Invisíveis

Em 2014 tive a oportunidade de viajar para participar de um curso fora do país. Eu devia ficar por 45 dias mas acabei retornando antes do tempo. Em duas semanas já estava de volta para esse Brasil velho e sem rumo. O curso, além de não me trazer nada de novo, incomodou-me bastante o comportamento dos meus “colegas” de turma que mais pareciam ter saído de um buraco escuro e visto luz pela primeira vez. Bem, como a reflexão não diz respeito a eles, desejo a todos muitas felicidades para todo o fim de suas vidas.

O lugar que fiquei foi Miami, nos “estates”. Primeira impressão: lugar de plástico. Explico. Quem já teve oportunidade de brincar com Lego sabe que tudo se encaixa parar formar alguma coisa. Pois foi assim que percebi o lugar. Segunda impressão: as pessoas não são muito simpáticas. Não sei se por perceberem que eu era brasileiro ou porque elas são assim mesmo. Acho que deve ser algo cultural e, portanto, não teço crítica alguma sobre isso. As pessoas são como elas são. Terceira impressão: no curso, os professores nos tratavam como incapazes de termos opiniões próprias. Não sei se pelo perfil do grupo, deslumbrados até com interruptores de lâmpadas, ou por ser assim mesmo o modus operandi da educação norte-americana. Enfim, essa foi a razão pela qual eu desisti do curso e voltei. Quarta e última impressão: os trabalhadores que não estão em posição de destaque, são invisíveis. Americanos, pelo que percebi e por isso não generalizo, aparentam fazer questão de “invisibilizar” os chamados auxiliares de serviços gerais, os atendentes de lanchonetes ou restaurantes, ou qualquer um outro que não exerça uma ocupação considerada digna, de acordo com o julgamento deles. Pior: os brasileiros também, como comentarei a seguir.

Lembro uma vez que fui ao sanitário e havia um senhor limpando o chão e lavando os banheiros. Como só havia ido lavar as mãos para depois ir almoçar, pedi licença ao senhor e desejei-lhe um bom dia. Nesses 5 minutos, outras pessoas também entraram no local e sequer pediram licença por estarem “sujando” a limpeza que o homem estava fazendo. Ao contrário, uma das pessoas ao sair do sanitário lavou as mãos e errou o papel no cesto, deixando-o cair lá mesmo e foi embora. Pensei que ele poderia ao menos ter dito ao senhor: “O senhor pode apanhar depois, por favor.” Mas não aconteceu.

Não enfatizo mais eventos na terra do Tio Sam porque logo retornei ao Brasil e comecei a observar se aquilo era algo das “américas” ou se aqui, já que brasileiro tem fama de caloroso e amável, isso também acontecia. E para minha não surpresa, considerando a minha absoluta falta de fé na humanidade, aqui é do mesmo jeito, se não pior.

Quantas vezes observei vendedores e vendedoras sendo tratadas sem educação, como se não estivessem lá ou, em estando, fosse uma obrigação paparicar os clientes. Inúmeras ocasiões os mesmos auxiliares de serviços gerais são ignorados por diretores, chefes de seção, alunos universitários, bancários, médicos e até mesmo alguns “adevogadozinhos”.

Pedreiros, faxineiras, vendedores, auxiliares de servições gerais, atendentes de farmácia, recepcionistas, etc etc etc, parecem não existir. E quando suspiram um pouco pela sua existência, os outros lembram-lhe que sua função exclusiva é servi-los.

Não me farei de rogado dizendo que apenas os outros agem assim. Assumo, com vergonha, que já agi assim e, atualmente, quando esqueço ou estou de mau-humor, ainda o faço. E ao pensar nisso, me envergonho mais ainda e passo a reforçar meu estado de alerta para evitar ao máximo repetir isso.

O que me deixa um tanto quanto chocado é saber que, em algum momento da história, talvez ainda lá pela Grécia ou Roma, ignorar os que fazem serviços considerados inferiores devem ser ignorados ou tratados com menos (ou nenhum) respeito. Não estamos mais na antiguidade, tivemos revoluções significativas e, inclusive, tivemos um momento histórico chamado de Iluminismo. Acho que a luz desse momento devia ser bem fraquinha, porque mesmo assim, ainda tratamos essas pessoas como Fabiano pensava de si próprio: um bicho.