Encenação ou Retratos

Parafraseando Shakespeare, a banda canadense Rush escreveu: All the world’s indeed a stage / And we are merely players / Performers and portrayers. E penso nisso. Esse palco beirando o ridículo, esse palco criando absurdos, esse palco que se mantém riscado, rasgado, arranhado, pisoteado, camuflado, usado. Quase sinto pena dele. Mas essa vem, vez ou outra. Nesse lugar que serve para provocar riso, arrancar lágrimas, prender a atenção é apenas um lugar. Quem, de fato, realiza as ações são aqueles que performam e que retratam.

É um grande absurdo. É um grande ridículo. As pompas e as circunstâncias, os rituais que, na falta de um adjetivo melhor, os qualifico como “adequados” são seguidos detalhadamente para atribuir à peça (melhor seria dizer espetáculo) o seu grandioso tom. Novamente: do ridículo e do absurdo. Poderia dizer patético, até. E talvez esse seja mais adequado do que a própria palavra em si já dita. Elogios (ou elegias?), promessas vazias, declarações automáticas e automatizadas, agrados sem sentido – um presente chamado de lembrança – agregam-se, como se fizessem parte de pequenos atos que devessem conter toda a encenação. Há um clímax, um ápice, um charme brega nesse agir no mundo.

Procuro convencer-me de haver mistérios ainda não descobertos por mim e por essa razão não consigo compreender, em sua totalidade, a delicadeza do grande espetáculo. Insisto em acreditar, de alguma forma, que a responsabilidade pelo não entendimento é minha, exclusivamente. Busco a parcimônia, tento ser parcimonioso. Mas eis que ausente e isento, o que se põe diante de mim é apenas a performance e a refração daquilo que em sua essência poderia ser e jamais será. Culpa dos atores? Ou apenas responsabilidade compartilhada com quem dirige o espetáculo? Irrelevante.

Os atos são ridículos e absurdos. Possivelmente até mesmo falhos. Indesculpável! Não existe álibi para isenção. Ser no mundo é também estar nele para formá-lo. Construir o que se quer é nossa função. (Mas há que custo, José?).

Retratamos, apenas. Imperfeitamente. Tudo o que nos for capaz de revelar-se como uma fotografia colorida e desfocada, o fazemos. E, acreditem, nos gloriamos com isso. Achamos que é sempre nosso melhor. Não existe melhor. Nem tampouco pior. Apenas existe. Como as vãs esperanças. Existem para nos alimentar. São senhoras cruéis a nos prometer guloseimas que, sabemos, nunca iremos provar. É uma engorda falsa. Um saborear o desejo, somente.

Quem sabe seja por isso mesmo que as performances e os retratos imperfeitos ainda continuem a existir. Uma vã esperança de aplausos, de reconhecimento, de glória, de finalização, de gozo e de sucesso. Em vão, vãos. O palco é um lugar. Só isso. Os atores são os mesmos que performam e retratam. Todo resto é delírio inconstante de uma necessidade de certezas certamente incertas. E nos consumimos com os aplausos, com as luzes, com a ovação do público.

Eles, depois, irão embora. Os que performam e retratam, revisam o espetáculo para o dia seguinte. Mínimos detalhes, ínfimos ajustes: sempre precisos. Nunca necessários. Saciados pelas mãos agitadas, aquelas batendo com força para exaltar o que viram, recolhem-se em um semi-algo.

Verdade: “All the world’s indeed a stage / And we are merely players / Performers and portrayers.”

Interdiscursos

Ando-me às voltas com um conceito particularmente caro à Análise do Discurso: o Interdiscurso. Quem de fato tiver interesse acadêmico, não faltam artigos, teses, ensaios, livros e dissertações sobre o tema, seja na grande rede ou nas livrarias. Minhas reflexões ficarão no nível da quase obviedade para a maioria já versada sabe sobre o assunto. E nem mesmo é pretensão minha ir além disso.

Tudo já foi dito. Nada do que dissemos é nosso, nossa propriedade. Sequer temos a capacidade de criar algo com as palavras. Quem sabe um arranjo aqui, ou acolá e – abracadabra! – iludimo-nos acreditando na nossa (pseudo)inédita criação, artística ou não. E não nos enganemos: de um banal “bom dia” ao mais rebuscado “agradecemos a vossas senhorias a ilustre presença nesse simplório recital poético”. Tudo, tudo já foi dito.

Não podemos sequer gozar da prerrogativa do ineditismo. Nossas reclamações, nosso furor contra a injustiça, nosso posicionamento diante do que cremos ser possível mudar, nosso instinto de sobrevivência, nossa eterna busca por um algo melhor, nosso deleite em tentarmos agradar um outro qualquer… Tudo, simplesmente, já foi dito.

Nesse vão do já dito, que é um vazio de significações porque essas já se perderam ou se diluíram de tanto serem usadas, acabamos sempre os mesmos. Quer dizer, os mesmos porque é através do dito, da palavra proferida que nos construímos. Findamos, por assim dizer, por não sermos originais. Não há nada de novo em nós. Nosso dizer – e que se tome por discurso isso – é tão ferozmente vazio que só os ruídos de uma vírgula ou de reticências são capazes de permitir que se crie um algo novo. Interessante, pois nas pausas e nos silêncios é que – considero agora – surgem os mais rebuscados significados. Aqueles que podem mesmo ser tidos como a novidade. (Creio ser isso também uma ilusão).

O novo não é o dito, mas o silêncio. O calar por cansaço de insistir em desvendar o que já não se pode mais. Os segredos foram revelados, as mentiras foram descobertas, os ocultos não mais pairam na escuridão: tudo é às claras. Aliás, tudo é já dito. Não se busque mais o desbravamento: o óbvio já existe por si só. E não há além dele.

Tome-se uma carta de despedida (nos tempos de Internet, assuma-se o e-mail como gênero transmutado). O que ela contém de novo? São formas parafraseadas de dizermos: adeus. Os motivos variam entre o desespero de não suportar mais as angústias de tanto vividas e o libertar-se de dores tão vívidas experimentadas. Às vezes, um ou outro pedido de desculpas e, de culpas, partilham-se as partidas e as separações. Tudo já foi dito. No medievo, possivelmente, menestréis e senhoras acrescentavam poucas palavras dentro de um escopo de acesso à cultura limitada. Hoje, expandem-se os sentimentos com, quem sabe, emoticons.

