Invisíveis

Em 2014 tive a oportunidade de viajar para participar de um curso fora do país. Eu devia ficar por 45 dias mas acabei retornando antes do tempo. Em duas semanas já estava de volta para esse Brasil velho e sem rumo. O curso, além de não me trazer nada de novo, incomodou-me bastante o comportamento dos meus “colegas” de turma que mais pareciam ter saído de um buraco escuro e visto luz pela primeira vez. Bem, como a reflexão não diz respeito a eles, desejo a todos muitas felicidades para todo o fim de suas vidas.

O lugar que fiquei foi Miami, nos “estates”. Primeira impressão: lugar de plástico. Explico. Quem já teve oportunidade de brincar com Lego sabe que tudo se encaixa parar formar alguma coisa. Pois foi assim que percebi o lugar. Segunda impressão: as pessoas não são muito simpáticas. Não sei se por perceberem que eu era brasileiro ou porque elas são assim mesmo. Acho que deve ser algo cultural e, portanto, não teço crítica alguma sobre isso. As pessoas são como elas são. Terceira impressão: no curso, os professores nos tratavam como incapazes de termos opiniões próprias. Não sei se pelo perfil do grupo, deslumbrados até com interruptores de lâmpadas, ou por ser assim mesmo o modus operandi da educação norte-americana. Enfim, essa foi a razão pela qual eu desisti do curso e voltei. Quarta e última impressão: os trabalhadores que não estão em posição de destaque, são invisíveis. Americanos, pelo que percebi e por isso não generalizo, aparentam fazer questão de “invisibilizar” os chamados auxiliares de serviços gerais, os atendentes de lanchonetes ou restaurantes, ou qualquer um outro que não exerça uma ocupação considerada digna, de acordo com o julgamento deles. Pior: os brasileiros também, como comentarei a seguir.

Lembro uma vez que fui ao sanitário e havia um senhor limpando o chão e lavando os banheiros. Como só havia ido lavar as mãos para depois ir almoçar, pedi licença ao senhor e desejei-lhe um bom dia. Nesses 5 minutos, outras pessoas também entraram no local e sequer pediram licença por estarem “sujando” a limpeza que o homem estava fazendo. Ao contrário, uma das pessoas ao sair do sanitário lavou as mãos e errou o papel no cesto, deixando-o cair lá mesmo e foi embora. Pensei que ele poderia ao menos ter dito ao senhor: “O senhor pode apanhar depois, por favor.” Mas não aconteceu.

Não enfatizo mais eventos na terra do Tio Sam porque logo retornei ao Brasil e comecei a observar se aquilo era algo das “américas” ou se aqui, já que brasileiro tem fama de caloroso e amável, isso também acontecia. E para minha não surpresa, considerando a minha absoluta falta de fé na humanidade, aqui é do mesmo jeito, se não pior.

Quantas vezes observei vendedores e vendedoras sendo tratadas sem educação, como se não estivessem lá ou, em estando, fosse uma obrigação paparicar os clientes. Inúmeras ocasiões os mesmos auxiliares de serviços gerais são ignorados por diretores, chefes de seção, alunos universitários, bancários, médicos e até mesmo alguns “adevogadozinhos”.

Pedreiros, faxineiras, vendedores, auxiliares de servições gerais, atendentes de farmácia, recepcionistas, etc etc etc, parecem não existir. E quando suspiram um pouco pela sua existência, os outros lembram-lhe que sua função exclusiva é servi-los.

Não me farei de rogado dizendo que apenas os outros agem assim. Assumo, com vergonha, que já agi assim e, atualmente, quando esqueço ou estou de mau-humor, ainda o faço. E ao pensar nisso, me envergonho mais ainda e passo a reforçar meu estado de alerta para evitar ao máximo repetir isso.

O que me deixa um tanto quanto chocado é saber que, em algum momento da história, talvez ainda lá pela Grécia ou Roma, ignorar os que fazem serviços considerados inferiores devem ser ignorados ou tratados com menos (ou nenhum) respeito. Não estamos mais na antiguidade, tivemos revoluções significativas e, inclusive, tivemos um momento histórico chamado de Iluminismo. Acho que a luz desse momento devia ser bem fraquinha, porque mesmo assim, ainda tratamos essas pessoas como Fabiano pensava de si próprio: um bicho.

Constância

A constância é-me aprazível. Confesso gostar de uma certa rotina, em especial nas relações humanas. Surpresas em demasia são enfadonhas e, em algum momento, passam, também, a ser um tipo de rotina. Algumas vezes seguir em um sentido diferente do linear é atrativo, todavia, ziguezaguear por aí como esse essa deslinearidade fosse o caminho a percorrer, por ser a vida surpreendente, não é algo que ma faça soltar rojões.

