A vida é “invivível”

Não sei se recordarei, no futuro, um certo diálogo que tive com uma respeitável pessoa em um desses dias indiferentes. Contávamos ambos um divórcio. Falávamos sobre anseios, dúvidas, certos medos inerentes à condição humana. Divagávamos a respeito do que não poderia ser evitado durante os pesados passos, resultantes de toda existência humana. Claro, entre tais divagações estava o inegável fato de que muito já era em si evitado por uma certa parcela da existência humana. Essa exata parcela que não prevê, que não antecipa, que não reflete sobre a inerência dos medos, dos anseios e das dúvidas. São o que posso chamar de ignorantes. Excetuando-se toda a conotação negativa do termo, refiro-me aos que ignoram aquilo que vivem. Indiscriminadamente ignoram. Do gozo quase celeste de algumas conquistas até mesmo a dor mais profunda de uma perda. Essa parcela, simplesmente – embora creia não ser tão simples assim -, vive sem questionar. Vive em uma aparente, ao menos para mim e para quem mantive o diálogo, margem de tudo que possa vir a ferir, a machucar, a ser irresolvível, a alegrar, a provocar êxtase. Vive: apenas.
Por ocasião da conversa, não decidimos se isso era bom ou ruim. Aliás, nem mesmo sei se importa ser algo. A vida, disse eu, é “invivível”. O fardo ao qual nos impomos pela exata e precisa condição de estar vivo torna-se suportável somente porque não há outras formas de deixarmos de carregá-lo. É possível deixar de lado, é possível ignorá-lo por um tempo, é possível, inclusive, acreditar que não há fardos, mas apenas consequências ou causas de qualquer outra coisa que não seja um fardo.
Verdade é que fardos existem. Toda nossa vida é um inevitável e lento caminhar para não-se-sabe-onde carregando não-se-sabe-o-quê. E seguimos, parando algumas vezes, reduzindo o passo outras, desistindo quase sempre. Ou, o contrário: nunca desistimos porque isso é inevitável. Viver é uma inevitabilidade, ainda que “invivível”.
Concluir logicamente: isso é um processo doloroso e sem fim. Possivelmente, até, sem saída. Vivemos porque vivemos. E com fardos que pesam, para uns, muito, para outros, nem isso. A alegria dos que vivem à margem de reflexões acerca da condição e fragilidade humanas deveria ser celebrada. Não sei, exatamente, de onde vem o dito “a ignorância é uma benção”, mas mesmo sem saber, admito que isso é uma verdade que não pode ser excluída de nossa oração diária (se é que é possível haver uma e uma só).
Estar alheio às dores que nos só comuns deve ser bastante enriquecedor. Parece-me que não pensar, que ignorar fatos, excluir traumas, mascarar o desagradável, desdenhar do penoso dormir e acordar permitem, aos que assim o fazem, gozar uma vida com um pouco mais de plenitude. E, sim, o verbo é “gozar” mesmo. Com todas as suas acepções.
Isolados não conseguimos viver. Fomos marcados, como bois: a ferro e fogo, a precisarmos viver com outros. Para o bem e para o mal. Para os que nos fazem sorrir e para os que nos fazem desabar em um choro convulsivo. Se nos afastamos daqueles que nos fazem mal, constitui-se um ato de coragem. Mas, o mal já foi feito. A dor já foi causada. O fardo já está sobre os ombros e não é mais possível retirá-lo de lá. Evitamos um que nos fez mal, que nos feriu e… vem outro e faz com que experimentemos a mesma sensação já vivida e já evitada.
E para os que nos fazem sorrir, cometemos o erro de necessitarmos tanto do outro a ponto de não mais distinguirmos nossa própria subjetividade. Aliás, a subjetividade também se constrói dessa forma: através do outro. E sufocamos com sua ausência. E o sufocamos com nossa presença. São dois olhares distintos sobre uma mesma situação: inevitável não haver equívocos.
Não sabemos ser sozinhos. Não conseguimos fazê-lo. A humanidade é uma condição impossível de ser vivida. Com o outro ou sem o outro, sempre carregamos os fardos que não deveríamos. E os poucos prazeres que sublimariam nossa existência são relegados pela própria necessidade de sobrevivência e subsistência. Constatar que para vivermos plenamente é necessário sobreviver e subsistir não é algo prazeroso. É penoso, é dolorido, é frustrante, é infinitamente pesado para ser, ironicamente, “vivido”. Creio que um tratado de vários volumes versando sobre a condição humana e sua necessidade de existir com o outro considerando as Artes, a Música, a Pintura, a Educação, a Filosofia, a Psicologia, a Literatura, a Política, a História… seria um trabalho irrealizável para apenas uma pessoa. Mas para duas, definitivamente seria impossível: a discordância imperaria.
Freud falava de sublimação. Na verdade, isso se resume a resignação. Diante da vida, só resta ignorar tudo e aceitar que, apenas pelo simples fato de não poder haver mudança, a vida, em si, para os que pensam sobre ela, ainda que pouco, é “invivível”.

