Onde vivem os monstros

Em algum lugar, usualmente bem distante, bem escondido, habitam em nós monstros gigantescos. Não são assustadores até que os encaremos fixamente. Eles nos olham de volta e aquilo que deveria ser a nossa pergunta única, exclusiva, absoluta, torna-se – apenas isso – o silêncio. Aquilo que deveria deixá-los amedrontados porque ignorariam a resposta as nossas perguntas é a causa de nosso vexame, de nosso calar, de nosso medo. Diante de uma pergunta que não fizemos, simplesmente calamos.

É também nesse lugar ermo, quase inabitado que percebermos nossa responsabilidade. Nós os alimentamos. Nós os criamos, nós os educamos até que eles consigam se adequar às nossas exigências mais singulares. Há, todavia, um ponto, um trecho, uma parte desse processo em que nos permitimos sermos, por eles, devorados. Tantas vezes olhamos com compaixão paterna, querendo compreender a razão de tamanha feracidade, de gigantesco apetite, mas falhamos no primeiro gesto de aproximação. Eles nos devoram antes mesmo de compreendermos suas ações. As que os ensinamos.

A cada palavra calada na boca, a cada silêncio travado na garganta, a cada choro engolido são eles a nos devorar. E os educamos para isso. Nem mesmo sabemos se o seu habitat é tão mais irreal do que as traves impostas por esses filhos que vivem nas sombras. São nossos filhos, educados ou mal-educados: inevitáveis crias. Aprendemos a lidar com eles, com todas as limitações possíveis. As nossas.

Se nos aproximamos de súbito, nos assustamos. Desconhecida é a reação. Talvez bem violenta. De um só golpe os monstros que cultivamos nos encarceram e nos engolem. Deixamos de ser predadores e nos tornamos presas. E vivemos desse modo, com receio do que criamos. A criatura supera o criador não por possuir mais ou melhores qualidades. Apenas por ter compreendido o medo do criador diante da obra criada. Da criatura em si.

Se devagar chegamos diante deles, como querendo fazer as pazes após uma querela qualquer, o pavor é ainda maior por desconhecermos as reações. O que se revela e se desvela aos poucos pode assustar ainda mais do que o susto do ímpeto e da surpresa. Parece que a lentidão cria um suspense indesejável, um mal-estar, uma náusea. É como uma morte lenta que sabemos irá acontecer. Uma ruminância em direção àquilo do qual não é possível escapar. E cedemos. Deixamo-nos ser presas fáceis.

E, ainda, se desejamos esperar, observar, analisar, prever o possível entreolhar entre criador e criatura, falhamos também. São olhos que não se enxergam mais. Há nesse mesmo lugar ermo tantas e diversificadas direções que não existe mais espaço para entreolhares, para uma percepção das intenções, para um reconhecimento das reações. Mútuas ou singulares. Nós criamos e educamos os nossos monstros.

É nesse lugar bem escondido que reconhecemos aquilo que nos tornamos diante do que não escolhemos. É nessa comunidade habitada por nossos filhos alimentados, criados, educados que nos tornamos estátuas impassíveis diante do medo ensinado. Daquele que ensinamos. E nem mesmo sabemos o por quê de o termos feito. O fizemos.

Não há escape senão perceber e aceitar que parimos os monstros que nos assustam e nos devoram. Como também não há escape em admitir que, embora parimos sozinhos, nunca concebemos em isolado. Os nossos monstros são nossos filhos. Eles têm pai e mãe. Eles têm pais. São frutos gerados a partir de nosso encontro com o outro, essa inescapável figura constituidora de nós mesmos.

Até mesmo eles – os monstros – nos são inescapáveis (indesculpáveis?) representações de todas as formas sem forma que se moldam larga e lentamente para nos formarem quem somos. Não são nossos reflexos, são uma ínfima e mínima parte refratada do que poderíamos ou desejaríamos nos tornar. E até mesmo o fazemos. Incorporamos um modo assustador de concebermos o nosso ser em vida. Monstruosa? Sim. É a nossa.