Ou ainda, Pessoa já falava de cartas de amor e disse delas: são ridículas. E o são, sim. Ridículas, patéticas, monótonas e… não inéditas. “amo você”, “você é tudo para mim”, “quero expressar todo meu sentimento por ti”. Já dito. Não são ridículas pelo sentimento. Elas são por já terem sido escritas, ou melhor, ditas. Longe de mim querer discorrer sobre enunciado e enunciação. Já disse (Ah! o óbvio…): estou beirando o nível da quase obviedade e redundância.

Por que rimos de piadas? Simples: nos fazem rir. E só nos fazem porque um dia, qualquer domingo ou terça-feira, já, de algum modo, vivemos a situação. Ou a presenciamos. Não é o inusitado da piada, a surpresa, a distorção do óbvio: é aquilo que já foi dito.

Já ouvi muito: “não me sinto preparada(o) para isso”, “não estou confortável com essa situação”, “não quero falar sobre isso”, “não é nada”, “vamos mudar de assunto…” O que todas as sentenças me indicam resume-se a uma coisa simples. Isso é o que podemos dizer: já passei por isso, não quero passar novamente. É o mundo das experiências entrando em conflito profundo e inegável com o mundo da razão. É o dito. O que já foi dito. (Caberiam aqui os esquecimentos de Pêcheux?).

E, se escrevo agora, não é para ser novo. Mesmo porque isso seria uma contradição. Simplesmente, é um ensaio para afirmar com minhas palavras o que tantos outros já disseram. Há um propósito? Nenhum. É um ensaio. Não há mistério nas palavras, há somente a recuperação de ditos esquecidos. Neles é que se cria o sentido (ou ao menos a sensação?) do novo. E seguimos, crendo piamente que dizer é o que nos liberta pelo fato de ser novo. Não. Dizer não liberta. Ouvir o já dito indica caminhos. Iremos percorrê-los sempre? Não tenho resposta, afinal, cada um parafraseia, diz o já dito conforme suas conveniências.

Nada melhor do que um vinho, após confirmar o óbvio: tudo já foi dito. In vino veritas.Até que finde o porre!

(E, não. Esse texto não está terminado.)

Estamos lendo pouco Dostoiévski

Há pouco tempo, li em uma de nossas revistas brasileiras de circulação semanal, uma caixa de texto com o mesmo título desse que ora escrevo. De antemão, empresto-me um pouco das considerações da autora responsável por essa observação sobre a leitura nos dias atuais para desenvolver um pouco algumas outras reflexões sobre os comportamentos sociais contemporâneos advindos das leituras situadas nessa mesma época, ou mesmo da falta de outras leituras.

Como profissional da área de Letras, nem mesmo discuto a importância do ato de ler. Isso deve ser óbvio. Algo já incorporado aos profissionais recém ou já há muito formados. Tento argumentar, e isso, sim, considero essencial, de um ponto de vista pessoal que, de certa forma foi construído a partir de um lugar que ocupei como estudante de Letras e, hoje, ocupo como profissional da área.

Tive contato com Dostoiévski na adolescência. Não fui e não sou um profundo conhecedor de sua obra, ao menos por enquanto, acredito. O primeiro trabalho que li do autor russo foi “Noites Brancas”. Segundo resenhas sobre a obra, trata-se de um conto (ou uma novela, ainda não posso precisar qual o mais adequado) sobre dois personagens que se encontram em uma ponte em São Petersburgo. Não reli a obra. Falo de uma perspectiva nostálgica, muito mais do que um lugar recente de lembranças sobre detalhes da obra. Recordo que me impressionou bastante o desenrolar da estória por me criar expectativas acerca de um possível final feliz. Mas, enganei-me. Não foi isso que aconteceu. Toda a expectativa criada sobre esse possível final feliz foi destruída. A jovem deixa o seu interlocutor e vai ao encontro de seu amor, personagem que só aparece de fato no final, que havia prometido voltar quando pudesse se casar com ela.

Por ocasião, pensei: “Que tipo de pessoa escreve uma estória sobre pessoas que, aparentemente, irão viver um final feliz juntas e, ao final, uma delas – apenas – encontra a felicidade?”. Coisas que qualquer um com poucos anos de vida pensaria. A felicidade não é pesada com a mesma medida para todos. E deixei Dostoiévski para lá. Havia muita coisa mais importante do que apenas um autor que me pudesse fazer entender a vida pela ótica da ficção.

O fato é que há três ou quatro anos atrás, deparei-me com o romance “Crime e Castigo” disponível em uma banca de revista. E logo decidi adquiri-lo. Já havia me formado em Letras e optado por ter algumas obras em meu acervo para lê-las quando a maturidade me permitisse. Ruminei o livro por alguns meses. Lembro de tê-lo começado ao menos três vezes e o abandonado. Na quarta vez, que não lembro exatamente quando foi, decidi iniciar e terminar. Confesso, a leitura demorou mais do que havia me proposto a fazê-la. Mas terminei o romance.

Inquieto, não pude deixar de pensar como era possível tanta culpa, tanto remorso, tanta miséria, tanta resignação, tanta baixeza de caráter, inúmeros gestos de submissão, respeito, preocupação… nas páginas de uma ficção. Havia tanta dor nos personagens que eles pareciam vivos, pessoas com as quais um dia cruzamos e julgamos, por apresentarem comportamentos dessa ou daquela maneira.

Assassinato é o que move a estória. Pobreza é um dos fios que compõem o cenário. Aliás, miséria descreve bem melhor todo o espaço em que se desenrola a trama. Não somente a miséria do espaço físico, mas a degradação moral dos personagens. Uma gente que, por falta de opção, por destino, por predestinação estava condenada à submissão dos instintos. No entanto, esses mesmos instintos foram superados por ações da consciência dos próprios personagens.

O que destaco é a construção dos personagens dostoievskianos e sua semelhança com pessoas reais. E mais, a semelhança de atitudes desses personagens com atitudes muitas vezes vistas e ouvidas por mim. Enxergar o outro a partir de um ponto de vista que não o de nossa própria constituição como sujeitos me foi determinante para poder entender um pouco sobre a pobreza e, principalmente, a fragilidade humanas.