Descrença

Algumas vezes é preciso acreditar. Em tempos como esses, parece que nem mesmo isso é possível. Recentemente, vi novamente um filme antigo: A excêntrica família de Antonia. Pelo título, não parece ser muita coisa. No entanto, esse é mais um clichê: as aparências enganam. Sem resumir o filme, limito-me apenas a dizer que a estória e suas nuances inaparentes são, por vezes, paradoxais. Enquanto em sua essência a estória celebra a vida, o amor, o acolhimento, a tolerância, o respeito ao próximo, as entrelinhas são repletas de humanidades (o lado negativo delas). O julgamento, as acusações, as chantagens, a relação amor e ódio que perpassa a todos, a alienação e, para mim o mais importante: a inevitável conclusão sobre a vida: ela é insuportável.

Um dos personagens do filme, amigo de longa data de Antonia que é a protagonista da estória, finda por dar cabo de sua vida. Para ele, ser é insuportável. Estar no mundo, também. E não raro são as manifestações desse tipo de conclusão, ainda que no nível ficcional (uso outro clichê: a arte é mimese). E isso vem funcionando bem até mesmo para ficções científicas. O que acontece com o clássico Matrix? Neo apenas deseja parar a guerra e dá sua vida por isso. Ele poderia encontrar outra forma. Tudo bem que à época do filme, intertextualidades e análise filosóficas pipocaram por todos os lados. Mais recente é o caso do filme Ela. Um sistema operacional que desenvolve-se a partir das interações com seus donos-usuários. A complexidade do filme é tamanha que o próprio sistema conclui que é melhor se apagar (excelente metáfora para o suicídio, ao menos eu achei).

Mas para que ninguém ache que venho pensando em me matar, esclareço: o rumo que a sociedade está tomando com sua ausência ao respeito com o outro, o crescente egoísmo e egocentrismo, o deboche, a falta de regulação nas ações humanas no tocante ao ser no mundo com outros me leva a pensar que o recluso do filme de Antonia e o sistema operacional do filme Ela chegaram à conclusão mais lógica possível: viver é impossível se existe a pretensão de pensar que isso é algo bom.

Perdoem-me os otimistas de plantão, mas o milagre da vida me soa hoje apenas como uma combinação de matemática com química e biologia, nada mais. Não existe milagre nas manifestações de vida que hoje presencio. Existe um resto de DNA animal impregnado em hominídeos. A humanidade atestou e cada vez mais forte atesta sua incompetência em existir. Não me excluo do que falo, mesmo porque se o fizesse toda essa reflexão seria um paradoxo, tal qual o filme de Antonia.