De fato, existe um lugar bem escondido onde habitam os monstros que não nos assustam até que os olhemos fixamente. Vê-los, reconhecê-los, ser por eles assustados é somente isso: reconhecer aquilo que nos tornamos diante do que não escolhemos. Monstruoso? Inevitavelmente.

Retoques

Toda dor sempre finda. Todo amor sempre começa. Tudo é sempre de novo. Nada há que não aconteça repetidamente. Mudam-se as cores, trocam-se os tecidos, renovam-se os modelos. Há sempre o mesmo insistindo em  ser diferente. Ou, há sempre o diferente apoiado no mesmo.

Funcionamos a partir de modelos já concebidos. É o que podemos fazer, é aquilo que conseguimos fazer. Nem mesmo há escapatória a isso, pois se houvesse, seria, também, repetição. Uma fuga repetida realizada por um outro caminho. Diferente? Sempre. Novo? Jamais.

Os amores são doces, são coloridos, são iluminados, são intensos, são para sempre. E um dia eles acabam e a dor inicia. Ela é cinza, amarga, não reluz mas possui a mesma intensidade do sol. Queima algumas vezes. Possuem um prazo de validade indeterminado até o instante em que a aniquilamos. E de novo ela finda, e de novo o amor começa, e de novo é sempre o mesmo.

Há retoques aqui ou ali. Inescapáveis. O existir é mesmo como uma sinfonia mal-composta. É monótono, é pesado, é sombrio e solitário. É o existir; e não pode ser diferente porque é o mesmo. Um mesmo que não é igual para cada um: existem os retoques.

Havendo ou não uma pincelada mais intensa, com mais cor, com mais profundidade, sempre existe um retoque. São eles que tornam o mesmo diferente. São os retoques que caracterizam o próximo movimento da monótona sinfonia do existir. E que nunca se pense monotonia como sinônimo de tristeza ou pesar. Um tom: é isso, apenas.

O tom do mesmo tentando ser diferente, o tom do diferente que já fora um dia o mesmo, mas nunca igual. Simplesmente porque as dores findam, os amores começam e tudo é sempre de novo.

É nossa inalienável condição de existência a busca pelo equilíbrio nesse abstrato pêndulo que – aos poucos – indica os passos prováveis de serem seguidos. Os caminhos só importarão a posteriori. Caminha-se, primeiro. Verifica-se o caminho durante o percurso, porque só então é possível o retorno ou o desvio. Só então é possível o óbvio: fazer o mesmo, o diferente. Aplicando retoques no tudo que é sempre de novo.

Contrários

Porque ser é apenas o contrário de tudo. Porque a vida não é o óbvio das coisas. Porque a morte é o motivo do abandono. Porque as coisas se resumem ao contraditório. Porque o espelho não reflete o que pensamos. Porque calamos é a razão de um silêncio maior.

Somos infinitamente moldados por razões fugidias, partes díspares de uma tentativa crescente em busca de um sentido – maior ou menor – qualquer que seja. Os sentidos são os contrários. Do que pensamos, do que julgamos, do que aprendemos, do que sangramos, do que desejamos. Os sentidos lógicos constituintes de nossa subjetividade apontam para o infinito momento de percepção dos nossos equívocos. Paradoxal que seja, são momentos infinitos. Não se apagam, não se esvaem em uma névoa qualquer. Buscamos o sentido no óbvio inexistente. E deles construímos a aparente segurança das escolhas feitas. Ela, também, nos molda. Não há segurança alguma, somente ilusão. De sermos. Porque ser é apenas o contrário de tudo.

Não ser é a própria vida. Ela inexiste no óbvio, no que salta aos olhos dos sentidos. É sempre uma percepção errônea. Há sempre uma percepção errônea. Se há alegrias, é porque precedeu-se a tristeza. Se há alento, é em razão da existência da solidão. Se há abandono, é devido a ausência dos que ora se fizerem presente. Se há choro (e, talvez até, ranger de dentes), é porque houve já um sorriso. Tudo é sempre ao avesso. E, em havendo prazer, este é precedido de uma dor tão aguda e voraz que consome até a penúltima gota de vislumbre de horas mais ricas do provir. Porque a vida não é o óbvio das coisas.