Estranho, inclusive, mudanças bruscas de pensamentos, orientações, caminhos, desejos, aspirações. Para mim, exclusivamente para mim, soa como se não houvesse a certeza. O ato de mudar, de ser ou estar inconstante, aparenta incerteza diante das convicções.

É inegável reconhecer que as mudanças são, em certa medida, necessárias para o crescimento de qualquer pessoa. Contudo, acredito cegamente, que esse tipo de mudança, que nos faz a todos crescer, acontece vagarosamente. O passar dos dias, dos meses, dos anos, das experiências, das alegrias, das dores, das tristezas, das frustrações, dos risos, dos gritos e de tudo o mais conta, indiscutivelmente, para que mudemos. E, de modo sincero, não acho que em 24 horas ou em 7 dias alguém passe por todas essas sensações de modo que elas todas sejam significativas. Claro, até um ponto alguma delas pode ser extremamente relevante. Mas, todas ao mesmo tempo e com a mesma intensidade me faz duvidar de certas mudanças.

Há casos e casos, importante não esquecermos isso. Um trauma de cinco minutos é capaz de transformar toda uma existência. E, às vezes, para  outros, trauma semelhante pode se repetir por toda uma existência e não causar, sequer, espanto.

Prefiro seguir, agora em especial, sem pressa, sem o desejo de mudar, sem a ânsia de ver coisas diferentes todo o tempo. Penso que na constância, nas rotinas, no mesmo, somos, nas relações humanas, capazes de solidificar algumas certezas, destruir receios, incrementar o igual. Ou ainda, o oposto: solidificar receios, a fim de que se tenha outras certezas, destruir certezas para que alguns receios deem lugar ao medo – que considero, em equilíbrio, essencial – e constantemente tornar o igual o mesmo sendo diferente.

Talvez por isso me incomode tanto a inconstância. Ou talvez por várias vezes ter sido inconstante e perceber que agora o igual, o mesmo (não se trata de algo enfadonho, mas do prazer das pequenas coisas simples) são bem mais atrativos do que o alvoroço da novidade. Bruscas e súbitas alterações de atitudes nas relações humanas me fazem recuar e desejar não estar ali, não ser partícipe.

Admito que para a convivência, isso é também complexo. A diversidade de universos em que cada um de nós está imerso tornam delicadas as relações humanas. Felizmente, sempre é possível escolher o momento que nos agride menos e, assim, buscar a inconstância ou a constância, conforme for a inclinação de cada um.

Escrever

Porque escrever não é um alívio, mas um tormento a me consumir cada nervo tenso que me corta o corpo. Escrever não é aquela vontade de decalcar os sentimentos em uma folha de papel um dia já rabiscada ou mesmo em branco. Escrever é uma necessidade. Uma visceral necessidade de sanidade. No espaço vazio da folha em branco não me encontro, não me alivio, não me busco. Disperso-me por inteiro até que nada de mim sobre e tudo possa, ilogicamente, ser reunido. Não há partes coerentes. Há somente partes. Há partes de mim, há partes do outro, há partes dos Outros. São todas elas que constituem essa escrita, que não me pertence. Nenhuma delas constitui o meu ser, que também me é tomado pelo ato único, próprio e singular de escrever.

É sina, é castigo, é ansiedade. São traços de um discurso reunido? não é o meu discurso. Escrever é lugar onde não falo. Calo-me diante do que pode vir a ser o que nunca pode tornar-se um dia. Quem sabe se o será? Tornar-se-á. Ninguém. É nesse espaço de angústia que reúno os pequenos detalhes capazes de me tornar invisível. Entre mim e o que escrevo há o espaço. No interior desse espaço há cantos iluminados e obscurecidos que não se revelam nem revelam nada. Há apenas os espaços. Vazios? Jamais. Ocupados, todos, pela ininterrupta necessidade de escrever.

Sou-me. Entregue a essa vontade necessária de manter-me lúcido ante a reunião de sentidos desconexos em um todo único – a escrita – que possa, distraidamente, compor uma sinfonia qualquer. Eis que escrevo e perpetuo a perda da lógica capaz de reunir-me em partes esparsas. Sou-me em partes. Parte escrita, parte silêncio, parte desconexa. E não me sou, por inteiro ou por partes, o ser que fala durante a escrita. Não me sou durante a escrita. Ela me é necessária. É um ato de vontade insana à procura de vagos lampejos de unicidade.