Quantos sujeitos, perto ou distantes de nós, não sentem culpa pelo mal causado ao outro? Quantos sujeitos superficialmente conhecemos que não estão imersos em uma esperança de redenção? Quantos sujeitos não conseguem agir no mundo porque lhes faltam a determinação e certeza de seus “pecados lhes serão perdoados”? Quantos outros não aguardam o dia de se confessarem publicamente para poderem acolher os benefícios da benevolência daqueles que os amam? Quantos personagens que são idênticos aos caracteres da vida real…

Atualmente estou imerso em “Os irmãos Karamázov”, obra prima da tragédia familiar. Não posso adiantar muito, ainda não o terminei. Contudo, as considerações que faço sobre a construção das personagens é a mesma: miséria humana, ódio, loucura, tragédia, raiva, estórias paralelas de personagens secundários tão trágicas quanto as que não observamos no cotidiano, excessos, dissimulação, dúvidas… Deixo o restante em suspenso, principalmente para mim.

Mas, porque estamos lendo pouco Dostoiévski? Talvez seja simples a resposta, mas precise de um pouco de conhecimento sobre algum de seus trabalhos. O escritor vale-se de descrições longas e, para os desavisados, enfadonhas sobre o perfil psicológico dos personagens, sobre as ações da trama, sobre o cenário onde se passa a estória. Isso tudo, a princípio, pode parecer cansativo. Mas necessário para refletirmos um pouco sobre os mínimos e máximos detalhes sobre pessoas e coisas  ao nosso redor.

Em uma época em que as trilogias, as séries, as sagas e os best-sellers pseudo-eróticos estão na moda, ler literatura russa parece ser coisa de um passado quase pré-histórico. Bruxos que transitam entre o mundo real e uma escola de magia situada em um mundo paralelo, vampiros que brilham à luz do sol e jovens que assinam contratos delegando a outrem o tipo de prazer sexual que querem sentir são o divertimento de uma parcela que se diz leitora mas não consegue ter o senso crítico apurado para ver quão incipiente são essas “obras”.

É fato que gosto não se discute tanto mais quando isso é uma ação livre, resultante do livre-arbítrio. Mas consideremos: uma jovem que passa a ser escrava sexual de um homem mais velho é sucesso e uma adolescente que se deprime porque ama alguém (!) morto não são, necessariamente, metáforas exemplares da expressão “a vida imita a arte”.

Por que tantas mulheres leram “50 tons…”? Curiosidade sexual? Pode ser. Mas ter curiosidade sobre perversões pedófilas (ou quase isso…) expressa um certo traço de frustração dentro de um relacionamento. Não estou julgando ninguém, são fatos retirados de postagens de facebook encontradas em diversos sites. Já li várias passagens cujo discurso era sempre: “- Melhorei minha vida sexual graças a esse livro”  ou “Incrementei o sexo com meu marido com algumas ideias do livro”. Esse é, de fato, um retrato bem preciso da miséria humana. Se um casal não consegue explorar sua sexualidade, seja lá de que forma for, através do diálogo, carecendo de um livro de perversões sexuais para tanto, o que se tem não é um relacionamento. São apenas duas pessoas que estão juntas vivendo uma vida sem cumplicidade. Sexo é algo físico, mas também emocional. Se não houver conexão emocional para a realização do ato, o que existe é somente liberação de química no cérebro. Nenhuma fantasia romanesca pode ser superada pela fantasia real de duas pessoas que vivem um relacionamento.

E por fantasias reais, refiro-me a reconhecer no outro suas falhas, seus defeitos, lembrar das mágoas, das palavras rudes e ásperas ditas, perceber a incapacidade do outro de agir positivamente em certas ocasiões e, mesmo assim, fazer sexo com ele. Ah, se soubéssemos compreender que nesse ato sexual não se apagam as torpezas do outro, mas que o perdão cotidiano é a força motriz para execução de tal ato, talvez fossemos capazes de entender que estamos lendo pouco Dostoiévski.

Ou ainda, se compreendermos que a angústia vivida por uma adolescente que deseja o amor de um ser condenado a não morrer, amaldiçoado a não dormir e a beber sangue como fonte de alívio para uma fome impossível de ser saciada, entenderíamos que uma representação pelo desejo da imortalidade, uma fuga do tempo que nos obriga a sermos sábios com e para os outros que são parte de nós e uma desobediência fatal ao núcleo que nos permite sermos melhores em razão dos exemplos mostrados – a família – são apenas alguns dos elementos de uma trama que flui entre a desestruturação da subjetividade e o encontro com o ideal inexistente. Isso sem contar com a ridícula junção de um Drácula pós-moderno com licantropos bem distantes da Grécia Antiga…

A saga “Crepúsculo” mostra em enfadonhas, medíocres e, infelizmente, bem sucedidas linhas do ponto de vista comercial o que se está lendo atualmente. Não questiono o gênero literário ou o tipo de literatura. Não sou crítico literário e nem pretendo sê-lo. Falo do ponto de vista (já disse antes) de um mero leitor que reflete sobre metáforas possíveis de um mundo que não lê Dostoiévski. Em linhas gerais, a obra poderia compor a chamada de uma matéria policial de jornal: “Jovem deprimida por amor não correspondido tenta o suicídio, é salva pelo garoto bad boy que depois a leva para seu mundo transviado”. Só faltam mais quarenta e cinco minutos parafraseando a notícia acima para compor uma das reportagens especiais dos programas dominicais da televisão brasileira.

Que se entenda bem: não estou comparando os personagens desse livros com os personagens criados pelo autor russo em questão. Afirmo que, tão desprezíveis são os personagens do autor de “Crime e Castigo” que, de certa forma, podem prever a miséria e a pobreza de construção dos personagens dessas obras mencionadas.

A minha reflexão baseia-se mais no desejo de alcançar o impossível, de ignorar o que está próximo no dia a dia das pessoas, tão presente nas leituras atuais, que se deixa de lado as verdadeiras misérias reais e fictícias de nossa sociedade. Pessoas reais são retratos fieis dos personagens miseráveis de Dostoiévski. Só não foram devidamente retratadas em prosa. Pessoas que leem literatura comercial por acharem-na mais interessante do que enfadonhas descrições de traços psicológicos e espaços físicos deixam de lado a mais delicada obviedade da boa literatura: a arte imita a vida.