Mesmo a morte, tão sombria, tão assustadora, tão  causadora de silêncios é errônea. Morte maior não é quando se perde o óbvio. O abandono é a consequência da morte. Deixar de ser, deixar de estar, deixar, apenas. Poucos segundos bastam, são suficientes para senti-la. E sentimos, no abandono. Abandonar é o motivo maior da morte. Recusas, afastamentos, negações, despropósitos, argumentos inócuos, ausências… nomeiem! São abandonos. É a morte revelando, sem obviedade, a sua finalidade. Abandonamos quando desejamos matar e também morrer. Abandonamos em cada gesto carregado da intencionalidade de morte. Porque a morte é o motivo do abandono.

Não é real conceber o contrário. Não é o abandono que causa a morte, tampouco a presença que acende a vida. As ausências são formas de viver e apenas a morte pode ocasionar o abandono. Uma ausência não é capaz de causar óbito. Matamos porque desejamos que o outro seja abandonado por nós. O abandono que impomos ao outro é consequência de sua morte. Nunca sua causa. Vezes lento, vezes longo, demorado e penoso. O tempo é sem medida para isso. Porque as coisas se resumem ao contraditório.

E, talvez parecendo ilógico, seja essa mesma a intenção. Uma vida que não é no óbvio, um ser que deixa de existir pela ausência de sentidos, um abandono que finda por causa da morte… Os reflexos que vemos nunca podem ser verdadeiros. Sempre olhamos o que conseguimos, nunca o necessário. Nossos olhos se detêm na fachada possível de enxergar. Os limites ultrapassáveis são – indubitavelmente – intransponíveis.  Porque o espelho não reflete o que pensamos.

Porque calamos é a razão de um silêncio maior. E quando o fazemos, não é por razões alheias à nossa razão. Sabemos o que calamos. Calamos pelo não reconhecimento do óbvio que supostamente nos sustentaria. Silenciamos por reconhecer que o abandono não é consequência da morte, mas sua causa. Travamos as palavras na garganta, afogamo-las no pensamento por ter a certeza de que a vida só é possível através da vivência dos paradoxos. Porque, afinal, tudo é somente parte do que sequer saberemos sobre nós.

Inércia: desculpável

Não é o movimento que nos impulsiona a seguir adiante. É o seu oposto. O mais pleno e sincero travamento diante do que nos é impossível modificar é o que nos move. Estar parado, estar quieto, estar imóvel, ser quase imutável por uns segundos é a alternativa lógica capaz de indicar o exato instante em que mudanças precisam haver. Mudanças nem tão significativas, apenas suficientes para que saíamos da inércia, do lugar de sempre e nos movimentemos em direção ao que não se sabe existir depois da esquina.