Não me sou preciso. Sou irregular, quase desnecessário. Porque escrever não é exigência do ser. A escrita exige um ser. Ela impõe, ela grita, ela esperneia por aquele que toma a massa informe das letras, das sílabas e das palavras e o exige uma fôrma possível – capaz? – de encaixá-la em um sopro qualquer de sentidos complementares. A escrita exige um ser e exige o outro. O seu complemento é o outro, viajante perdido caminhando de norte a sul, de leste a oeste, da direita para a esquerda, para cima e para baixo procurando um ponto de sentido, um porto de sentido. Lá o outro ancora-se. E lá também se perde. Completam-se os que não se encontram em direção alguma. Dispersos, estão lado-a-lado.

Escrever é essa tal angústia. Uma mistura de finalização inacabada com a excitação do início do perder-se a si, em si. Escrever é maldição. Rasga cada parte, fere cada canto, machuca todo o ser incapaz de se encontrar por segundos ou minutos no ato mesmo de tentar enunciar. É insano. Uma loucura essencial para manutenção das capacidades de raciocinar sobre mim mesmo, sobre tudo, sobretudo. Ou não me penso? Acho. Calo. A escrita me cala e surge uma voz neutra. Ela avoluma-se a cada frase construída. Não é de ninguém, é de todos, é do outro, é dos Outros. São vozes que sussurram segredos indecifráveis, notas imperceptíveis, compassos sem ritmo. E escuto a todos, a todas, como o próprio bombear do meu coração. O escuto.

Suspendo o ritmo, a respiração é ofegante, o dizer-calar-se suspende o tom natural de viver sem escrita e tudo se transforma em lágrimas. Uma dor profunda. Escrever é esse custo. O custo de não poder ser e precisar ceder ao que desconheço, deixar-me guiar num labirinto de mão única chamado impulso. Necessidade? Cortante como pequenas lascas de gelo cortando a carne, marcando-a. Não cicatriza, é ferida, é doído. Escrever é não ser. É não se encontrar. Escrever é deixar-me calar, silenciar e, sofregamente, encontrar forma e fôrmas imperfeitas prováveis de admiração.

E o faço apenas pela incondicional devoção à loucura impulsionante de não encontrar a saída para os segundos que marcam os instantes necessários dedicados ao ato de encontro do desconhecido: escrever.

Iconoclastia (ainda racionalizando)

É, e foi assim mesmo. Amplamente, iconoclasta é aquele que destroi ídolos ou crenças já estabelecidas. Algumas personalidades são iconoclastas: Joplin, Hendrix, Gandhi, Chico, Tom Zé, só para citar uns mínimos que de alguma forma admiro. Músicas são iconoclastas: “Eu uso óculos escuros/para minhas lágrimas esconder/mas quando você vem para o meu lado/aí as lágrimas começam a correr”, “Pai, afasta de mim esse cale-se”,  “Um rei mal coroado não queria o amor em seu reinado/pois sabia não ia ser amado”. Poemas são iconoclastas: “Vou-me embora pra Passárgada, lá sou amigo do Rei”, “Vede como primo/ Em comer os hiatos!/ Que arte! E nunca rimo/ Os termos cognatos.” É, pessoas e coisas são iconoclastas. Até mesmo movimento (pseudo ou não) sociais: a Anarquia pode servir como exemplo e mesmo a democracia que nos obriga a votar.

Mas e os que conhecemos tão ou quase de perto? Serão eles, também, iconoclastas? Quais a crenças e ídolos que eles nos quebram? Às vezes, parecemos sapos: inchados de orgulho ao considerarmos (coaxamos?) nossa absurdamente ridícula capacidade de desvelar o outro através de análises. Umas superficiais, outras nem tanto. E falamos o que consideramos ser o que o outro é. Falácia! O outro é, apenas. Nos perdemos tentando solucionar um mistério que não existe, um segredo que precisa ser revelado, uma imagem criada para alimentar o nosso inconsistente desejo de encontrar no outro aquilo que precisamos e defendemos como o certo…  no outro. Não há certo. Não há errado. Há apenas o outro.

Nesse movimento de gangorra de parque infantil, nos perdemos quando percebemos que as análises, os brutais comentários, as invasões descabidas da subjetividade deste ser que está, perto ou longe (porque não é a geografia que define bem esse espaço interior), sendo analisado por nossas falhas, acabamos sentando no lado mais baixo do brinquedo e surge o inevitável, aquilo que nos permite (permite?) acusar o outro de iconoclasta: a decepção da expectativa causada pela nossa arrogância.

Então, talvez não sejam os outros os iconoclastas, mas nós mesmos. Mais confortável seria nos mantermos em nossa zona limítrofe de conforto e aceitar que um comentário ou outro não fará mal, ou melhor, não será iconoclasta ao outro.