Infelizmente, o outro lado está sendo bem mais cultuado: a vida imita a arte. Pela superficialidade das pessoas, pelo desejo coletivo de mergulhar na superficialidade de conhecer o outro, pela repulsa em compreender as complexidades daqueles que nos estão pŕoximos, pelas paupérrimas metáforas contidas em ações de personagens inócuas é que penso: estamos lendo pouco Dostoiévski. E talvez Joyce, Machado, Clarice, Graciliano, Verne…

A vida é “invivível”

Não sei se recordarei, no futuro, um certo diálogo que tive com uma respeitável pessoa em um desses dias indiferentes. Contávamos ambos um divórcio. Falávamos sobre anseios, dúvidas, certos medos inerentes à condição humana. Divagávamos a respeito do que não poderia ser evitado durante os pesados passos, resultantes de toda existência humana. Claro, entre tais divagações estava o inegável fato de que muito já era em si evitado por uma certa parcela da existência humana. Essa exata parcela que não prevê, que não antecipa, que não reflete sobre a inerência dos medos, dos anseios e das dúvidas. São o que posso chamar de ignorantes. Excetuando-se toda a conotação negativa do termo, refiro-me aos que ignoram aquilo que vivem. Indiscriminadamente ignoram. Do gozo quase celeste de algumas conquistas até mesmo a dor mais profunda de uma perda. Essa parcela, simplesmente – embora creia não ser tão simples assim -, vive sem questionar. Vive em uma aparente, ao menos para mim e para quem mantive o diálogo, margem de tudo que possa vir a ferir, a machucar, a ser irresolvível, a alegrar, a provocar êxtase. Vive: apenas.
Por ocasião da conversa, não decidimos se isso era bom ou ruim. Aliás, nem mesmo sei se importa ser algo. A vida, disse eu, é “invivível”. O fardo ao qual nos impomos pela exata e precisa condição de estar vivo torna-se suportável somente porque não há outras formas de deixarmos de carregá-lo. É possível deixar de lado, é possível ignorá-lo por um tempo, é possível, inclusive, acreditar que não há fardos, mas apenas consequências ou causas de qualquer outra coisa que não seja um fardo.
Verdade é que fardos existem. Toda nossa vida é um inevitável e lento caminhar para não-se-sabe-onde carregando não-se-sabe-o-quê. E seguimos, parando algumas vezes, reduzindo o passo outras, desistindo quase sempre. Ou, o contrário: nunca desistimos porque isso é inevitável. Viver é uma inevitabilidade, ainda que “invivível”.
Concluir logicamente: isso é um processo doloroso e sem fim. Possivelmente, até, sem saída. Vivemos porque vivemos. E com fardos que pesam, para uns, muito, para outros, nem isso. A alegria dos que vivem à margem de reflexões acerca da condição e fragilidade humanas deveria ser celebrada. Não sei, exatamente, de onde vem o dito “a ignorância é uma benção”, mas mesmo sem saber, admito que isso é uma verdade que não pode ser excluída de nossa oração diária (se é que é possível haver uma e uma só).
Estar alheio às dores que nos só comuns deve ser bastante enriquecedor. Parece-me que não pensar, que ignorar fatos, excluir traumas, mascarar o desagradável, desdenhar do penoso dormir e acordar permitem, aos que assim o fazem, gozar uma vida com um pouco mais de plenitude. E, sim, o verbo é “gozar” mesmo. Com todas as suas acepções.
Isolados não conseguimos viver. Fomos marcados, como bois: a ferro e fogo, a precisarmos viver com outros. Para o bem e para o mal. Para os que nos fazem sorrir e para os que nos fazem desabar em um choro convulsivo. Se nos afastamos daqueles que nos fazem mal, constitui-se um ato de coragem. Mas, o mal já foi feito. A dor já foi causada. O fardo já está sobre os ombros e não é mais possível retirá-lo de lá. Evitamos um que nos fez mal, que nos feriu e… vem outro e faz com que experimentemos a mesma sensação já vivida e já evitada.
E para os que nos fazem sorrir, cometemos o erro de necessitarmos tanto do outro a ponto de não mais distinguirmos nossa própria subjetividade. Aliás, a subjetividade também se constrói dessa forma: através do outro. E sufocamos com sua ausência. E o sufocamos com nossa presença. São dois olhares distintos sobre uma mesma situação: inevitável não haver equívocos.
Não sabemos ser sozinhos. Não conseguimos fazê-lo. A humanidade é uma condição impossível de ser vivida. Com o outro ou sem o outro, sempre carregamos os fardos que não deveríamos. E os poucos prazeres que sublimariam nossa existência são relegados pela própria necessidade de sobrevivência e subsistência. Constatar que para vivermos plenamente é necessário sobreviver e subsistir não é algo prazeroso. É penoso, é dolorido, é frustrante, é infinitamente pesado para ser, ironicamente, “vivido”. Creio que um tratado de vários volumes versando sobre a condição humana e sua necessidade de existir com o outro considerando as Artes, a Música, a Pintura, a Educação, a Filosofia, a Psicologia, a Literatura, a Política, a História… seria um trabalho irrealizável para apenas uma pessoa. Mas para duas, definitivamente seria impossível: a discordância imperaria.
Freud falava de sublimação. Na verdade, isso se resume a resignação. Diante da vida, só resta ignorar tudo e aceitar que, apenas pelo simples fato de não poder haver mudança, a vida, em si, para os que pensam sobre ela, ainda que pouco, é “invivível”.

Descrença

Algumas vezes é preciso acreditar. Em tempos como esses, parece que nem mesmo isso é possível. Recentemente, vi novamente um filme antigo: A excêntrica família de Antonia. Pelo título, não parece ser muita coisa. No entanto, esse é mais um clichê: as aparências enganam. Sem resumir o filme, limito-me apenas a dizer que a estória e suas nuances inaparentes são, por vezes, paradoxais. Enquanto em sua essência a estória celebra a vida, o amor, o acolhimento, a tolerância, o respeito ao próximo, as entrelinhas são repletas de humanidades (o lado negativo delas). O julgamento, as acusações, as chantagens, a relação amor e ódio que perpassa a todos, a alienação e, para mim o mais importante: a inevitável conclusão sobre a vida: ela é insuportável.

Um dos personagens do filme, amigo de longa data de Antonia que é a protagonista da estória, finda por dar cabo de sua vida. Para ele, ser é insuportável. Estar no mundo, também. E não raro são as manifestações desse tipo de conclusão, ainda que no nível ficcional (uso outro clichê: a arte é mimese). E isso vem funcionando bem até mesmo para ficções científicas. O que acontece com o clássico Matrix? Neo apenas deseja parar a guerra e dá sua vida por isso. Ele poderia encontrar outra forma. Tudo bem que à época do filme, intertextualidades e análise filosóficas pipocaram por todos os lados. Mais recente é o caso do filme Ela. Um sistema operacional que desenvolve-se a partir das interações com seus donos-usuários. A complexidade do filme é tamanha que o próprio sistema conclui que é melhor se apagar (excelente metáfora para o suicídio, ao menos eu achei).

