de justificar certos comportamentos absurdos em favor do respeito a diferença. Considero bobagem porque nesse grosso caldo de insensatez, não se percebe a falta de valorização que o ser humano em si vem ganhando. O respeito não é mais com o José ou a Maria, mas com sua condição de mulher falada ou homem gay.

Por favor, não me entendam mal. Não estou aqui falando mal dos gays ou das mulheres sexualmente independentes. O que chamo atenção é para o fato de que, nos dias em que vivemos, os rótulos, as categorias, são mais importantes do que a essência do ser humano. Propagandas não faltam defendendo isso ou aquilo, essa ou aquela condição. Mas, onde fica o ser humano que se constitui, também, através de outras coisas? Parece que se perdeu no meio de tantas etiquetas.

E por falar nelas, também por etiquetas, dessa vez não metaforicamente, se reconhece um grupo por elas. O grupo das marcas famosas, dos gostos requintados, dos vinhos diferenciados, de tudo o mais que se possa identificar através de uma etiqueta.

Aí, nessa prateleira de supermercado gigantesca que se transformou a humanidade e as relações sociais, não há mais espaço para as pessoas doentes de normose. Aquelas pessoas que não se definem por rótulos, títulos ou etiquetas. São aquelas pessoas que não conseguem evitar e demonstram estarem tristes, com saudade, com “dor de cotovelo”, ansiosas, inseguras, melancólicas, às vezes de mau humor com a vida, os estudos, o trabalho, a vida a dois, enfim.

São pessoas que estão doentes por serem… seres humanos. Por sentirem o vazio que muitas vezes a vida lhes impõe ou até eles próprios se impõem, pessoas que se entristecem porque não sabem falar de coisas importantes como a luta constante dos grupos minoritários, a liberdade de expressão dos GLS ou mesmo do discurso pró-natureza… Ora, novemente, não desmereço tais assuntos, apenas acho que existem coisas tão ou mais importantes quanto isso.

Existe a vontade de se confiar no vizinho ou amigo para lhe confidenciar um segredo bobo, a vontade de chegar em uma loja e ser atendido por um belo bom-dia não invasivo, a necessidade de ser respondido pelo médico de forma adequada (para não dizer atenciosa), o medo de contar aos pais que a virgindade foi perdida ou que o namorado/a está causando um sofrimento grande, ou mesmo aquele desejo enorme de ver o cachorro saltar de alegria quando se volta do trabalho. São coisas simples, bem tolas, mas que fazem uma diferença enorme em um mundo que não tolera mais tais manifestações tolas.

O mundo que deveríamos viver está se tornando um pesadelo. Um pesadelo de rótulos, de coisas importantes que não passam de preocupações vãs, de ações que ao invés de aproximarem acabam afastando as pessoas. Qual foi a última vez que saímos com alguém do trabalho para dizermos que estamos ali somente para “jogar conversa fora”? E a última vez que nos encontramos em uma discussão sobre os efeitos da coca-cola para alguém com prisão de ventre?

O mundo precisa de bobagens. Nós precisamos de bobagem. Não podemos insistir na perpetuação de comportamentos que defendem, respeitam, exigem de nós uma postura diferente SEM QUE, também, saibamos respeitar a tristeza, a melancolia, a saudade alheias. Que saibamos respeitar os grandes grupos, mas que respeitemos, igualmente ou com maior intensidade, os pequenos grupos. O grupo de pessoas que está ao nosso redor querendo um pouco de atenção, muitas vezes negligenciada por nos ocuparmos com as grandes coisas do mundo.

Não sei, mas acho que sofro de normose. Há lugar para muitas coisas na vida de cada um. Prefiro ficar doente do que me ocupar das grandes coisas do mundo e tentar ver as pequenas.