O Realismo, período literário confuso, que misturava a arte da escrita com as teorias científicas foi, para mim, um dos que melhor representou a sociedade. Machado de Assis foi um mestre da ironia, das observações acerca do caráter dos seus personagens. Eça de Queiroz, em sua A Relíquia tratou com maestria a hipocrisia interesseira e capitalista do seu protagonista (e de novo podem até mesmo mencionar que ele se arrependeu e blá blá blá). O fato é que ele foi e fez o que tinha de fazer segundo a visão particularíssima do autor. No O Cortiço, a sensualidade e o desregramento imperavam, além de trazer o belo cenário da exploração do outro.

Ora ( direis ) ouvir estrelas! Certo, mas não perdi o senso. Que não seja nem a sétima arte nem a literatura no que me baseio para refletir aqui. Senão vejamos: noticiários: morte, corrupção, crime organizado, economia falida globalmente, fome, violência urbana, violência sexual, assassinatos em série, traições, pedofilia, injustiças. Novelas: sexo, traição, violência, desonestidade, desestruturação familiar. Governo: corrupção, favorecimentos, omissões, troca de favores, mentiras, acusações. Igrejas: pagamentos pela salvação, acusações, conversões impossíveis, atitudes condizentes com as doutrinas mal interpretadas. Educação: esse eu me limito a dizer: uma piada.

E sei que virão os otimistas: olhe a natureza, viaje, relaxe, ouça uma música, mude seus hábitos, tenha paciência, cultive coisa boas no coração, releve, deixe de amargura. Uma palavra: não. Duas ou mais: não, recuso-me a continuar acreditando que ser vale a pena, que viver valha a pena. (Não irei me suicidar, não pensem nisso pois estão perdendo tempo). São conclusões, apenas.

Talvez mais do que isso. Um manifesto sobre a minha total descrença na possibilidade de haver satisfação na vida. Não nesses tempos, não nas condições atuais e futura dessa sociedade. Afinal, como acreditar em uma espécie que vai a lua e deixa outro morrerem de fome? Ou pensar que a cor da pele um dia deu direito a alguém de escravizar outros? (Hoje não é mais pela cor da pele, é pela força bruta) Ou entender como se põe relevância nas lutas pelas minorias? Por princípio ideológico meu, elas nem deveriam existir. Nem minorias, nem maiorias, apenas diferentes em um mesmo espaço e com os mesmos direitos e deveres para com todos os “conviventes”.

É simples: deixar de acreditar e somente esperar. Celebra a apatia, pois a “alegria, alegria” foi um impulso tropical como consequência dos mesmos erros ainda recorrentes: eu posso, eu mando, eu elimino se você é contra. Em resumo: eu não dou a mínima para você, o que me interessa sou eu. E esse discurso perpetuar-se-á indefinidamente.

Humoristicamente, mas com toda a solenidade afirmo: o Urtigão é que é feliz. Quem me dera poder ter uma ilha e provar que todo homem pode, sim, ser uma ilha.

A solidão do Mal

Uma das coisas que mais acho curioso, embora o assunto seja trágico também, é a manifestação do Mal. Sim, com letra maiúscula mesmo que é para indicar a influência do tinhoso, do pé-de-cabra, do inimigo, do tentador de Jesus na vida de pobres mortais. Não irei discursar sobre religião nem afirmar que “Só Jesus Cristo Salva”. Meu intento é, a partir de um ponto de vista de fé mesclado com alguma lógica, refletir um pouco sobre a solidão do Mal. Precisamente, das consequências de suas ações na vida dos seus influenciados.

Ilustrando, começo citando a ficção. Na maioria dos filmes e séries, independentemente de gêneros, há o combate entre o heroi e o vilão. Uns querem dominar o mundo, outros querem o poder completo de uma companhia farmacêutica, de um país, de uma cidade ou, o nada original, do mundo. Lá se vai o heroi lutando, levando porradas, tomando balaços, sendo torturado, tendo seus familiares ou amores sequestrados ou mortos até que, pasmem, ele, depois de todo o infortúnio, derrota o vilão.