Mas para que ninguém ache que venho pensando em me matar, esclareço: o rumo que a sociedade está tomando com sua ausência ao respeito com o outro, o crescente egoísmo e egocentrismo, o deboche, a falta de regulação nas ações humanas no tocante ao ser no mundo com outros me leva a pensar que o recluso do filme de Antonia e o sistema operacional do filme Ela chegaram à conclusão mais lógica possível: viver é impossível se existe a pretensão de pensar que isso é algo bom.

Perdoem-me os otimistas de plantão, mas o milagre da vida me soa hoje apenas como uma combinação de matemática com química e biologia, nada mais. Não existe milagre nas manifestações de vida que hoje presencio. Existe um resto de DNA animal impregnado em hominídeos. A humanidade atestou e cada vez mais forte atesta sua incompetência em existir. Não me excluo do que falo, mesmo porque se o fizesse toda essa reflexão seria um paradoxo, tal qual o filme de Antonia.

O Realismo, período literário confuso, que misturava a arte da escrita com as teorias científicas foi, para mim, um dos que melhor representou a sociedade. Machado de Assis foi um mestre da ironia, das observações acerca do caráter dos seus personagens. Eça de Queiroz, em sua A Relíquia tratou com maestria a hipocrisia interesseira e capitalista do seu protagonista (e de novo podem até mesmo mencionar que ele se arrependeu e blá blá blá). O fato é que ele foi e fez o que tinha de fazer segundo a visão particularíssima do autor. No O Cortiço, a sensualidade e o desregramento imperavam, além de trazer o belo cenário da exploração do outro.

Ora ( direis ) ouvir estrelas! Certo, mas não perdi o senso. Que não seja nem a sétima arte nem a literatura no que me baseio para refletir aqui. Senão vejamos: noticiários: morte, corrupção, crime organizado, economia falida globalmente, fome, violência urbana, violência sexual, assassinatos em série, traições, pedofilia, injustiças. Novelas: sexo, traição, violência, desonestidade, desestruturação familiar. Governo: corrupção, favorecimentos, omissões, troca de favores, mentiras, acusações. Igrejas: pagamentos pela salvação, acusações, conversões impossíveis, atitudes condizentes com as doutrinas mal interpretadas. Educação: esse eu me limito a dizer: uma piada.

E sei que virão os otimistas: olhe a natureza, viaje, relaxe, ouça uma música, mude seus hábitos, tenha paciência, cultive coisa boas no coração, releve, deixe de amargura. Uma palavra: não. Duas ou mais: não, recuso-me a continuar acreditando que ser vale a pena, que viver valha a pena. (Não irei me suicidar, não pensem nisso pois estão perdendo tempo). São conclusões, apenas.

Talvez mais do que isso. Um manifesto sobre a minha total descrença na possibilidade de haver satisfação na vida. Não nesses tempos, não nas condições atuais e futura dessa sociedade. Afinal, como acreditar em uma espécie que vai a lua e deixa outro morrerem de fome? Ou pensar que a cor da pele um dia deu direito a alguém de escravizar outros? (Hoje não é mais pela cor da pele, é pela força bruta) Ou entender como se põe relevância nas lutas pelas minorias? Por princípio ideológico meu, elas nem deveriam existir. Nem minorias, nem maiorias, apenas diferentes em um mesmo espaço e com os mesmos direitos e deveres para com todos os “conviventes”.

É simples: deixar de acreditar e somente esperar. Celebra a apatia, pois a “alegria, alegria” foi um impulso tropical como consequência dos mesmos erros ainda recorrentes: eu posso, eu mando, eu elimino se você é contra. Em resumo: eu não dou a mínima para você, o que me interessa sou eu. E esse discurso perpetuar-se-á indefinidamente.

Humoristicamente, mas com toda a solenidade afirmo: o Urtigão é que é feliz. Quem me dera poder ter uma ilha e provar que todo homem pode, sim, ser uma ilha.

A solidão do Mal

Uma das coisas que mais acho curioso, embora o assunto seja trágico também, é a manifestação do Mal. Sim, com letra maiúscula mesmo que é para indicar a influência do tinhoso, do pé-de-cabra, do inimigo, do tentador de Jesus na vida de pobres mortais. Não irei discursar sobre religião nem afirmar que “Só Jesus Cristo Salva”. Meu intento é, a partir de um ponto de vista de fé mesclado com alguma lógica, refletir um pouco sobre a solidão do Mal. Precisamente, das consequências de suas ações na vida dos seus influenciados.

Ilustrando, começo citando a ficção. Na maioria dos filmes e séries, independentemente de gêneros, há o combate entre o heroi e o vilão. Uns querem dominar o mundo, outros querem o poder completo de uma companhia farmacêutica, de um país, de uma cidade ou, o nada original, do mundo. Lá se vai o heroi lutando, levando porradas, tomando balaços, sendo torturado, tendo seus familiares ou amores sequestrados ou mortos até que, pasmem, ele, depois de todo o infortúnio, derrota o vilão.

Bem, derrota em partes já que o Mal sempre deixa seu legado (veja por exemplo o Coringa na série Gotham…). E aí, já velho e cansado, cheio de dores pelo corpo, vai-se o heroi de novo enfrentar o mal. Lógico, em suas batalhas ele fez coleguinhas que estarão prontos a ajudá-lo e, em alguns casos, esse mesmo heroi também deixa um legado. Filhos, talvez. E a história se repete.

Nesse perde-ganha-perde-ganha entre vilões e herois, eu me pergunto: supondo que o Mal vença em definitivo, o que ele vai ganhar com isso? O mundo é a resposta mais óbvia, certo? Errado. O mundo é feito de pessoas. Pessoas têm livre-arbítrio. A escolha é, geralmente, por aquilo que faz bem as essas mesmas pessoas. Quer dizer, boa parte das vezes escolhemos aquilo que nos faz bem ou achamos que nos faz. Então, se o Mal vence, ele escraviza porque sendo senhor absoluto, conceder alguma coisa ao outro por bondade é o oposto de ser vilão. Na prática: ele poderá querer uma companhia, um, digamos, affair. Afinal, o Mal deve ter lá suas necessidades. Quem ficará com o vilão sem ser por obrigação? Somente outro vilão. Haverá amor? Pode até ser, mas com um baita interesse de uma das partes do tipo visto em Hamlet. E se for por obrigação, não há lá muito sentido nisso.