Ou, quem sabe, nos tornemos sábios e passemos a esperar a hora do outro. Uma hora que certamente não será a nossa, mas permitirá que esperemos que não haja expectativas. Elas nos tornam arrogantes, elas cobram do outro aquilo que ele, possivelmente, não poderá ou não desejará dar, falar, revelar, comentar.

Equilíbrio pode ser isso. Contudo, incomoda-me o fato de reconhecer em mim essa incrível capacidade de observação que me torna um iconoclasta. Que me perdoem aqueles cujos ídolos foram quebrados por mim, ou crenças que foram por mim desconstruídas e mesmo reveladas.

Sou assim. Iconoclasta. Devo assumir como verdade a estória do mito da verdade: ela precisa ser revelada aos poucos, com véus caindo lentamente durante o caminhar com os outros. Essa é uma delicadeza indescritível, e no momento uma iconoclastia para mim.

As palavras… gosto delas

Como disse, gosto das palavras. Elas inexplicam o óbvio. E muitas vezes fazem o contrário. Isso não é um poder mágico advindo da junção de letras que formam sílabas e constroem-nas, as palavras. Isso é maestria. Você usa as palavras para dizer aquilo que suas convicções – falsas em sua maioria – lhe orientam a fazer.

Há mensagens implícitas que nenhuma, nenhuma palavra é capaz de determinar um e um só significado. E também há aquelas que são tão cruamente explicitadas que qualquer contrargumento ou tentativa de explicação – autoexplicação? – é capaz de entendimento. É como um jogo de tabuleiro. Um movimento, um suspiro no instante da jogada, um olhar desviado revela ou oculta aquilo que poderia ter sido dito ou calado. Por isso, gosto também do silêncio.

O silêncio é mais cortante. Ele orienta, por nossas falsas convicções, diversos significados que buscamos definir através de palavras que o quebram. O silêncio da indiferença, o silêncio da concordância, o silêncio da complacência, o silêncio do ódio, o silêncio da compaixão… E essa dualidade entre a palavra e o silêncio é que constroi (destroi?) nossas convicções. Se somos seres sociais, que parcialmente acredito que somos, inevitavelmente nos guiamos por essa palavra-silêncio ou esse silêncio-palavra a nos assombrar cotidianamente.

Mas o que mais me chama atenção nas palavras, não são elas em si. São as pessoas que as usam. Já mencionei: usar palavras é maestria. É preciso um mestre que te não-ensine o que dizer, falar, escrever ou calar. Nós nos tornamos nossos mestres na utilização do nosso construto social. Somos a nossa subjetividade refratada através das palavras. Somos nossa individualidade parcamente conhecida por aquilo que defendemos como convicções (e há quem prefira o termo ideologia, mais isso é sociológico demais). E somos sociais porque partilhamos o cortante silêncio e o incômodo ato de enunciar quando interagimos com o outro.

Gosto das palavras. Gosto do silêncio. Não gosto das pessoas que não sabem utilizar ambas as coisas. E, por vezes, nem mesmo gosto de mim, porque eu, também, não sei usá-los como poderia. Gosto de poder saber disso. É como calar no instante exato em que enuncio do meu lugar subjetivo nesse discurso escrito.

(não finalizado)

Idiossincrasias

Idiossincrasia é uma característica comportamental ou estrutural peculiar a um indivíduo ou grupo. Me agrada o dito cujo termo. Características peculiares de um indivíduo. Somos idiossincráticos por natureza, isso é o óbvio. Mas há também o espelho. Objeto que nos reflete e por vezes refrata as mesmas características peculiares dos outros. Curioso, porque, do mais absurdo acaso, não é apenas uma imagem distorcida que vemos, mas o reflexo nítido das mesmas peculiaridades que temos, que somos, nos outros que surgem feito tempestade não prevista.

Ao mesmo tempo em que temos as nossas idiossincrasias, as encontramos nos outros. Isso é faca de dois gumes. Corta com gozo intenso e fere com dor profunda. Porque de fato, o que não queremos é ser diferente. Queremos a impossível e fictícia ilusão de sermos iguais. Não o podemos. Mas ainda assim nos encontramos nos outros, nas peculiaridades dos outros.

Penso que as pessoas são curiosas. Elas são cheias de culpa, de medos, de desejos, de coisinhas escondidas que, vez ou outra, surgem. Na verdade, desabrocham. É como uma árvore que só revela suas flores uma vez por ano, por dia, e você precisa estar lá para ver. Ali, naquele momento, é como se nada mais existisse. Só o evento que por si só já é o bastante. As idiossincrasias, as peculiaridades também são assim. As nossas, de todos nós. Precisamos estar lá para vê-las. Se aceitaremos ou não, essa é outra questão. Não merece ser discutida agora.