Bem, derrota em partes já que o Mal sempre deixa seu legado (veja por exemplo o Coringa na série Gotham…). E aí, já velho e cansado, cheio de dores pelo corpo, vai-se o heroi de novo enfrentar o mal. Lógico, em suas batalhas ele fez coleguinhas que estarão prontos a ajudá-lo e, em alguns casos, esse mesmo heroi também deixa um legado. Filhos, talvez. E a história se repete.

Nesse perde-ganha-perde-ganha entre vilões e herois, eu me pergunto: supondo que o Mal vença em definitivo, o que ele vai ganhar com isso? O mundo é a resposta mais óbvia, certo? Errado. O mundo é feito de pessoas. Pessoas têm livre-arbítrio. A escolha é, geralmente, por aquilo que faz bem as essas mesmas pessoas. Quer dizer, boa parte das vezes escolhemos aquilo que nos faz bem ou achamos que nos faz. Então, se o Mal vence, ele escraviza porque sendo senhor absoluto, conceder alguma coisa ao outro por bondade é o oposto de ser vilão. Na prática: ele poderá querer uma companhia, um, digamos, affair. Afinal, o Mal deve ter lá suas necessidades. Quem ficará com o vilão sem ser por obrigação? Somente outro vilão. Haverá amor? Pode até ser, mas com um baita interesse de uma das partes do tipo visto em Hamlet. E se for por obrigação, não há lá muito sentido nisso.

Pensemos em uma eventual situação: o Mal deseja sair e comer tacos mexicanos e convida a parceira/o parceiro. Provavelmente a companhia irá de má vontade, mas irá. Quem pagará a conta? Se o Mal domina o mundo, ele deve ser o dono do local, então isso não será problema. Sobre o que conversarão? O dominador não terá mais objetivos, pois já conquistou tudo. A dominada/o dominado ficará em silêncio já que está ali por obrigação e, possivelmente, deve temer o seu Senhor. Convenhamos, ficar sem falar é um saco algumas vezes. Aquele silêncio constrangedor que às vezes acontece entre pessoas normais nunca poderia ser quebrado pelo Mal com algo do tipo: “- Será que chove hoje?” Nesse caso, valeu mesmo a pena dominar o mundo? Eu particularmente acho que o mundo é muito grande para ser dominado. Em algum lugar sempre vai haver alguém tentando derrotar o Mal e ele não saberá, mesmo sendo Senhor de tudo. Um saco isso!

Entrando na vida real, pensemos na lógica de namorados, noivos, maridos ou amantes que cometem crimes por doentio ciúme. Estão lá os dois apaixonados no mesmo restaurante de tacos mexicanos que o Mal e sua companhia (é preciso um cenário, certo?) e uma discussão inicia. Palavrões para lá e para cá, a Maria da Penha ignorada pelos policias que fazem ronda pelo local e o marido diz que não aceita o término. Se ela não for dele não é de mais ninguém. Passa a noite e o outro dia, ele arrependido liga para ela sugerindo conversarem e na hora do encontro dá-lhe 30 facadas. Esconde o corpo e vai ao shopping. Depois liga para a polícia dizendo que a esposa não aparece em casa há uns três dias. No final, sabe-se que foi ele. Termina preso.

Afinal, ganhou o que com isso? Perdeu, literalmente, a companheira. Não é dele, não é de ninguém. Para nunca mais. Ele preso pode até sair com pouco tempo, mas ficar enjaulado com um monte de outros homens, talvez muito mais violentos e desequilibrados do que ele valeu a promessa de não deixá-la ser de outro? Sairá como ex-presidiário e terá dificuldades de encontrar um trabalho. Sim, o receio existe e é normal – ao menos para mim. Perderá, no caso de filhos, o amor deles. A família, talvez com exceção dos pais, se afastará e o mesmo se aplicará aos amigos e conhecidos. Ficou só. Possivelmente, evitará isso mentindo. Mas eis o detalhe: mentir sobre si, para mim, é não ser quem se é de verdade. Uma outra solidão: é-se pela mentira. Meio louco isso!