Ser inerte é o que explica as possibilidades de criação do diferente, não necessariamente novo. Ou estar inerte é que o explique… Ainda não me foi revelada a diferença essencial entre o ser e o estar diante do mundo. Sei mesmo se um dia o será? Acredito que “sertar” devesse ser um verbo. Ele definiria os movimentos pendulares nesta troca de papeis entre o ser e o estar. Afinal, somos-estamos sempre alguma coisa. De desconhecida.
Ser inerte, estar quieto, estar travado, ser imóvel… São estados e ações que permeiam nosso lugar de existir no mundo, na vida e mesmo no que ainda há de vir – e pode ser mesmo a morte. E como não estar na morte? Como não sê-la? Simbolicamente, a morte caminha conosco, bem próximo, como se fosse um parente próximo ou mesmo uma melhor amiga. Não pensar nela, não falar sobre ela é perder tempo, um que já não temos. Ela é tão inevitável – a simbólica – quanto nossa inércia ou nosso desejo de movimento.
Agrada-me pensar na morte junto com a palavra tênue. É delicada, tem pouca espessura mas ainda assim é tão grandiosamente avassaladora que em conjunto com tal vocábulo estabelece um rico paradoxo. Há quem sequer perceba isso. Mas a nossa incapacidade de agirmos em certas circunstâncias é uma morte simbólica. Quando silenciamos, decretamos o nosso fim diante do outro que nos fala. Quando consentimos por não saber o que fazer, como agir, de que modo pensar, esse é o nosso suicídio. E nada há de absurdo ou anormal nisso. Somos nosso algozes, nossos juízes e executores. Ninguém há de desempenhar tal papel a não ser nós próprios. Se há mal nisso? Neurose ou paranoia? Nenhuma. Somos a medida exata daquilo que podemos ser – ou estar – nesses instantes.
Por isso, crer que o que nos impulsiona a seguir adiante não é o movimento das ações, mas uma resposta à nossa inércia e travamento diante de nossa própria morte simbólica, diante de nosso suicídio pessoal, particular e necessário é um modo relativamente saudável de compreendermos o porquê de não reagirmos, de não respondermos quando não conseguimos. Claro, há sempre os contraditórios. Há sempre os defensores do “avante!”, “não se deixe abater”, “reaja” e similares. Porém, quantas vezes nem conseguimos alcançar a primeira sílaba de tais palavras encorajadoras? Muitas. E é apenas isso. Porque somos feitos de nós mesmos, com pitadas agridoces de outros… Nossa mistura é heterogênea e fraca. Tentamos (e como o fazemos…) solidificar essa matéria tão insípida de que somos feitos. Não há defeitos, que se esclareça: há apenas humanidades. E travamos muitas vezes. E morremos muitas vezes. E outras renascemos, pois não há nenhuma desculpa para que isso não ocorra.

Ponto de equilíbrio

O que nos une como pessoas? As vezes as diferenças são formas tão mais intensas de nos unirmos, de estarmos juntos, do que aquilo que consideramos como semelhanças cruciais para uma boa convivência. Uma convivência múltipla, tão variada quanto as diferenças que nos unem. Estamos juntos porque nos apaixonamos, porque trabalhamos no mesmo lugar, porque participamos de uma mesma congregação religiosa, porque gostamos da mesma música, porque partilhamos, em suma, dos mesmos valores. No entanto, se nos olharmos atentamente uns aos outros, iremos enxergar que são as diferenças que nos mantém todos juntos.

A nossa capacidade de tolerar as pequenas falhas dos outros nos permite encontrar nesse outro, ou melhor, em suas falhas, algo que, na verdade, gostaríamos de ter e não temos. Um gosto absurdo por camisas floridas, a preferência por filmes estranhos, a capacidade de nos emocionarmos diante de uma comédia romântica hollywodiana, a inclinação por tomar sorvete comendo salgadinhos de queijo, o desejo de nos tornarmos tietes, ao menos por um instante, diante de um ídolo internacional ou mesmo a capacidade de ignorar uma celebridade quando ela está na mesa ao lado da nossa em um restaurante chiquerrímo não pedindo autógrafo ou cumprimentando-a. São nossos traços de personalidade. São os traços de personalidade do outro. São as diferenças que percebemos nos outros e as toleramos porque gostaríamos de ser assim, ao menos em parte.

Não nos enganemos pensando que o outro não sente nada disso e que esse sentimento é uma inveja doentia que deve ser combatida. O outro nos vê de modo semelhante. Ele deseja ter aquilo que temos e por essa razão esse outro nos tolera. É isso que nos une. É isso que nos faz sermos humanos. Não se trata apenas de enxergar aquilo que o outro tem e não temos. Trata-se de perceber no outro aquilo que não conseguimos ser e, por essa razão, nos aproximamos dele. Chegamos perto, fazemos desse outro nosso irmão de coração, nosso melhor amigo (ou amiga), nosso amor platônico, nosso companheiro de farras e festas, nossa paixão desmedida. É uma necessidade incrível essa que temos de elevar esse outro à condição de complemento essencial à nossa situação humana.