Importa que somos peculiares. Cada qual leva consigo uma neurose, um segredo, um detalhe que somente pode ser percebido no exato instante em que nos encontramos nas mesmas peculiaridades dos outros. São dos outros, mas também são nossas. É o espelho de que falei. Por vezes ele refrata – mas não é culpa dele, nossos olhos enxergam o que desejam – e por vezes ele reflete. Interessantíssimo, pois só somos idiossincráticos a partir do outro que nos observa e aponta o que nem mesmo conseguimos, diante do espelho, enxergar.

Por isso gosto do outro. Dos outros todos que compõem e definem minhas peculiaridades. E também nisso há um certo ar de saudade, já que nos sentimos falta. Sentimos falta de quem de fato podemos ser ou mesmo somos. E uma revolta também (ou impotência?), porque nunca podemos ser sem o outro. E fica assim, a saudade de sermos quem não podemos ser sozinhos e a saudade do outro que nos deixa ser quem somos e nos reconhecemos nisso.

Gosto das idiossincrasias.

Perceber

Há um certo limite, por vezes inperceptível, nas ações humanas. Vezes grandiosas, vezes minúsculos atos sem sentido. Esse limite ultrapassa aquilo que é o senso mais comum do cotidiano do Chico. no entanto, mesmo nessa quase imperceptibilidade, há momentos e instantes em que tal limite se revela. Como  uma luz qualquer atravessando a fresta de uma porta entreaberta ou semi-cerrada. É aquele rasgo na escuridão quando ao acaso voltamos nossos olhares para ele. Por vezes, atentos, por vezes, distraídos. Olhos que pomos na finíssima camada de luz a se avolumar diante de nós, pasmos, por percebê-la.

Em tal preciso instante, o que antes era nada, desfuncional, avoluma-se e funciona qual guia para ações do porvir. Aquelas que nos definem rumos quaisquer ou os rumos definitivos em direção aos caminhos que seguiremos (optaremos!). Ocasiões como essas, da percepção do mínimo que se transforma em gigante, são dellicadas percepções dessa quase ínfima fonte de claridade. Fato: ela revela as ações do porvir. E pode ser qualquer coisa. Quer dizer: nossas ações, a se realizarem a partir do instante de lucidez instantânea, tornam-se capazes de definir o grau de delicadeza delas mesmas.

Tantas ocasiões sequer notamos que agimos para nós mesmos. Agimos para nos protegermos, para nos recriarmos, para nos reconduzirmos, para nos perdermos em lugares possíveis de um gozo maior com nossa particularíssima subjetividade. Um sorvete em tarde quente, dez minutos em um banco de uma praça debaixo de fresca sombra de uma árvore centenária, cantarolar músicas sem ritmos, errando a letra e a melodia, repetir incasavelmente o refrão… Isso nos transmite as nossas verdades. De fato, isso são nossas verdades, varridas, excluídas, esquecidas (e são muitas).

De uma forma ou de outra, nos reinventamos, nos recriamos, nos reconduzimos, nos perdemos. Lugares novos ou velhos, não importa. A roupagem é diferente. Nisso, também, consiste a delicadeza de nossos atos. Não, possivelmente, pelo ato em si, mas só e somente só, pela percepção do próprio agir em si. Perceber, parece, é como olhar o mesmo objeto, o mesmo ser, a partir de um lugar diferente, um ótica não comum. Cada instante conta. Mesmo os enfadonhos, tediosos e tristes. Os que não conseguimos descrever com precisão porque não os entendemos, porque nos feriram, porque nos fizeram mal. É a delicada percepção de nossas ações, sim, nossas. A minha humanidade me inclui no que enuncio ou talvez enunciou em função mesmo dela própria.

Decerto, se fossemos únicos no mundo, nem as perceberíamos. Mas não somos. Somos nós, com vários nós. Sempre somos com alguém, sempre o somos com nós e, certamente, é isso que torna o ato de perceber algo tremendamente delicado. Ações não existem encerradas nelas mesmas; estão intimamente conectadas á existência de um outro. E capazes somos de perceber minúsculos segundos de nossas ações, mesmo as que ainda virão (e sabemos que virão) e também as dos outros que estão aqui, lá ou acolá. Isso nos faz ser quem somos: percepção.

Acredito, posso me enganar, lógico, que ainda mais delicadas são as percepções das necessidades do outro. O mesmo sorvete, os mesmos dez minutos de descanso podem ser apenas aquilo que o outro deseja naquele minuto que passou ou está passando diante de nossos olhos fixos na fresta da porta que revela uma luz qualquer. E o outro sequer sabe disso. Eis a beleza: enxergamos o outro através dessa luz que surge da porta semi-cerrada e permitimos que isso nos construa e constitua como quem somos.