Mais vida real ainda. Políticos! São eleitos, prometem mundos e fundos, fazem uns projetos de lei nomeando rodovias ou decretando feriados, votam contra o que é certo, apoiam os chefes de estado apenas por interesse. Essencialmente roubam o dinheiro das pessoas como eu e você que, acho, está me lendo. Um cálculo básico, bem básico mesmo me leva a considerar o seguinte: uma família de quatro pessoas, no Brasil, consegue viver bem, não ótimo com cerca de dez mil reais líquidos (para o ano de 2017…). O que danado se quer com 10, 20, 30… N milhões por mês? De propinas, de negócios excusos, de vantagens em negociatas. Mas é isso que se quer. Vamos a questão da solidão do Mal aqui.

Deodoro, um político fictício recebe 20 milhões de reais em vantagens nos negócios relacionados às licitações. Ele tem diversos apartamentos no Brasil e no exterior, viaja sem gastar nada já que usa aviões da Força Aérea Brasileira, tem várias férias por ano, possui cerca de 20 carros de luxo, entre nacionais e importados mas só tem duas pernas e um corpo para dirigir cada um dos carros, só pode ficar em uma casa de cada vez, só descansa em um lugar e em um período de cada vez. Por que? Ele é só um, claro. Então o Deodoro fica doente. O único corpo que ele tem está debilitado e a resposta dos diversos especialistas nacionais e internacionais é a mesma: não há cura. Você tem alguns meses, poucos de fato, de vida. Pronto, juntou tanto dinheiro para si e para a família e não poderá mais gozá-lo.

A família, exemplo um, acostumada com a boa vida, não sabe administrar o dinheiro e fica bem menos rica sem o patriarca. Ou, exemplo dois, a família segue o legado do Deodoro, a exemplo da ficção e repete tudo de novo. Independentemente de doenças, essas pessoas também irão morrer e como caixão não tem gaveta, nada levarão. Pode-se argumentar: De fato sobre o caixão está correto, ele não tem gaveta, mas sendo Maus, roubando, tiveram a vida que desejaram com muito conforto e luxo.

Entra aqui a minha questão de fé: seja qual for o seu Deus, uma mensagem é sempre idêntica em todas as religiões. Ame o próximo, seja honesto, ajude a quem precisa. Lembrando que não roubarás é um mandamento para católicos, judeus e, para os muçulmanos, corta-se a mão de um ladrão . Se morreu nessas circunstâncias, irá para o céu. Mas se morreu nas circunstâncias do roubo, vai passar a eternidade no limbo.

Certo, possivelmente o Mal irá fazer com que você deixe de acreditar no limbo ou mesmo na vida eterna. Bem, acho isso complexo porque viver sem acreditar em alguma coisa maior do que si próprio é atestado de autossuficiência, o que, algumas vezes, leva você a solidão. Sim, se você é suficiente a você próprio não sentirá falta de alguém para ir ao cinema, nem para fazer a feira de verduras semanal com você ou mesmo tomar uma cerveja com fritas e calabresa no domingo pela manhã na praia. Esses tolos exemplos podem levar a um isolamento. Nada mais “sinonímico” para solidão do que isso.

Acho que solidão, pela maldade, deve ser bem inconveniente. Por mais que se deseje, sempre se estará sozinho. A probabilidade de se ter companhia pelo bel prazer da companhia, ainda que existente, é reduzida. Os Maus arranjam um modo de se acharem, mas não será companhia verdadeira, aliás, será verdadeira, mas por interesse.