Sobre músicas

Sempre gostei de música. Desde menino-pivete. Não gostava das músicas feitas para minha idade. Nunca ouvi coisas bizarras como Xuxa, Mara Maravilha, Bozo (nem mesmo lembro se ele cantava) etc, mas confesso que ouvi muito o Balão Mágico e Trem da Alegria. Bom, digressões encerradas, porque o texto não é sobre infância, voltemos. MInha preferência sempre foi o rock and roll. Meu primeiro disco foi o Live after death do Iron Maiden. Acho que foi um bom começo. De lá pra cá (isso foi em 1989), passei por rock brasileiro, heavy metal, hard rock, rock progressivo, bluesjazz e por aí vai.

Passei a gostar de outras coisas também, como MPB. E ultimamente tenho escutado várias coisas da música brazuca, seja rock ou não. E, para minha estupefata surpresa, comecei a relacionar músicas ouvidas com o seu contexto de produção (talvez a Análise do Discurso prefira “condições de produção”), algo me me fez pensar muito seriamente. Quando o Aborto Elétrico cantava Veraneio Vascaína eles estavam criticando a polícia corrupta, quando o Legião cantava Que País é Esse?, novamente, a reflexão girava em torno da corrupção, dessa vez política, que impedia o Brasil de crescer. Década de 1980.

Há ainda outros exemplos. Zé Ramalho, ao cantar Cidadão, punha uma realidade bem conhecida dos pobres do país: a falta de acesso aos bens materiais e culturais que ele próprio – aliás, o eu lírico da canção – ajudou a construir. Talvez pudéssemos incluir uma certa referência a Cristo nos últimos versos. Caetano e seu Circuladô traz a música Fora da Ordem, refletindo sobre a “onda” da globalização que deixa os limites do estável para o ser humano reconfigurados. Uma leitura bem crítica do que a sociedade se transformaria por falta de um equilíbrio entre avanços, acesso à informação e outras coisas (não estou analisando nada detalhadamente, vejam a letra). O Chico Buarque e suas várias mulheres, as de Atenas, a Beatriz, a Carolina, a Bárbara e a esposa que não entende nada e sufoca o marido com o cotidiano, a rotina inescapável do casamento (e também não estou criticando essa instituição…).

Quantas letras falam de um amor não correspondido, de uma sociedade calada por imposição na década de 60, da rebeldia da Geração Coca-Cola, do vazio dos Anúncios de Refrigerante, das Lanternas dos Afogados que iluminam navegantes perdidos, dos amigos que se guardam do lado esquerdo do peito, dos amores de índio, das cores que enfeitam a paisagem vista pela janela do trem, do caderno que guarda segredos e deseja não ser abandonado, da luta dos jovens em não serem iguais aos seus pais, apesar do culto aos mesmos ídolos, das dores de oratório, do gavião que pega, mata e come, do tempo perdido, de estar tão feliz porque o amor atrai, do amor entre uma mulher de leão e um garoto de dezesseis, do amor que, simplesmente, invade e fim, do ra-ta-ta-tá ouvido pelo garoto que não mais pode ouvir os rolling stones, da garota bonita e cheia de graça, do Cristo de madeira que não dizia nada, e, para não dizer que não falei das cores, de todas as manifestações que criticavam o governo em diferentes épocas ou não criticavam, eram formas de expressão. Enfim, eram músicas com conteúdo.

Havia alguma mensagem nessas músicas. Eram expressões de um pensamento complexo, crítico, questionador, reflexivo, romântico, apaixonado, respeitoso. Seus compositores pensavam não apenas nas melodias e nos acordes que tornaram essas músicas sucessos; eles pensavam, principalmente, nas letras, no conteúdo de cada verso. Essa era uma das formas dessas artistas contribuírem com a construção de uma sociedade diferente. Uma sociedade que, endurecendo, jamais poderia perder a ternura. Afinal, reivindicar dias melhores era, igualmente, vivê-los apaixonadamente.

Pergunto-me: e hoje? Quais são os compositores que pensam e fazem música assim? Deus me livre escutar com fruição coisas do tipo “tô pagando pau”,”só as cachorras, as preparadas”, “vai rolar bunda-le-lê”, “você não vale nada mais eu gosto de você”, e outras coisas que o meu limitado intelecto se recusa a lembrar.