Nunca algo foi tão verdadeiro quanto a Lei da Física: os opostos se atraem. Hoje, essa Lei caiu no senso comum. É a justificativa para relacionamentos amorosos que, boa parte do tempo, não dão certo. Mas a verdade é que nos atraímos pelo oposto, pelo diferente porque necessitamos dessa diferença para a constituição do nosso ser. Precisamos incorporar aquilo que não nos é igual como forma de sobrevivermos no mundo, na vida social. Precisamos achar engraçado quando, em um bar, tomando um vinho ou uma cerveja, notamos uma mesa próxima na qual todos falam alto, riem, se abraçam, tiram fotos o tempo inteiro. Engraçado, sim. É a nossa forma civilizada de dizermos constrangedor. Aquele comportamento nos constrange, algumas vezes, porque não conseguimos fazer isso. É claro, esse é apenas um exemplo. Mas e todas as situações em que percebemos que nosso ser mais próximo não entendeu o enredo de um livro óbvio, ou não reconheceu a beleza de um jazz, ou ficou estático diante de um seriado de comédia americana, não achando a menor graça naqueles personagens surreais. Enquanto nos deliciamos por experimentarmos todas essas coisas, o outro mostrou-se impassível, indiferente. Acho que essa é a beleza: apesar de sabermos disso, por que não tivemos alguém como nós ao nosso lado partilhando o que nos delicia? Simplesmente porque não nos queremos duas vezes. Queremos o contraponto de nós mesmos para sabermos que somos únicos, especiais, exclusivos.

Ter alguém igual a nós mesmos ao nosso lado, me parece, é deixar transparecer, ainda que timidamente, que precisamos do outro para sabermos quem somos. Esse igual nos diz que não gostamos disso ou daquilo. Esse igual nos mostra que somos falhos em dizer a verdade, em negar um favor, em não precisar dar satisfações. E esse mostrar não serve para mudarmos, até porque, será que precisamos? Esse mostrar serve para nos desculparmos a nós mesmos dizendo, interiormente, que se o outro é assim, não devemos ou não precisamos mudar em nada. Só que no fim, essa relação entre iguais nos afunda em nosso “ser-eu-mesmo” para sempre, sem tolerância, sem desculpas, sem vontades de experimentar o diferente, não necessariamente a novidade.

Havemos de perceber, todavia, que há limites para tudo, porque mesmo necessitando do outro para nos complementar, temos também nossas reservas. Os nossos limites em relação à diferença do outro são tão frágeis que, insistentemente, evitamos ser invadidos por essa mesma diferença. Esse limite é o exato ponto em que nossa subjetividade se mostra. É onde nos reconhecemos como pessoas que são as diferenças para o outro. Sabemos disso também. Sabemos que é o nosso jeito contrário de ser que atrai o outro. E no momento em que deixamos o outro nos invadir com suas diferenças, sentimos que deixamos de ser nós mesmos e nos perdemos. Ao nos perdermos, perdemos também o outro, pois ele perceberá que já não é com um ser diferente que ele se relaciona, mas como ele mesmo.

Eu não sei se há alguém que partilhe dessas reflexões. Se houver, prefiro saber e estabelecer as diferenças antes de conhecer suas semelhanças comigo mesmo. Também não sei se há alguma espécie de verdade aqui. Não é pretensão minha. Prefiro pensar que o que nos atrai no outro são suas diferenças em relação a nós mesmos. Prefiro pensar que, mesmo através dessas diferenças, temos também limites. O ponto de equilíbrio entre o igual e o diferente deve ser encontrado por aqueles que se relacionam, e mais nada.