O Mal ou o mal ou as pessoas más vivem em uma solidão imensa no final das contas. E ainda assim insistem em vivê-lo. Ser bom é algo bom. Só se vive uma vez, acumular, roubar, matar, estuprar, enfim, fazer o mal é sempre solidão. Eu poderia estender esse texto a muitos parágrafos mais, porém creio que deixei claro minha perspectiva.

Tudo de nós sem nós. (ou a Nova Ordem Mundial de Anulação do Outro)

Deparamo-nos com uma nova ordem mundial que de nada tem de teoria da conspiração. É uma realidade plena, pura e absoluta que a cada dia vem sendo mascarada por novos discursos que apontam para a modernização, o crescimento pessoal e profissional bem como a aquisição de conhecimento (também conhecido, falsamente, como acesso à informação) como fatores responsáveis por uma (suposta) melhoria dos seres humanos e, por tabela, da condição de “ser” humano. Parte significativa dessa ordem deu-se com as novas tecnologias de informação e comunicação propiciadas pela Internet. Outras forma apenas transformações mais explícitas. Chamo-a de Nova Ordem Mundial de Anulação do Outro.
Sei pouco sobre diversos assuntos. Sei menos ainda sobre as relações estabelecidas ao longo dos anos entre os homens. Aliás, sei apenas o que aprendi nos textos sobre História que li (que, confesso, não foram muitos). No entanto, mesmo com essa parcela considerável de ignorância da minha parte, aprendi que nada no mundo é mais essencial do que o respeito ao outro. Creio não não seja simplesmente por questões éticas ou morais, tratadas pela Filosofia. Tampouco pela necessidade de qualquer tipo de contrato social exigido pelos membros das comunidades que se organizam em sociedade, algo investigado pela Sociologia. Acredito que esse respeito é essencial porque não existe eu sem o outro.
Sem esse outro não existimos porque é a partir das experiências pessoais, culturais, intersubjetivas, intelectuais, afetivas, raivosas, egoístas, enfim, que somos. Acreditar que uma pessoa qualquer pode se tornar um Alguém ignorando o requisito básico do outro em nossa vida é permanecer na crença de que a Terra gira em torno do sol. Isto é, que somos (e isso em si já é uma contradição) sem que exista nada além de todas as coisas feitas para mim e a partir de mim. Tosco e absurdo.
Ser é, em essência, estar com o outro a partir das diferenças, não em razão das semelhanças. Mas tal raciocínio não se aplica mais. Ser, atualmente, é acusar o outro de não pensar, agir, falar, vestir, sentir, cuidar do mesmo modo que o fazemos em nossas realidades cognitiva e emocional privadas.
O que me leva a considerar essa nova ordem mundial são os meus particulares olhares sobre o funcionamento de certas ações individuais e coletivas. Comecemos pela mídia. Acreditamos até certo tempo que as notícias veiculadas pelos meios de comunicação eram, de fato, os temas e assuntos locais ou mundiais que deveríamos saber a respeito. Nossas verdades eram moldadas por essa regulação seletiva dos meios de comunicação. Em parte, isso ainda é verdade, todavia essa regulação seletiva do rádio, da televisão e da “imprensa impressa” passou a considerar que fotos de famosos que foram internados por conta do uso de drogas eram assunto relevante visto que a “superação” dessas pessoas era uma incrível estória de vida. Ou ainda a espera de um filho de um casal recém-escolhido pela mídia, cuja gravidez, supostamente, requeria somente repouso da parte da gestante, para representar o desejo da coletividade em formar uma família baseada naquele modelo – diante das dificuldades – pode, hoje em dia, ser assunto que rende páginas e páginas de revistas de fofocas. Temos ainda as acusações selecionadas de escândalos selecionados de pessoas selecionadas na política, na religião, na etnia, no gênero…
