Descrença

Algumas vezes é preciso acreditar. Em tempos como esses, parece que nem mesmo isso é possível. Recentemente, vi novamente um filme antigo: A excêntrica família de Antonia. Pelo título, não parece ser muita coisa. No entanto, esse é mais um clichê: as aparências enganam. Sem resumir o filme, limito-me apenas a dizer que a estória e suas nuances inaparentes são, por vezes, paradoxais. Enquanto em sua essência a estória celebra a vida, o amor, o acolhimento, a tolerância, o respeito ao próximo, as entrelinhas são repletas de humanidades (o lado negativo delas). O julgamento, as acusações, as chantagens, a relação amor e ódio que perpassa a todos, a alienação e, para mim o mais importante: a inevitável conclusão sobre a vida: ela é insuportável.

Um dos personagens do filme, amigo de longa data de Antonia que é a protagonista da estória, finda por dar cabo de sua vida. Para ele, ser é insuportável. Estar no mundo, também. E não raro são as manifestações desse tipo de conclusão, ainda que no nível ficcional (uso outro clichê: a arte é mimese). E isso vem funcionando bem até mesmo para ficções científicas. O que acontece com o clássico Matrix? Neo apenas deseja parar a guerra e dá sua vida por isso. Ele poderia encontrar outra forma. Tudo bem que à época do filme, intertextualidades e análise filosóficas pipocaram por todos os lados. Mais recente é o caso do filme Ela. Um sistema operacional que desenvolve-se a partir das interações com seus donos-usuários. A complexidade do filme é tamanha que o próprio sistema conclui que é melhor se apagar (excelente metáfora para o suicídio, ao menos eu achei).

Mas para que ninguém ache que venho pensando em me matar, esclareço: o rumo que a sociedade está tomando com sua ausência ao respeito com o outro, o crescente egoísmo e egocentrismo, o deboche, a falta de regulação nas ações humanas no tocante ao ser no mundo com outros me leva a pensar que o recluso do filme de Antonia e o sistema operacional do filme Ela chegaram à conclusão mais lógica possível: viver é impossível se existe a pretensão de pensar que isso é algo bom.

Perdoem-me os otimistas de plantão, mas o milagre da vida me soa hoje apenas como uma combinação de matemática com química e biologia, nada mais. Não existe milagre nas manifestações de vida que hoje presencio. Existe um resto de DNA animal impregnado em hominídeos. A humanidade atestou e cada vez mais forte atesta sua incompetência em existir. Não me excluo do que falo, mesmo porque se o fizesse toda essa reflexão seria um paradoxo, tal qual o filme de Antonia.

O Realismo, período literário confuso, que misturava a arte da escrita com as teorias científicas foi, para mim, um dos que melhor representou a sociedade. Machado de Assis foi um mestre da ironia, das observações acerca do caráter dos seus personagens. Eça de Queiroz, em sua A Relíquia tratou com maestria a hipocrisia interesseira e capitalista do seu protagonista (e de novo podem até mesmo mencionar que ele se arrependeu e blá blá blá). O fato é que ele foi e fez o que tinha de fazer segundo a visão particularíssima do autor. No O Cortiço, a sensualidade e o desregramento imperavam, além de trazer o belo cenário da exploração do outro.

Ora ( direis ) ouvir estrelas! Certo, mas não perdi o senso. Que não seja nem a sétima arte nem a literatura no que me baseio para refletir aqui. Senão vejamos: noticiários: morte, corrupção, crime organizado, economia falida globalmente, fome, violência urbana, violência sexual, assassinatos em série, traições, pedofilia, injustiças. Novelas: sexo, traição, violência, desonestidade, desestruturação familiar. Governo: corrupção, favorecimentos, omissões, troca de favores, mentiras, acusações. Igrejas: pagamentos pela salvação, acusações, conversões impossíveis, atitudes condizentes com as doutrinas mal interpretadas. Educação: esse eu me limito a dizer: uma piada.

E sei que virão os otimistas: olhe a natureza, viaje, relaxe, ouça uma música, mude seus hábitos, tenha paciência, cultive coisa boas no coração, releve, deixe de amargura. Uma palavra: não. Duas ou mais: não, recuso-me a continuar acreditando que ser vale a pena, que viver valha a pena. (Não irei me suicidar, não pensem nisso pois estão perdendo tempo). São conclusões, apenas.

Talvez mais do que isso. Um manifesto sobre a minha total descrença na possibilidade de haver satisfação na vida. Não nesses tempos, não nas condições atuais e futura dessa sociedade. Afinal, como acreditar em uma espécie que vai a lua e deixa outro morrerem de fome? Ou pensar que a cor da pele um dia deu direito a alguém de escravizar outros? (Hoje não é mais pela cor da pele, é pela força bruta) Ou entender como se põe relevância nas lutas pelas minorias? Por princípio ideológico meu, elas nem deveriam existir. Nem minorias, nem maiorias, apenas diferentes em um mesmo espaço e com os mesmos direitos e deveres para com todos os “conviventes”.

É simples: deixar de acreditar e somente esperar. Celebra a apatia, pois a “alegria, alegria” foi um impulso tropical como consequência dos mesmos erros ainda recorrentes: eu posso, eu mando, eu elimino se você é contra. Em resumo: eu não dou a mínima para você, o que me interessa sou eu. E esse discurso perpetuar-se-á indefinidamente.

Humoristicamente, mas com toda a solenidade afirmo: o Urtigão é que é feliz. Quem me dera poder ter uma ilha e provar que todo homem pode, sim, ser uma ilha.