Somos ficção

Há que se considerar uma série de elementos constitutivos da condição humana. A fragilidade das relações, a emoção contida ou desmedida diante do não-sabido, a volatilidade dos sentimentos, a agressividade latente frente as frustrações, a delicadeza dos “adeuses”, a mesmice do cotidiano inevitável, o irresoluto silêncio que encara a impotência no agir, a falsa crença de que somos tudo e ainda podemos ser mais. Ao infinito tais elementos poderiam ser estender, todavia, findam pelo simples fato de serem constitutivos do ser humano. E, como tais, finitos somos.
Nada há que seja capaz de nos revelarmos como reais. Todo entorno é pura idealização do que poderia ser. É, realmente, uma condição criada pelo e para o imaginário necessário à sobrevivência como espécie. Tão frágeis somos que nossas interações, por mais que creiamos nelas, são frutos irrevogáveis do que imaginamos ser bom para nós. Não há bondade real, apenas ideal e, ironicamente, elas, as relações, tornam-se cínicas. Trata-se de um cinismo não jocoso, mas imprescindível. Somos o que conseguimos ser em cada instante de interação verbal e o outro, parte constitutiva de nossa humanidade, também dessa forma age. De simples saudações (um “bom-dia!” ou um “como vai?”) a complexas discussões filosóficas acerca da economia global são cenas teatrais que permeiam o ilusório dia a dia. E nesse quase palco, nos tornamos atores, diretores, cenógrafos, produtores e público. Tudo justificado tão somente pela nossa incapacidade de sermos quem de fato somos e, também, estarmos (conseguirmos, talvez?) inseridos em qualquer mundo social que seja. Conseguimos mais atuar do que efetivamente ser.
Nessa atuação contínua e constante, findamos por sublimar – para usar um termo freudiano – nossos mais intensos, secretos e obscuros desejos. Possivelmente ocultamos aqueles que nos doem mais: o desejo de saber. Desejamos saber a fofoca sobre o vizinho ou o colega de trabalho, desejamos conhecer aquilo que ainda não somos capazes de executar, ansiamos pelo dia da revelação em que todos os nossos anseios passem a ser justificados e racionalizados. Em uma palavra: compreendidos. Precisamos compreender pelo bem de nossa própria e particular (ainda que ilusória) sanidade. Contudo, nos contemos. E sempre o fazemos já que nosso agir nunca pode ser real, mas cínico – e até mesmo canalha algumas vezes. Nosso agir real, visto que inexistente, somente nos possibilita à contenção do desejo de saber. E, assim, contemos toda espécie de emoção possível: o choro, o riso, a raiva, a decepção, o desespero, a solidão, o abandono, a celebração… enfim, tudo o que for possível é sempre contido. Quase como uma consequência, contemos também nossa humanidade (claro, acreditando ainda que ela exista).
Se negamos um beijo, se cedemos ao mesmo beijo, se agredimos verbalmente, se ocultamos as lágrimas, se confessamos a paixão, se admitimos o ódio, se permitimos o silêncio, se sentimos… nada disso pode ser considerado como nosso real. Ou como alguma instância real de algo. São gestos, muito mais que ações reais. Gestos possíveis em instantes possíveis. Em outros instantes, outros gestos surgiriam. Nos confessamos amantes e nos revelamos distantes. Acreditamos na distância necessária ao mesmo tempo em que a negamos porque nossa incapacidade em lidar com as ausências exige a presença do ser gostado. Esse ser gostado, esse outro essencial, pode ser, sim, amado, esquecido, ignorado, cuidado, mas também pode ser, apenas, um outro indiferente. É o nosso ato teatral o responsável pela fala que poderá ser ocupada pelo outro. E, se não o quisermos, o outro existirá na medida em que for cabível a participação de um coadjuvante.
E, há ainda, que se considerar: quando não estamos imersos em um monólogo, os mesmos atos que praticamos servem – e em boa parte assim o são – como atos válidos do outro. Esse cínico coadjuvante se torna tão protagonista em nossas interações como nós próprios em relação a ele. Eis, então, apresentada a raiva em mais cinco atos. Ou dez, ou quantos mais forem possíveis. Frustrados, porque não é o real, mas o ideal possível e quase suportável, contemos, novamente, as emoções. Resta a raiva latente, pulsante, cortante e gritante a rasgar a frágil condição de humanidade que teimamos assumir como nossa. Ela, a raiva, fica lá, guardada, nunca exposta. Mostra-se apenas quando possível. Afinal, todo ato nosso não é outra coisa senão possível.
Nem percebemos chegar a hora dos “adeuses”. Dos longos, intermináveis, dolorosos e – inevitavelmente – possíveis “adeuses”. Talvez aí se perceba, do modo bastante rápido, uma certa delicadeza. Encararmo-nos como protagonistas e coadjuvantes exige mais um esforço em busca do adeus ideal. Entretanto, um adeus ideal não é possível. Por isso a delicadeza. Acredito que o mais próximo que nossa condição de humanidade nos permite chegar do real é no momento de um adeus. Por que despedir-se? Por que excluir o outro (e também ser cortado pelo outro) de outras interações? Por que não sermos mais capazes de manter o outro (ainda essencial? não creio…) junto de nós durante a execução de nossos atos? Porque não é mais possível, apenas isso. Despedir-se: ato delicado. Também ideal como os demais atos que praticamos.
No cotidiano é que sentimos essa idealização dos possíveis. Não queremos tantas coisas na mesma medida em que desejamos as mesmas e tantas outras. De um café amargo e requentado que tomamos (porque não há outro) até os mais excêntricos sonhos de consumo: titubeamos entre o querer e o negar esse mesmo querer. Porque nossos atos são cínicos. Se não queremos o café, porque insistimos em bebê-lo? Se ansiamos por infrutíferas interações, porque permanecemos negando o seu insucesso? Simples: cínicos e irreais são nossos atos possíveis e ideais. Precisamos deles, porque eles são os nossos possíveis. Entre um ato e outro, entre uma fala e outra, entre uma interação e outra existe o silêncio que, irresolutos, aceitamos. O vazio do que não foi dito preenche nossa condição de humanidade. Seguimos agindo acreditando que poderíamos ser mais, ter mais, poder mais, saber mais, sentir mais. Mais, sempre mais de um menos subtraído de nós mesmos: a impossibilidade de sermos reais diminui nossa capacidade de nos constituirmos através da pura e plena capacidade de sermos humanos em toda magnitude possível. E é somente isso: possível.