Pensemos em uma eventual situação: o Mal deseja sair e comer tacos mexicanos e convida a parceira/o parceiro. Provavelmente a companhia irá de má vontade, mas irá. Quem pagará a conta? Se o Mal domina o mundo, ele deve ser o dono do local, então isso não será problema. Sobre o que conversarão? O dominador não terá mais objetivos, pois já conquistou tudo. A dominada/o dominado ficará em silêncio já que está ali por obrigação e, possivelmente, deve temer o seu Senhor. Convenhamos, ficar sem falar é um saco algumas vezes. Aquele silêncio constrangedor que às vezes acontece entre pessoas normais nunca poderia ser quebrado pelo Mal com algo do tipo: “- Será que chove hoje?” Nesse caso, valeu mesmo a pena dominar o mundo? Eu particularmente acho que o mundo é muito grande para ser dominado. Em algum lugar sempre vai haver alguém tentando derrotar o Mal e ele não saberá, mesmo sendo Senhor de tudo. Um saco isso!

Entrando na vida real, pensemos na lógica de namorados, noivos, maridos ou amantes que cometem crimes por doentio ciúme. Estão lá os dois apaixonados no mesmo restaurante de tacos mexicanos que o Mal e sua companhia (é preciso um cenário, certo?) e uma discussão inicia. Palavrões para lá e para cá, a Maria da Penha ignorada pelos policias que fazem ronda pelo local e o marido diz que não aceita o término. Se ela não for dele não é de mais ninguém. Passa a noite e o outro dia, ele arrependido liga para ela sugerindo conversarem e na hora do encontro dá-lhe 30 facadas. Esconde o corpo e vai ao shopping. Depois liga para a polícia dizendo que a esposa não aparece em casa há uns três dias. No final, sabe-se que foi ele. Termina preso.

Afinal, ganhou o que com isso? Perdeu, literalmente, a companheira. Não é dele, não é de ninguém. Para nunca mais. Ele preso pode até sair com pouco tempo, mas ficar enjaulado com um monte de outros homens, talvez muito mais violentos e desequilibrados do que ele valeu a promessa de não deixá-la ser de outro? Sairá como ex-presidiário e terá dificuldades de encontrar um trabalho. Sim, o receio existe e é normal – ao menos para mim. Perderá, no caso de filhos, o amor deles. A família, talvez com exceção dos pais, se afastará e o mesmo se aplicará aos amigos e conhecidos. Ficou só. Possivelmente, evitará isso mentindo. Mas eis o detalhe: mentir sobre si, para mim, é não ser quem se é de verdade. Uma outra solidão: é-se pela mentira. Meio louco isso!

Mais vida real ainda. Políticos! São eleitos, prometem mundos e fundos, fazem uns projetos de lei nomeando rodovias ou decretando feriados, votam contra o que é certo, apoiam os chefes de estado apenas por interesse. Essencialmente roubam o dinheiro das pessoas como eu e você que, acho, está me lendo. Um cálculo básico, bem básico mesmo me leva a considerar o seguinte: uma família de quatro pessoas, no Brasil, consegue viver bem, não ótimo com cerca de dez mil reais líquidos (para o ano de 2017…). O que danado se quer com 10, 20, 30… N milhões por mês? De propinas, de negócios excusos, de vantagens em negociatas. Mas é isso que se quer. Vamos a questão da solidão do Mal aqui.

Deodoro, um político fictício recebe 20 milhões de reais em vantagens nos negócios relacionados às licitações. Ele tem diversos apartamentos no Brasil e no exterior, viaja sem gastar nada já que usa aviões da Força Aérea Brasileira, tem várias férias por ano, possui cerca de 20 carros de luxo, entre nacionais e importados mas só tem duas pernas e um corpo para dirigir cada um dos carros, só pode ficar em uma casa de cada vez, só descansa em um lugar e em um período de cada vez. Por que? Ele é só um, claro. Então o Deodoro fica doente. O único corpo que ele tem está debilitado e a resposta dos diversos especialistas nacionais e internacionais é a mesma: não há cura. Você tem alguns meses, poucos de fato, de vida. Pronto, juntou tanto dinheiro para si e para a família e não poderá mais gozá-lo.

A família, exemplo um, acostumada com a boa vida, não sabe administrar o dinheiro e fica bem menos rica sem o patriarca. Ou, exemplo dois, a família segue o legado do Deodoro, a exemplo da ficção e repete tudo de novo. Independentemente de doenças, essas pessoas também irão morrer e como caixão não tem gaveta, nada levarão. Pode-se argumentar: De fato sobre o caixão está correto, ele não tem gaveta, mas sendo Maus, roubando, tiveram a vida que desejaram com muito conforto e luxo.

Entra aqui a minha questão de fé: seja qual for o seu Deus, uma mensagem é sempre idêntica em todas as religiões. Ame o próximo, seja honesto, ajude a quem precisa. Lembrando que não roubarás é um mandamento para católicos, judeus e, para os muçulmanos, corta-se a mão de um ladrão . Se morreu nessas circunstâncias, irá para o céu. Mas se morreu nas circunstâncias do roubo, vai passar a eternidade no limbo.

Certo, possivelmente o Mal irá fazer com que você deixe de acreditar no limbo ou mesmo na vida eterna. Bem, acho isso complexo porque viver sem acreditar em alguma coisa maior do que si próprio é atestado de autossuficiência, o que, algumas vezes, leva você a solidão. Sim, se você é suficiente a você próprio não sentirá falta de alguém para ir ao cinema, nem para fazer a feira de verduras semanal com você ou mesmo tomar uma cerveja com fritas e calabresa no domingo pela manhã na praia. Esses tolos exemplos podem levar a um isolamento. Nada mais “sinonímico” para solidão do que isso.

Acho que solidão, pela maldade, deve ser bem inconveniente. Por mais que se deseje, sempre se estará sozinho. A probabilidade de se ter companhia pelo bel prazer da companhia, ainda que existente, é reduzida. Os Maus arranjam um modo de se acharem, mas não será companhia verdadeira, aliás, será verdadeira, mas por interesse.