Ora, por qual razão, então, a mídia não veicula casos de jovens pobres, brancos ou negros, que por causa de uma violência doméstica e social constante acabaram por encontrar refúgio, consolo, fuga nas drogas e a superaram? Isso não é estória de vida? Ou ainda, em função de quê não se escolhem nordestinos miseráveis, que passam fome, sede e outros tipos de privações mas que mesmo diante de uma gravidez (mais uma entre outras nove ou dez…), resignados e firmes, afirmam que por nada no mundo deixariam seus filhos serem adotados, justificando que mesmo na miséria crua – um tipo de dificuldade bem palpável -, um filho é ainda um dos melhores presentes da vida, de Deus? Na política a direita acusa a esquerda, o centro ataca a direita, a esquerda se faz de coitada e ataca ambos e, no fim, todos são inocentes. Um branco ataca um negro e justifica dizendo que pensou ser um ladrão, um negro ataca um branco dizendo que era “um playboizinho viciado e metido”, o playboy ataca a periferia argumentando que lá são todos burros, analfabetos e sem classe, os burros, analfabetos e sem classe não se dão ao trabalho de revidarem porque foi incutido neles a ideia de que são burros, analfabetos e sem classe. Cada qual no seu lugar anula o outro de uma forma que apenas seus próprios interesses, suas vontades, suas necessidades (!), seus interesses sejam satisfeitos. Não se trata de elite atacando classe C, D ou E. Tratam-se de ataques. Trata-se de anulação. Se alguém é hétero, pode ser acusado de homofobia. Se é gay, de anticristão. Se travesti, de aberração. Mas ninguém “acusa” o outro de ser humano.
E são essas as pessoas que o tempo inteiro anulam uns aos outros em um eterno círculo vicioso que se estende além das fronteiras do real: chegam ao virtual. Nas redes sociais, curte-se e retuíta-se sem a mínima preocupação com o outro. A garota postou fotos íntimas porque o perfil na rede social era dela, mas isso não importa. Importa disseminar e humilhar essa pessoa. Um animal é agredido injustificadamente por alguém, e seguem-se vários curtidores. Alguém defende sua religião e é atacado por alguém que afirma ter visto provas contundentes de que os padres, pastores, ministros daquela religião são pedófilos e que ser dessa ou daquela religião é ser burro. Outros agridem qualquer um que acredite em qualquer coisa “discursando” que uma ação mostra mais da pessoa do que a própria fé dela. E de novo seguem-se vários curtidores. Uns curtem porque gostam, outros curtem porque a rede social azul disse que não existe opção descurtir para não incentivar o comportamento negativo. Ou seja, na virtualidade do ciberespaço somente podemos ser a partir de um não ser. Sou/estou indignado mas essa opção não me é possível porque o programa de computador me anula. A tecnologia me anula na medida em que ela não me serve: eu sirvo a ela. Alguns dependem das agendas eletrônicas ou sites e aplicativos especializados para lembrar das datas de aniversário dos que lhe são próximos, outros dependem do celular para se sentirem inseridos em um certo grupo, verificando a cada minuto se alguma atualização de status foi feita para poder ser o primeiro a comentar, há os que dirigindo não conseguem parar em um semáforo sem checar as últimas fotos postadas pelos seus contatos, ignorando que atrás pode vir uma ambulância ou alguém simplesmente com pressa, ou que ao lado está passando uma mãe que buscou seus filhos na escola, um ciclista…