Encenação ou Retratos

Parafraseando Shakespeare, a banda canadense Rush escreveu: All the world’s indeed a stage / And we are merely players / Performers and portrayers. E penso nisso. Esse palco beirando o ridículo, esse palco criando absurdos, esse palco que se mantém riscado, rasgado, arranhado, pisoteado, camuflado, usado. Quase sinto pena dele. Mas essa vem, vez ou outra. Nesse lugar que serve para provocar riso, arrancar lágrimas, prender a atenção é apenas um lugar. Quem, de fato, realiza as ações são aqueles que performam e que retratam.

É um grande absurdo. É um grande ridículo. As pompas e as circunstâncias, os rituais que, na falta de um adjetivo melhor, os qualifico como “adequados” são seguidos detalhadamente para atribuir à peça (melhor seria dizer espetáculo) o seu grandioso tom. Novamente: do ridículo e do absurdo. Poderia dizer patético, até. E talvez esse seja mais adequado do que a própria palavra em si já dita. Elogios (ou elegias?), promessas vazias, declarações automáticas e automatizadas, agrados sem sentido – um presente chamado de lembrança – agregam-se, como se fizessem parte de pequenos atos que devessem conter toda a encenação. Há um clímax, um ápice, um charme brega nesse agir no mundo.

Procuro convencer-me de haver mistérios ainda não descobertos por mim e por essa razão não consigo compreender, em sua totalidade, a delicadeza do grande espetáculo. Insisto em acreditar, de alguma forma, que a responsabilidade pelo não entendimento é minha, exclusivamente. Busco a parcimônia, tento ser parcimonioso. Mas eis que ausente e isento, o que se põe diante de mim é apenas a performance e a refração daquilo que em sua essência poderia ser e jamais será. Culpa dos atores? Ou apenas responsabilidade compartilhada com quem dirige o espetáculo? Irrelevante.

Os atos são ridículos e absurdos. Possivelmente até mesmo falhos. Indesculpável! Não existe álibi para isenção. Ser no mundo é também estar nele para formá-lo. Construir o que se quer é nossa função. (Mas há que custo, José?).