Se a música fosse apenas música, talvez não houvesse maiores problemas. Quer dizer, talvez eu não me incomodasse tanto. Todavia, isso não é verdade. Música não é só música. É algo mais. É reflexo do comportamento de uma sociedade, ou de grupos específicos da sociedade.

Obviamente não vivi o movimento estudantil de 60 ou 70, mas sei que os assuntos giravam em torno de discussões acadêmicas sobre pensadores como Marx, Freud, Foucault e outros. As discussões eram embaladas por músicas, ou representados nas músicas. isto é, o pensamento de mudança, de crítica estava lá, presente de alguma forma. Qual pensamento se representa hoje nas discussões embaladas por músicas que tratam o homem como se estivéssemos no tempo das cavernas, em que ele “pega” a mulher e faz o que quer com ela porque ela não passa de uma “rapariga de festa”?

O que estamos produzindo com essa falta de censura em nossas músicas será (ou melhor: É) o que já vemos hoje nos noticiários: brigas entre meninas na escola, agressões gratuitas contra professores, massacres armados em escola… Não me entendam mal: não estou falando de censura dos orgãos do governo quando da época da ditadura. Falo uma censura do tipo ter vergonha em produzir letras de conteúdo tão baixo (nem me refiro a melodia, já que são todas iguais. Acho que um ré ou dó mudam vez ou outra por um lá ou um si) que propagam a cultura do vazio, do desrespeito, da vulgaridade, do insulto à condição humana. Uma autocensura, na verdade.

Gostaria de poder organizar um manifesto e que seu resultado permitisse a proibição dessas músicas bizarras e grotescas. Mas acho que só irei perder tempo com isso. Negativismo? Não, mas pensem comigo: se a maioria das mensagens de e-mail que você recebe são piadas, correntes, superstições e se a maior parte da leitura das pessoas que te enviam isso são scraps do orkut ou murais do facebook (sem contar com o inócuo – modesta opinião – twitter), como contar com a participação delas? (E não estou aqui atacando a tecnologia, entendam).

Não vou iniciar uma discussão sobre o uso da tecnologia e o falso argumento de que hoje as pessoas estão lendo mais do que antes em função da internet. Isso fica para outro texto (talvez) Só aponto que, estamos em uma encruzilhada: de um lado música ruim nos bombardeando, de outro as pessoas que escutam essas músicas e que, por estarem em uma encruzilhada, possuem quatro possíveis saídas, estão também na terceira saída. O que nos resta? Reclamar em alto em bom som e correr pelo único lado possível antes que isso tudo nos alcance.

Seria tão bom se ao invés de dizermos “você não vale nada mas eu gosto de você”, mostrando um amor incondicional por alguém que, supostamente não vale a pena, indagássemos: “e hoje em dia, como é que se diz eu te amo?”

Elas

Gosto delas, das mulheres. Não qualquer gostar, não o gostar comum, dos homens. Detesto o comum. Gosto do inusitado, daquilo que me faz gostar somente por não saber a razão. E há várias mulheres, cada uma delas com nomes ou até as inomináveis. Vejo semblantes enfadonhos, crueis, tristes e sombrios. Vejo rostos endurecidos, vejo olhares perdidos, vejo gestos mecânicos, ouço palavras não pronunciadas. São elas, as mulheres. Elas me cercam, me incomodam por serem assim. Dizem que desejam apenas por medo.

Estar incomodado é estranho, porém bom. Ser incomodado por elas é bom e estranho ao mesmo tempo. Vezes presto atenção em detalhes, pequenos gestos e ponho-me a pensar em tudo. Soturnamente, enxergo um rápido gesto em busca do infinito. Brinco, e nem dou risada. Dizem que desejam apenas por medo. Outras vezes, nem me importo porque incomodado, deixo de lado. Mas não é sempre. É como se houvessem horas em que tudo o que faço é prestar atenção nos meneios.