O Mal ou o mal ou as pessoas más vivem em uma solidão imensa no final das contas. E ainda assim insistem em vivê-lo. Ser bom é algo bom. Só se vive uma vez, acumular, roubar, matar, estuprar, enfim, fazer o mal é sempre solidão. Eu poderia estender esse texto a muitos parágrafos mais, porém creio que deixei claro minha perspectiva.

Tudo de nós sem nós. (ou a Nova Ordem Mundial de Anulação do Outro)

Deparamo-nos com uma nova ordem mundial que de nada tem de teoria da conspiração. É uma realidade plena, pura e absoluta que a cada dia vem sendo mascarada por novos discursos que apontam para a modernização, o crescimento pessoal e profissional bem como a aquisição de conhecimento (também conhecido, falsamente, como acesso à informação) como fatores responsáveis por uma (suposta) melhoria dos seres humanos e, por tabela, da condição de “ser” humano. Parte significativa dessa ordem deu-se com as novas tecnologias de informação e comunicação propiciadas pela Internet. Outras forma apenas transformações mais explícitas. Chamo-a de Nova Ordem Mundial de Anulação do Outro.
Sei pouco sobre diversos assuntos. Sei menos ainda sobre as relações estabelecidas ao longo dos anos entre os homens. Aliás, sei apenas o que aprendi nos textos sobre História que li (que, confesso, não foram muitos). No entanto, mesmo com essa parcela considerável de ignorância da minha parte, aprendi que nada no mundo é mais essencial do que o respeito ao outro. Creio não não seja simplesmente por questões éticas ou morais, tratadas pela Filosofia. Tampouco pela necessidade de qualquer tipo de contrato social exigido pelos membros das comunidades que se organizam em sociedade, algo investigado pela Sociologia. Acredito que esse respeito é essencial porque não existe eu sem o outro.
Sem esse outro não existimos porque é a partir das experiências pessoais, culturais, intersubjetivas, intelectuais, afetivas, raivosas, egoístas, enfim, que somos. Acreditar que uma pessoa qualquer pode se tornar um Alguém ignorando o requisito básico do outro em nossa vida é permanecer na crença de que a Terra gira em torno do sol. Isto é, que somos (e isso em si já é uma contradição) sem que exista nada além de todas as coisas feitas para mim e a partir de mim. Tosco e absurdo.
Ser é, em essência, estar com o outro a partir das diferenças, não em razão das semelhanças. Mas tal raciocínio não se aplica mais. Ser, atualmente, é acusar o outro de não pensar, agir, falar, vestir, sentir, cuidar do mesmo modo que o fazemos em nossas realidades cognitiva e emocional privadas.
O que me leva a considerar essa nova ordem mundial são os meus particulares olhares sobre o funcionamento de certas ações individuais e coletivas. Comecemos pela mídia. Acreditamos até certo tempo que as notícias veiculadas pelos meios de comunicação eram, de fato, os temas e assuntos locais ou mundiais que deveríamos saber a respeito. Nossas verdades eram moldadas por essa regulação seletiva dos meios de comunicação. Em parte, isso ainda é verdade, todavia essa regulação seletiva do rádio, da televisão e da “imprensa impressa” passou a considerar que fotos de famosos que foram internados por conta do uso de drogas eram assunto relevante visto que a “superação” dessas pessoas era uma incrível estória de vida. Ou ainda a espera de um filho de um casal recém-escolhido pela mídia, cuja gravidez, supostamente, requeria somente repouso da parte da gestante, para representar o desejo da coletividade em formar uma família baseada naquele modelo – diante das dificuldades – pode, hoje em dia, ser assunto que rende páginas e páginas de revistas de fofocas. Temos ainda as acusações selecionadas de escândalos selecionados de pessoas selecionadas na política, na religião, na etnia, no gênero…
Ora, por qual razão, então, a mídia não veicula casos de jovens pobres, brancos ou negros, que por causa de uma violência doméstica e social constante acabaram por encontrar refúgio, consolo, fuga nas drogas e a superaram? Isso não é estória de vida? Ou ainda, em função de quê não se escolhem nordestinos miseráveis, que passam fome, sede e outros tipos de privações mas que mesmo diante de uma gravidez (mais uma entre outras nove ou dez…), resignados e firmes, afirmam que por nada no mundo deixariam seus filhos serem adotados, justificando que mesmo na miséria crua – um tipo de dificuldade bem palpável -, um filho é ainda um dos melhores presentes da vida, de Deus? Na política a direita acusa a esquerda, o centro ataca a direita, a esquerda se faz de coitada e ataca ambos e, no fim, todos são inocentes. Um branco ataca um negro e justifica dizendo que pensou ser um ladrão, um negro ataca um branco dizendo que era “um playboizinho viciado e metido”, o playboy ataca a periferia argumentando que lá são todos burros, analfabetos e sem classe, os burros, analfabetos e sem classe não se dão ao trabalho de revidarem porque foi incutido neles a ideia de que são burros, analfabetos e sem classe. Cada qual no seu lugar anula o outro de uma forma que apenas seus próprios interesses, suas vontades, suas necessidades (!), seus interesses sejam satisfeitos. Não se trata de elite atacando classe C, D ou E. Tratam-se de ataques. Trata-se de anulação. Se alguém é hétero, pode ser acusado de homofobia. Se é gay, de anticristão. Se travesti, de aberração. Mas ninguém “acusa” o outro de ser humano.
E são essas as pessoas que o tempo inteiro anulam uns aos outros em um eterno círculo vicioso que se estende além das fronteiras do real: chegam ao virtual. Nas redes sociais, curte-se e retuíta-se sem a mínima preocupação com o outro. A garota postou fotos íntimas porque o perfil na rede social era dela, mas isso não importa. Importa disseminar e humilhar essa pessoa. Um animal é agredido injustificadamente por alguém, e seguem-se vários curtidores. Alguém defende sua religião e é atacado por alguém que afirma ter visto provas contundentes de que os padres, pastores, ministros daquela religião são pedófilos e que ser dessa ou daquela religião é ser burro. Outros agridem qualquer um que acredite em qualquer coisa “discursando” que uma ação mostra mais da pessoa do que a própria fé dela. E de novo seguem-se vários curtidores. Uns curtem porque gostam, outros curtem porque a rede social azul disse que não existe opção descurtir para não incentivar o comportamento negativo. Ou seja, na virtualidade do ciberespaço somente podemos ser a partir de um não ser. Sou/estou indignado mas essa opção não me é possível porque o programa de computador me anula. A tecnologia me anula na medida em que ela não me serve: eu sirvo a ela. Alguns dependem das agendas eletrônicas ou sites e aplicativos especializados para lembrar das datas de aniversário dos que lhe são próximos, outros dependem do celular para se sentirem inseridos em um certo grupo, verificando a cada minuto se alguma atualização de status foi feita para poder ser o primeiro a comentar, há os que dirigindo não conseguem parar em um semáforo sem checar as últimas fotos postadas pelos seus contatos, ignorando que atrás pode vir uma ambulância ou alguém simplesmente com pressa, ou que ao lado está passando uma mãe que buscou seus filhos na escola, um ciclista…