Na educação, eu hesito agora pensando se vale a pena falar sobre ela… Enfim, um texto é para ser lido. Universidades e faculdades formam professores que precisam lidar com o universo distinto de seu alunado e não foram preparados para enfrentar galáxias, não universos, distintas. Crianças sem limites, crianças sem responsabilidade, crianças sem estrutura familiar, crianças que só as são em razão da idade, porque nem elas próprias sabem o que é sê-lo. Agressão aos professores, violência e bullying dos alunos contra outros alunos, vandalismo nas salas de aula não são sinais de que há a necessidade de um novo modelo de gestão educacional ou de abordagem psicopedagógica. São sinais de que professores, alunos, pais, gestores educacionais, etc não sabem mais incluir o outro da forma certa (sim, eu acredito piamente em formas certas e erradas de educar, de amar, de sentir, de agir no mundo). E segue-se nisso a anulação do outro. O professor anula seu aluno porque não lhe é possível lidar com 150, 200 ou mais alunos de uma forma individual, a escola anula o professor porque não importa se seu filho, esposa ou pai estão doentes ou morreram: a carga horária precisa ser cumprida, alguns novos teóricos da educação afirmam que a criatividade precisa ser estimulada de ambos os lados e esquecem que, pelo viés da psicologia, a imaginação da criança se constrói, em uma certa fase, a partir da anulação do pai, da mãe ou de qualquer outro que impeça a realização do seu Id, o pai anula o professor ao ensinar ao seu filho que, por estarem pagando a escola, seu filho é o rei (ou se for pública, que é obrigação da escola cuidar do seu filho, afinal, impostos servem para pagar o salário do professor), alunos anulam outros alunos por sentirem que são mais importantes do que o outro já que assim lhes foi ensinado em casa. E segue o rio seu curso desviado.
Mesmo em nossas casas, nas nossas atividades cotidianas, no nosso sossego ou lazer somos anulados. Ou anulamos o outro. Se gosto de música, eu preciso ligar o som da minha casa ou apartamento no último volume a fim de obrigar o outro a ouvir aquilo que ele não quer. Somos obrigados a ter o teto de nossas casas abalados com o som, seja do vizinho o do carro que passa com som de trio elétrico. Se somos reservados, somos etiquetados de esnobes, se somos populares, de fofoqueiros. Precisamos de uma bola de cristal ao dirigirmos, pois o motorista da frente não sabe da existência da seta (aliás, ele a ignora), o motociclista circula pelo lado direito me forçando a dar uma preferência que, legalmente não existe. E se houver acidente, eu posso ser o culpado, não o motociclista. No ônibus, só falta agora carregador usbpara celulares. Ninguém mais conversa. O outro é, simplesmente ignorado pelos jogos ou músicas ou aplicativos. Temos disponíveis hoje TV por assinatura, Netflix, Youtube e congêneres exatamente para podermos anular os que estão ao nosso lado, ou ainda, sermos anulados a partir do conforto e tecnologia disponíveis.
E quem dera acabasse por aí. Há mais, muito mais que precisa ser dito. Entretanto, basta agora pensarmos no limite em que chegamos da anulação: reality shows. Vota-se (aqui eu não me incluo) para que um outro, quem nem sequer é conhecido até estar na TV, seja eliminado. Isso é o ato mais explícito de que a nova ordem se instaurou com raízes profundíssimas em nossa construção subjetiva e social. Big Brother, A Fazenda, The Voice, The X-Factor, Master Chef, todos apoiados na desculpa de elegerem o melhor, mascaram a verdade imposta subliminarmente: eliminem os que não lhe servem, eleja o que melhor se adequada a você. Com isso, o mundo se constrói a partir dos irreais. Os outros, eleitos por esse programas, não se tornaram “o outro” a partir de um eu particular (ou, nesse caso, de vários): são eles uma projeção do desejo de existir sozinho, pois no convívio eles não existem; existe apenas uma versão daquilo que se adequada ao desejo ou crença de que eu posso ser eu a partir de uma versão qualquer de um outro que se pareça comigo. É a existência pela semelhança, não pela diferença.
E se não tolerarmos os que nos são diferentes, estranhos a nós mesmos, a quem iremos respeitar? O óbvio: não iremos. E, assim, a Nova Ordem Mundial de Anulação do Outro vai se estruturando mais em mais em todos, esperando a chegada do tempo em que todos afirmarão que não conhecem nenhum outro, além daqueles criados por projeções instintivas de uma existência soberana.