Algumas são fortes, doem-se pelos filhos, pelo marido, pela família que é o mundo inteiro. Essas brigam, agem, são. Mas desmoronam sozinhas no banheiro durante o banho e não entendem. Eu também não entendo. Elas choram. Outras são bonecas frageis, delicadas, quase insanas. Estas são as que dançam, rodopiam no salão ao som de uma valsa qualquer. Elas não choram mais. Já estão rasgadas por dentro. Dizem que desejam apenas por medo. Continuam, parecendo frageis bonecas e são assim.

Elas me assustam. Elas me cercam e não posso viver incólume a isso. Pois há também o riso gratuito, o repentino olhar de interesse renovado, o breve suspiro de surpresa. Imagino cada uma delas em cenas brilhantemente ilustradas como pinturas de Monet. E todas passam a fazer sentido em um segundo. Mas não para mim. Elas continuam a me assustar. Dizem que desejam apenas por medo. Um riso de alegria me desperta curiosidade e o repentino olhar me corroi de um medo paralisante por não saber. Apenas isso: não sei.

O sombrio de cada uma delas é-me um mistério indecifrável. O olhar que critica é o mesmo que acolhe, a palavra que agride é a mesma que acalenta, o silêncio que destroi é o mesmo que grita “Avante!”. No meio desse jogo de luz e sombra, fico atento. Não para descobrir a diferença entro o claro e o escuro. Somente para ver, prestar atenção e me atordoar indefinidamente. Dizem que desejam apenas por medo. E ainda assim, não sei o que é isso. Gosto, com medo.

Dizem que desejam apenas por medo. Por não saberem não desejar. Por não saberem viver sem o medo. Por não saberem. E cada uma delas, com seus lados invisíveis, com suas facetas óbvias, com seus olhares indefinidos, são mulheres das quais gosto. Distante e assustado, são parte de mim. Assemelham-se a folhas caídas durante o Outono.

Rir do ridículo

Porque muitas vezes tudo que a gente quer de verdade é rir do ridículo que é um pedaço ou outro de nossas vidas.

Você é gordo? Se acha feio? Te acusam de chato, ignorante, bruto, insensível? Tem as pernas cabeludas demais para uma mulher? Sua barriga de tanquinho, sr. saradão, é daquelas ovais e murchas? Ou flácidas? Ou pontudas? Tem gente que acha que você fala demais? Fala alto demais? Um ou outro te ataca com sarcasmos mal colocados (porque até para ser sarcástico você tem de saber sê-lo) Qual é o problema? Aceite-se. Diga para todo mundo que você é assim, maravilhoso/a. Se você não se gosta, não se respeita, espera a condescendência dos outros… Sinto muito: você está fazendo do jeito errado. Está vivendo e sendo do jeito errado.

Ria de você mesmo. Há dois benefícios terapêuticos nisso. O primeiro é que rir é bom para a saúde (vejam qualquer pesquisa sobre isso no Google). O segundo é que, rindo de você, você não abre espaço para os outros rirem de você, ao contrário, você abre espaço para os outros rirem COM você. E, convenhamos, rir junto é bem mais engraçado. Até porque, alguém sempre pára de rir antes e o silêncio constrangedor depois do riso gera, nada mais, nada menos do que mais riso.

Por que não se achar inigualável no universo? Todas as pessoas são. até gêmeos são diferentes entre si (mesmo que já tenham usado a mesma roupa de marinheiro durante os dias de infância). Por que pensar que o sol não nasce para todos, mas sim para você? É verdade. O sol nunca é visto do mesmo modo por mim e por você. Acordou e viu que seus olhos estavam mais verdes, pretos ou castanhos, mais brilhantes que ontem? Ótimo. São seus olhos, não os de outra pessoa. É o que você tem. É o que você é. E daí se os outros não acham a mesma coisa dos seus olhos? Elas tem os delas. Que se enxerguem a partir deles.

Acham que sua opinião é furada? Problema! Ela é sua. Ela te faz ser quem você é, e não outra pessoa. Já imaginou se todos fossem como os alunos do filme “The Wall” do Pink Floyd? Sem rostos, caminhando para o mesmo destino (a máquina de moer, para quem não viu)? Trágico! Hoje todo mundo quer pertencer a alguma tribo, grupo, seita ou sei lá. Mas tais pessoas esquecem o essencial: se pertencerem a si mesmas.