Na educação, eu hesito agora pensando se vale a pena falar sobre ela… Enfim, um texto é para ser lido. Universidades e faculdades formam professores que precisam lidar com o universo distinto de seu alunado e não foram preparados para enfrentar galáxias, não universos, distintas. Crianças sem limites, crianças sem responsabilidade, crianças sem estrutura familiar, crianças que só as são em razão da idade, porque nem elas próprias sabem o que é sê-lo. Agressão aos professores, violência e bullying dos alunos contra outros alunos, vandalismo nas salas de aula não são sinais de que há a necessidade de um novo modelo de gestão educacional ou de abordagem psicopedagógica. São sinais de que professores, alunos, pais, gestores educacionais, etc não sabem mais incluir o outro da forma certa (sim, eu acredito piamente em formas certas e erradas de educar, de amar, de sentir, de agir no mundo). E segue-se nisso a anulação do outro. O professor anula seu aluno porque não lhe é possível lidar com 150, 200 ou mais alunos de uma forma individual, a escola anula o professor porque não importa se seu filho, esposa ou pai estão doentes ou morreram: a carga horária precisa ser cumprida, alguns novos teóricos da educação afirmam que a criatividade precisa ser estimulada de ambos os lados e esquecem que, pelo viés da psicologia, a imaginação da criança se constrói, em uma certa fase, a partir da anulação do pai, da mãe ou de qualquer outro que impeça a realização do seu Id, o pai anula o professor ao ensinar ao seu filho que, por estarem pagando a escola, seu filho é o rei (ou se for pública, que é obrigação da escola cuidar do seu filho, afinal, impostos servem para pagar o salário do professor), alunos anulam outros alunos por sentirem que são mais importantes do que o outro já que assim lhes foi ensinado em casa. E segue o rio seu curso desviado.
Mesmo em nossas casas, nas nossas atividades cotidianas, no nosso sossego ou lazer somos anulados. Ou anulamos o outro. Se gosto de música, eu preciso ligar o som da minha casa ou apartamento no último volume a fim de obrigar o outro a ouvir aquilo que ele não quer. Somos obrigados a ter o teto de nossas casas abalados com o som, seja do vizinho o do carro que passa com som de trio elétrico. Se somos reservados, somos etiquetados de esnobes, se somos populares, de fofoqueiros. Precisamos de uma bola de cristal ao dirigirmos, pois o motorista da frente não sabe da existência da seta (aliás, ele a ignora), o motociclista circula pelo lado direito me forçando a dar uma preferência que, legalmente não existe. E se houver acidente, eu posso ser o culpado, não o motociclista. No ônibus, só falta agora carregador usbpara celulares. Ninguém mais conversa. O outro é, simplesmente ignorado pelos jogos ou músicas ou aplicativos. Temos disponíveis hoje TV por assinatura, Netflix, Youtube e congêneres exatamente para podermos anular os que estão ao nosso lado, ou ainda, sermos anulados a partir do conforto e tecnologia disponíveis.
E quem dera acabasse por aí. Há mais, muito mais que precisa ser dito. Entretanto, basta agora pensarmos no limite em que chegamos da anulação: reality shows. Vota-se (aqui eu não me incluo) para que um outro, quem nem sequer é conhecido até estar na TV, seja eliminado. Isso é o ato mais explícito de que a nova ordem se instaurou com raízes profundíssimas em nossa construção subjetiva e social. Big Brother, A Fazenda, The Voice, The X-Factor, Master Chef, todos apoiados na desculpa de elegerem o melhor, mascaram a verdade imposta subliminarmente: eliminem os que não lhe servem, eleja o que melhor se adequada a você. Com isso, o mundo se constrói a partir dos irreais. Os outros, eleitos por esse programas, não se tornaram “o outro” a partir de um eu particular (ou, nesse caso, de vários): são eles uma projeção do desejo de existir sozinho, pois no convívio eles não existem; existe apenas uma versão daquilo que se adequada ao desejo ou crença de que eu posso ser eu a partir de uma versão qualquer de um outro que se pareça comigo. É a existência pela semelhança, não pela diferença.
E se não tolerarmos os que nos são diferentes, estranhos a nós mesmos, a quem iremos respeitar? O óbvio: não iremos. E, assim, a Nova Ordem Mundial de Anulação do Outro vai se estruturando mais em mais em todos, esperando a chegada do tempo em que todos afirmarão que não conhecem nenhum outro, além daqueles criados por projeções instintivas de uma existência soberana.

Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa

Preparando aulas sobre literaturas africanas, deparei-me com o site: Lusofonia

Conforme a descrição do próprio site: 

LUSOFONIA é uma plataforma de apoio pedagógico ao estudo da língua portuguesa.

Aqui o lusófilo pode aceder a uma série de bancos de dados úteis para ensinar e aprender as nuanças linguísticas e a variedade cultural e literária da geografia do português.

Pareceu-me uma fonte interessante sobre as literaturas africanas, considerando o pouco acesso que ainda existe aqui no Brasil.

Nova Gramática do Português Brasileiro

Já tem um tempo essa entrevista, mas vale a pena ler e conhecer a obra. Um trechinho…

“ÉPOCA – Na prática, como ela deve ser usada?

Castilho – É para o estudo nos cursos de letras e também para o ensino médio. A novidade desse texto é que ele convida as pessoas a pensar. O estilo normal das gramáticas é como o de Moisés quando faz revelações ao povo. Quis fazer um texto mais argumentativo. Exponho dados, faço análises sobre eles e depois questiono o leitor: “Que tal analisar esse fato de outro jeito?”.”

Entrevista completa aqui.