Atendemos uma necessidade mútua. Nos constituímos e construímos o outro nesse movimento de troca de percepções. Vivenciamos o processo de percepção. Vivenciamos nossa existência. Uma existência que exige um “bom dia”, um elogio, um dizer de saudade, ou mesmo o romantismo extremos da afirmação de que a presença do outro nos é necessária para nossa vivência e sobrevivência.

Não importa o que seja. Irrelevante é a ação, pois tantas vezes não fazemos nada. O silêncio também é uma forma de ação como também o é a quietude, a “in-ação”. Perceber  é a necessidade visceral dos que desejam reconhecer a delicadeza das ações humanas. Perceber não é enxergar necessidades ou ações, é ver o outro. E sermos vistos no outro e pelo outro também.

Essa troca nos reconduz, nos recria, nos perde, nos reinventa, nos deixa de ser o que éramos antes da percepção. Nos deixa ser o que éramos há um ou dois segundos atrás. Nos tornamos o outro de quem o outro, e nós mesmos, precisamos. Porém, o fundamental, é apenas isso: perceber. Sermos capazes disso.

Zelo

Estranhamente, observo o descuido. Atentamente, percebo certas nuances de cuidados não mais encontrados no trato diário, ainda que inconstante, com os outros. Estranhamente, não há mais cuidado, não há zelo. Algumas singelezas são capazes de dizer aquilo que volumes e volumes de enciclopédias não podem abarcar.

Por isso observo o descuido. E estranho sua existência. Como estranho a mim, como estranho o outro, como estranho as coisas. Repentinamente, apenas uma troca ínfima de experiências – uma palavra, uma frase, uma confissão, um dizer qualquer – ressignifica a nossa subjetividade. O descuido é o oposto disso. É a falta de disposição para com o outro. Disposição para ouvir, gritar, chorar, calar, esquecer, animar, rir, brincar e quantos mais forem possíveis os verbos.

As experiências com os outros são partes e partículas essenciais para nossa definição de sermos o quê e quem somos. É o cuidado em cultivá-las, não apenas as experiências. Elas, encerradas em si, nada dizem e nada são. Como nós, sozinhos, nada somos. As experiências que demonstram explicita ou implicitamente o cuidado como o outro são gestos que, também, revelam nosso cuidado consigo próprios. É, decerto, bem óbvia tal constatação. Todavia, ainda me pergunto se de fato há alguém que já – efetivamente – tenha constatado tal obviedade.

O descuido é hoje parte de um discurso da coletividade. O que está bom para um, deve, obrigatoriamente, satisfazer a todos. Mas, e se em uma brincadeira dizemos “se eu adivinhar o nome do filme, quero um chocolate”? Todos devem ganhar apenas o chocolate? Ou será que dentre vários bilhões de pessoas, não existe alguém que espere ganhar um algo a mais, talvez um simples laço de fita ao redor do chocolate, ou quem sabe uma embalagem diferenciada, apenas para criar o suspense sobre o presente ou a aposta ganha? Esse é um desejo de um dos bilhões que habitam o mundo, claro. O grande diferencial é perceber numa simples assertiva o desejo do outro e a partir de então cuidar dele, isto é, do desejo. É observar que em uma brincadeira qualquer somos capazes de exercer o zelo, o cuidado. Afinal, o outro não são bilhões de pessoas. Eu não sou bilhões de pessoas.

Cuidamos de acordo com o que somos e também com quem o somos. E novamente afirmo: observo estranhamente o descuido. Não me questiono a razão de tal imperativo. Nem o quero. Agrada-me pensar que é sempre possível o diferente. Nesse caso, o cuidado, o zelo, a atenção nos atos singelos que praticamos para o outro.

É bizarro perceber que o termo “customização”, advindo do inglês, cujo equivalente em português é personalização, simplesmente vem sendo apagado de nossas relações. O personalizar tornou-se em agir igual em tudo e com todos, inclusive com nós mesmos. Há o apagamento do eu e do outro para uma singularização do neutro. Não somos: fazemos parte. Descuido. Ausência de zelo.

Isso me é estranho. Gosto do cuidado que me dispensam, gosto de dispensar cuidados aos outros. Embora os estranhe tanto quanto a mim, ainda assim prefiro zelar por uma subjetividade que aos poucos será revelada pelo gesto simples do cuidado. Penso, mesmo que equivocadamente, que sejam essas coisas todas, a atenção, o zelo, o cuidado, que nos ajudam a perceber a nossa própria existência não-neutra assim como também a do outro. A neutralidade implica em zero, absoluto vazio.

O descuido é vazio. O cuidado é sempre soma de diversas peculiaridades que se nos apresentam ao longo dos minutos que existimos. E não existimos sem cuidado, sem cuidar.