Goste do seu corpo. Goste dos seus olhos. Goste de suas neuroses. Goste de sua risada alta e ridícula. Goste do seu andar de pato. Goste de tudo que faz você ser quem você. E se há algo que você não gosta em você, mude por você ou se acostume com o suposto defeito. Até eles fazem de você quem você é. Só não espere que outros façam isso por você. Os outros não irão fazê-lo, a menos que de fato te amem, como você deve ser amado/a e se amar.

É isso. Faça os outros rirem. Ria, também.

Espalhar-se

E me espalho lentamente encontrando partes que deixaram de ser? Talvez agora. Não ontem. Espalhar-se é encontrar a graça de não saber quais pedaços nos compõem. É uma alegria insossa, mesclada com o inusitado de perder-se em partes. As cores menos vívidas surgem daí. Ainda assim, é alegria. Espalhar-se, deixar-se em partes, não encontrar o fio condutor é o destino de todos para a humanização? Não ontem. Talvez agora.

E se não me faço inteiro é pelo fato de não me querer completo. A completude dá medo. A completude tira o medo, também. Estar completo é negligenciar a necessidade de sermos completados pelos outros. O medo do outro e o medo pela ausência do outro. É inconstância, mas é composição humana. Quero-me humano e incompleto. Aprender é assim, do mesmo modo. Aprender a desconhecer o ser que achamos conhecer é o mais absoluto reflexo da condição de humanização pela qual experimentamos o milagre mundano de sermos. Mas, se não o somos, deixamos a experiência? Em absoluto.

Experimentar ou experienciar é igualmente imprescindível à nossa condição quanto as cores menos vívidas que percebemos no cotidiano. Não o fazendo deixamos apenas o vazio que poderia ter sido preenchido com as dúvidas. São elas o nosso porto-seguro? Talvez amanhã. Elas também colorem nosso espalhar. São tons pálidos, paralisantes, por vezes inadequados. E são nossos. Nossas tonalidades. Mistérios invisíveis que se desnudam a cada resposta obtida. Mistérios menos visíveis quando na boca se calam perguntas nunca feitas. E me espalho lentamente diante de partes que deixaram de ser.

Agrada-me a experiência de experimentar a mim mesmo nesse processo de partes conhecidas e reconhecidas e reaprendidas e negligenciadas. Não é novo, não é elétrico. Não é nada. Apenas agrada-me com essa certa alegria insossa do inusitado. É como ver Deus em mim. É encontrar a magnitude inapreensível de poder não-ser o que já deveria ter sido conhecido e continua um mistério insondável para a minha humanidade? Encontrar Deus em mim é ver tudo isso. É saber do mistério e nada poder fazê-lo. Ele está lá. E as experiências também.

E me espalho lentamente encontrando partes que deixaram de ser. Nesse exato instante. Pois espalhar-se é dar-se ao luxo excêntrico de poder olhar-se em partes pequenas e juntá-las, como em um jogo de crianças, para construir-se, moldar-se do modo que se quer. E quero-me desse modo: humano em partes espalhadas. Brincar com os outros nessa construção é, igualmente, parte da humanização necessária. E se me junto hoje, deixarei de sê-lo amanhã? Nunca o saberei. Espalho-me lentamente, ontem, hoje, indefinidamente.

Limites

Há em nós uma peculiaridade, no mínimo, interessante. Chama-se limite. Os limites que impomos a nós mesmos e aos outros para nos protegermos de sabe-se lá o quê. É um certo quê de profano, de místico, de insondável nisso. Talvez, nenhuma das palavras que usamos possam, efetivamente, explicar a razão pela qual impomos nossas barreiras diante do outro. E, certamente, não há necessidade disso, da explicação. Sabemos apenas que impomos limites, e pronto.