Parcialmente

Parcialmente liberto. Hoje, agora, é assim essa sensação estranha. Mas também de incompletude, pois não há ainda que dizer completamente ou absolutamente. É fato que existe essa uma tal liberdade. Tênue, porém, é essa linha divisória entre o completamente e o parcialmente. Aliás, não pode ser diferente. Somos, apesar do que digamos, humanos. Todos somos incompletos, inconclusos. Todos somos parciais. Não há nada, não há ninguém capaz de nos privar dessa parcialidade, dessa incompletude, dessa inconclusão. Todavia, e isso é outro fato, há o Outro. Esse ser singular com uma habilidade indecifrável de nos fazer sentir absolutos. É esse outro, que também é inconcluso, que nos permite enxergar dentro dessa delicada linha que nos torna como pêndulos, buscando sempre ou um lado ou um outro. Nunca um lado e o outro.

É nessa busca que findamos por perceber o que há de mais profundo em cada natureza que nos cerca. Nunca diremos, sem incorrer no risco de uma hipocrisia das palavras, que temos uma única natureza. Somos parciais e se assim o somos, possuímos naturezas diferenciadas. Ora coabitam pacificamente, ora desejam digladiar-se tentando prevalecer como vitoriosas no local que vivem: o humano. E somos desse modo. O Outro é igualmente assim. Relegamos, quando sentimos, qual natureza prevalece em qual momento. Quando sentimos é que percebemos que, distintas, diversas, diversificadas que sejam as naturezas permitidas a nos habitarem e a nos constituírem, é essa a única verdade humana: precisamos de um Outro. Precisamos das naturezas do Outro, inclusive daquelas que se engalfinham a cada centésimo de milésimo de segundo de nossa existência.

É no Outro que vemos a suavidade de um sim, a força de um não, a sutileza de um talvez. É no Outro que nos encontramos para nos vermos e nos enxergarmos como realmente esse outro nos reflete. E ainda existem os momentos em que nos percebemos no Outro e, por vezes, também o deixamos perceber a nós mesmos. É um jogo, não esqueçamos. Sempre escolhemos o Outro, suas naturezas e seus momentos de nos perceberem. Semelhantemente, também escolhemos nos perceber no outro. É novamente essa linha tênue, finíssima, que nos separa dessa completude esperada. Ou mais ainda, de uma liberdade completa e absolutamente esperada. É o jogo.

No movimento que faz o pêndulo, é lá que nos identificamos. Não estamos nem de um lado, nem estamos do outro lado. Estamos sempre em um movimento contínuo de uma eterna busca de completude. Nisso, também, devemos considerar como parte do jogo. E nossas naturezas complexificam-se ainda mais quando percebemos que além de nós e do Outro, existem ou outros e os Outros. Aqueles que num instante fugaz percebemos ao nosso lado porque escolhemos admirá-los enquanto, insisto, perto de nós, esses Outros ressonavam, deixando-se entregues. Uma entrega tão profunda que nos tornamos incapazes de desejar mal, fazer mal, tampouco pensar algo de mal. Pois, se assim o fizéssemos, estaríamos o fazendo a nós mesmos. Afinal, são esses outros que nos completam. São esses outros e Outros que nos são também.

São eles que vivenciam conosco a rede intrincada de relações humanas que nos cortam a alma tão delicadamente. São eles que possibilitam esses cortes que levamos conosco durante as horas e os dias que se passam. Esses outros, que vemos chorar, rir, abraçar, argumentar, seguir nossos devaneios, são os mesmos que lá estão, silenciosos, pacientes, tolerantes, esperançosos diante do palco iluminado no qual, parcialmente libertos, encenamos nossos atos, muitos deles até falhos.

É esse o jogo. Falhar sempre para no Outro e nos outros encontrarmos as correções que precisamos para atuar primorosamente. E não falemos de máscaras, já que esse é um lugar comum. Falemos de papéis que desempenham nossas naturezas. Não falemos de atores, pois esse é também uma fala comum, até mesmo política. Falemos tão somente dos instantes que as naturezas tão diversas, minhas e dos Outros encontram espaço para se entreolharem fixamente e decidirem qual prevalecerá.

Há os momentos da satisfação do Outro. Preciosos instantes nos quais renunciamos uma vontade pessoal imperiosa apenas para ver um quase-deslumbramento nos olhos do Outro. Um doce, um abraço, ou mesmo um bom-dia são capazes de fazer reluzir o mais opaco dos olhares. Instantes em que optamos por seguir adiante mesmo sabendo, ainda pela força da vontade pessoal, que o nosso esforço em precisar do Outro é tão menos grandioso do que a opção feita por essa criatura essencial em estar ali, transformando os minutos únicos de sua existência em minutos múltiplos de um estar-conosco.

Normose

Há algum tempo atrás recebi um e-mail muito legal sobre uma nova “doença”: a normose. Essencialmente, a mensagem dizia que, em tempos de respeito às diferenças, a normose poderia ser definida como a doença de ser normal. Mas, o que é hoje ser normal?

>> Veja aqui um post da revista Superinteressante sobre o assunto.

Hoje se prega o respeito às diferenças até o limite. Se alguém é homosexual, deve-se respeitá-lo, se uma criança é ativa ao ponto de aborrecer outras pessoas, há a justificativa de que pode ser hiperativa, se um chefe é sisudo, é porque deve ter problemas em casa, se um adolescente é emo, justifica-se pelo fato dessa ser uma época em que se deve experimentar as coisas para se definir a personalidade, e os exemplos podem crescer quase indefinidamente.

Pessoalmente, isso tudo é bobagem. Uma forma que encontraram de justificar certos comportamentos absurdos em favor do respeito a diferença. Considero bobagem porque nesse grosso caldo de insensatez, não se percebe a falta de valorização que o ser humano em si vem ganhando. O respeito não é mais com o José ou a Maria, mas com sua condição de mulher falada ou homem gay.

Por favor, não me entendam mal. Não estou aqui falando mal dos gays ou das mulheres sexualmente independentes. O que chamo atenção é para o fato de que, nos dias em que vivemos, os rótulos, as categorias, são mais importantes do que a essência do ser humano. Propagandas não faltam defendendo isso ou aquilo, essa ou aquela condição. Mas, onde fica o ser humano que se constitui, também, através de outras coisas? Parece que se perdeu no meio de tantas etiquetas.

E por falar nelas, também por etiquetas, dessa vez não metaforicamente, se reconhece um grupo por elas. O grupo das marcas famosas, dos gostos requintados, dos vinhos diferenciados, de tudo o mais que se possa identificar através de uma etiqueta.

Aí, nessa prateleira de supermercado gigantesca que se transformou a humanidade e as relações sociais, não há mais espaço para as pessoas doentes de normose. Aquelas pessoas que não se definem por rótulos, títulos ou etiquetas. São aquelas pessoas que não conseguem evitar e demonstram estarem tristes, com saudade, com “dor de cotovelo”, ansiosas, inseguras, melancólicas, às vezes de mau humor com a vida, os estudos, o trabalho, a vida a dois, enfim.

São pessoas que estão doentes por serem… seres humanos. Por sentirem o vazio que muitas vezes a vida lhes impõe ou até eles próprios se impõem, pessoas que se entristecem porque não sabem falar de coisas importantes como a luta constante dos grupos minoritários, a liberdade de expressão dos GLS ou mesmo do discurso pró-natureza… Ora, novemente, não desmereço tais assuntos, apenas acho que existem coisas tão ou mais importantes quanto isso.

Existe a vontade de se confiar no vizinho ou amigo para lhe confidenciar um segredo bobo, a vontade de chegar em uma loja e ser atendido por um belo bom-dia não invasivo, a necessidade de ser respondido pelo médico de forma adequada (para não dizer atenciosa), o medo de contar aos pais que a virgindade foi perdida ou que o namorado/a está causando um sofrimento grande, ou mesmo aquele desejo enorme de ver o cachorro saltar de alegria quando se volta do trabalho. São coisas simples, bem tolas, mas que fazem uma diferença enorme em um mundo que não tolera mais tais manifestações tolas.

O mundo que deveríamos viver está se tornando um pesadelo. Um pesadelo de rótulos, de coisas importantes que não passam de preocupações vãs, de ações que ao invés de aproximarem acabam afastando as pessoas. Qual foi a última vez que saímos com alguém do trabalho para dizermos que estamos ali somente para “jogar conversa fora”? E a última vez que nos encontramos em uma discussão sobre os efeitos da coca-cola para alguém com prisão de ventre?

O mundo precisa de bobagens. Nós precisamos de bobagem. Não podemos insistir na perpetuação de comportamentos que defendem, respeitam, exigem de nós uma postura diferente SEM QUE, também, saibamos respeitar a tristeza, a melancolia, a saudade alheias. Que saibamos respeitar os grandes grupos, mas que respeitemos, igualmente ou com maior intensidade, os pequenos grupos. O grupo de pessoas que está ao nosso redor querendo um pouco de atenção, muitas vezes negligenciada por nos ocuparmos com as grandes coisas do mundo.

Não sei, mas acho que sofro de normose. Há lugar para muitas coisas na vida de cada um. Prefiro ficar doente do que me ocupar das grandes coisas do mundo e tentar ver as pequenas.