Considero que esse não seja um defeito, nem tão pouco uma qualidade. Creio, até que possam me provar o contrário, que impor limites é intrínseco ao ser humano. Quantas estórias e quantas Histórias circundam as vidas ao nosso redor? Há tanto mais que não é sabido por nós em relação aos outros e mesmo até por nós mesmos. Por isso os limites, as barreiras, é nosso jeito de dizer: “é possível ir até esse ponto, e só”. É porque, nesse ponto, reside a nossa fragilidade. Contudo, não se pense fragilidade como fraqueza, mas como algo que não sabemos como lidar.

É a incapacidade característica de cada um de poder não enfrentar aquilo do qual não se conhece. Um insulto, um elogio, um choro, um riso descontrolado, um silêncio… Cada um sabe a exata forma que todas essas coisas podem tornar-se ou agigantar-se dentro de nós. E por não sabermos o que fazer com isso, impomos os limites.

O curioso é que mesmo impondo limites para isso ou para aquilo, findamos por impor limites a certos acontecimentos que, idealmente, não deveriam possuir limites, barreiras. O sentimento por alguém é um desses acontecimentos memoráveis. Todavia, impomos. E impomos, também, por não saber como lidar com isso. Não é que não saibamos lidar com o sentimento em si.Isso é claro para quem sente algo. A questão é que devido aos medos, aos receios, ao que passou e não foi agradável, o fato de estarmos sentimentalmente ligados a alguém nos incomoda. E é assim por não sabermos quais limites impor ou mesmo se devemos impô-los. Mas eis que surge a questão: se impomos limites, perdemos algo? Ou perdemos algo se não impusermos os limites? Ou ainda, no processo contínuo de imposição ou falta de imposição, perdemos ou ganhamos?

É possível, quase certo, quem saberá… que perder ou ganhar torne-se irrelevante. Afinal, em um momento ou outro, haverá uma imposição, mínima que seja, sobre algo. Somos assim, defeituosos – se é que posso dizer isso – por natureza. São esses defeitos que nos tornam quem somos, que permitem serem reveladas as subjetividades, os vícios, os enganos e desenganos de nossa condição. Sem limites, não há individualidade, sem individualidade, não há subjetividade e sem subjetividade, o óbvio: não há sujeito.

Melhor sermos cheios de limites do que não o sermos. Há, claro, que se estabelecer os limites para imposição dos limites. Entretanto, isso não implica não sermos neuróticos, ou absolutamente normais, seja lá o que isso signifique.

Esquecimento

Por mal ou por bem, nunca esquecemos. Nem o mal, nem o bem que nos fizeram. E resta, quase sempre, um sabor agridoce em nós. Vezes muito doce, são as memórias quase permanentes dos particulares instantes em que vemos o que de bom ficou ao nosso lado. Outras, o amargor das lembranças que nos perseguem.

De fato, menos importa distinguir se foram bons ou maus momentos. Resta somente o saber lidar com. Saber o que fazer com. Possivelmente, nem mesmo isso importa. Nunca esquecemos. Aliás, esquecer não nos é uma prerrogativa humana. Se fomos condenados ao livre-arbítrio, fomos, igualmente, marcados por essa marca indelével do não-esquecimento.

Seguimos sendo. Seguimos lembrando, nunca experimentando o luxo do esquecimento. Porque esse é um algoz inominável. Do mais puro e límpido nada do nosso pensar, surge o seu imperfeito antônimo: lembrar. Fere como lâmina afiada, desafia como ferida exposta, expõe como cicatriz aberta, revela como espelho iluminado. Impossível escapar do que a falta do esquecimento nos impõe.

Ora rimos, ora nem mesmo isso. Ainda que tentemos, não nos é parcial ou completamente possível. E de tantas facetas – como éramos, como poderíamos ter sido, como deixamos de ser – nunca conseguimos, efetivamente, sê-los. Ser esquecendo, ser não lembrando, ser apenas deixando de relevar (ou revelar?) o que lembramos.

São cadeias infinitas de pequenos gestos, de grandes ações, de incomensuráveis “algos” que impossibilitam um outro caminhar. Nunca esquecemos, sempre lembramos. Nunca permitimos por completo, sempre evitamos algumas partes. Talvez um duelo cujas regras não foram explicitadas. Ou, talvez, um explícito duelo sem regras. Nele digladiam-se o que já não desejamos porque repelimos e também o que pensamos querer porque rapidamente escolhemos. Em um ou outro caso, sequer conseguimos antever o que será parte do esquecimento e o que será parte da lembrança, mesmo porque o primeiro já não há mais. Nunca houve.

Se há um bem ou um mal, de fato, ambos são relativos. O meu bem pode ser o mal de outro. O bem de outro pode ser o meu mal. E ainda existe a possibilidade de que não haja bem algum. Sempre há um mal. E, novamente, não importa distinguir isso. Há sempre o mal. O do esquecimento, o do lembrar, o do amargor intransponível que nos permanece na boca.

E, quando podemos aliviar esse gosto, não o fazemos conscientes. Dormimos, trabalhamos involuntariamente o que nunca poderemos apreender e nos conformamos. Pois não há outra forma além dessa. Reféns que somos do que não conhecemos, do que não revela com clareza, tentamos nos adequar ao possível e suportável limite do existir inconsciente. É exatamente esse vulto gigantesco que nunca nos permite esquecer, que sempre insiste em nos fazer lembrar.

É essa sombra assustadora do que não sabemos sobre nós que insiste em impossibilitar nosso esquecimento. As lembranças de nós mesmos se diluem com o desconforto de não podermos esquecer (ou ser?). E seguimos sendo, pela metade, pela inconsistência de não sermos completos, por desconhecermos quem somos e o que não esquecemos.

Em tempo

Há solidões. Há momentos. Há fugacidade. Há, também, sincretismo. Nas quais estamos cercados, mas nenhum rosto é conhecido. Quando paramos e fixamos o olhar em um ponto distante e esquecemos que eles passam. Porque, assim, conseguimos encarar o fato de que precisamos retornar ao que nos parece de mais concreto, mesmo que irreal. Pois, somente assim é possível unir pontas, unir pontos, ou apenas unir algo.

E há dispersão de sentidos. É como o discurso, sempre disperso, sempre plurivocalizado, sempre feito de equívocos. Somos como o discurso. Somos feitos pelo discurso. Por vezes, revelamo-nos, e por tantas outras nos escondemos nele mesmo. De facetas e facetas nos constituímos. Porque há solidões que não permitem a revelação total do que nos permeia os sentidos.

Sentir todos os sentidos só é possível quando esquecemos que eles existem. A plena consciência do enxergar a si próprio ofusca o ouvir-se a si mesmo, o pensar-se a si próprio, o falar consigo. Pois, se paramos e perdemos o olhar em um lugar qualquer, esquecemos. É, então, quando sentimos todas as possibilidades de estar – inexistindo -, ou de ser não permanecendo. Porque há momentos em que a inexistência é o único lugar desejável para não sucumbirmos ao sermos quem somos.

Não ser é o que, possivelmente, nos permite Ser. Vivemos de fugas rápidas, de modelos quase-prontos, de prontidões inacabadas. É mais seguro, mais confortável, e menos Ser. Assumirmos a nós mesmos, sendo o que forçosamente evitamos ao sentir, é apenas uma parte de quem talvez nunca sejamos. São as irrealidades que nos impomos em busca de nossas absurdas (in)sanidades. Porque é não-sendo que identificamos como quereríamos ser. Não-ser é o lugar dos encontros com nosso desejo animal de querer ser. E eternizamos isso por dois ou mesmo cinco minutos.

Somente havendo solidões, somente havendo momentos, somente havendo fugacidade é que torna-se tolerável existir sozinho e fugindo. Mas também é por isso que suporta-se o fato de não existirmos acompanhados e com certa constância. Regularidades, dispersões, significados, implícitos, silêncios, vozes multiculturais… São apenas termos, palavras nesse momento. E por isso o necessário sincretismo: a possibilidade de unirmos o que parece incorrigível, o que prenuncia a ambiguidade, o que possibilita unir algo. O que seja, em tempo.