Retratamos, apenas. Imperfeitamente. Tudo o que nos for capaz de revelar-se como uma fotografia colorida e desfocada, o fazemos. E, acreditem, nos gloriamos com isso. Achamos que é sempre nosso melhor. Não existe melhor. Nem tampouco pior. Apenas existe. Como as vãs esperanças. Existem para nos alimentar. São senhoras cruéis a nos prometer guloseimas que, sabemos, nunca iremos provar. É uma engorda falsa. Um saborear o desejo, somente.

Quem sabe seja por isso mesmo que as performances e os retratos imperfeitos ainda continuem a existir. Uma vã esperança de aplausos, de reconhecimento, de glória, de finalização, de gozo e de sucesso. Em vão, vãos. O palco é um lugar. Só isso. Os atores são os mesmos que performam e retratam. Todo resto é delírio inconstante de uma necessidade de certezas certamente incertas. E nos consumimos com os aplausos, com as luzes, com a ovação do público.

Eles, depois, irão embora. Os que performam e retratam, revisam o espetáculo para o dia seguinte. Mínimos detalhes, ínfimos ajustes: sempre precisos. Nunca necessários. Saciados pelas mãos agitadas, aquelas batendo com força para exaltar o que viram, recolhem-se em um semi-algo.

Verdade: “All the world’s indeed a stage / And we are merely players / Performers and portrayers.”

Interdiscursos

Ando-me às voltas com um conceito particularmente caro à Análise do Discurso: o Interdiscurso. Quem de fato tiver interesse acadêmico, não faltam artigos, teses, ensaios, livros e dissertações sobre o tema, seja na grande rede ou nas livrarias. Minhas reflexões ficarão no nível da quase obviedade para a maioria já versada sabe sobre o assunto. E nem mesmo é pretensão minha ir além disso.

Tudo já foi dito. Nada do que dissemos é nosso, nossa propriedade. Sequer temos a capacidade de criar algo com as palavras. Quem sabe um arranjo aqui, ou acolá e – abracadabra! – iludimo-nos acreditando na nossa (pseudo)inédita criação, artística ou não. E não nos enganemos: de um banal “bom dia” ao mais rebuscado “agradecemos a vossas senhorias a ilustre presença nesse simplório recital poético”. Tudo, tudo já foi dito.

Não podemos sequer gozar da prerrogativa do ineditismo. Nossas reclamações, nosso furor contra a injustiça, nosso posicionamento diante do que cremos ser possível mudar, nosso instinto de sobrevivência, nossa eterna busca por um algo melhor, nosso deleite em tentarmos agradar um outro qualquer… Tudo, simplesmente, já foi dito.

Nesse vão do já dito, que é um vazio de significações porque essas já se perderam ou se diluíram de tanto serem usadas, acabamos sempre os mesmos. Quer dizer, os mesmos porque é através do dito, da palavra proferida que nos construímos. Findamos, por assim dizer, por não sermos originais. Não há nada de novo em nós. Nosso dizer – e que se tome por discurso isso – é tão ferozmente vazio que só os ruídos de uma vírgula ou de reticências são capazes de permitir que se crie um algo novo. Interessante, pois nas pausas e nos silêncios é que – considero agora – surgem os mais rebuscados significados. Aqueles que podem mesmo ser tidos como a novidade. (Creio ser isso também uma ilusão).

O novo não é o dito, mas o silêncio. O calar por cansaço de insistir em desvendar o que já não se pode mais. Os segredos foram revelados, as mentiras foram descobertas, os ocultos não mais pairam na escuridão: tudo é às claras. Aliás, tudo é já dito. Não se busque mais o desbravamento: o óbvio já existe por si só. E não há além dele.

Tome-se uma carta de despedida (nos tempos de Internet, assuma-se o e-mail como gênero transmutado). O que ela contém de novo? São formas parafraseadas de dizermos: adeus. Os motivos variam entre o desespero de não suportar mais as angústias de tanto vividas e o libertar-se de dores tão vívidas experimentadas. Às vezes, um ou outro pedido de desculpas e, de culpas, partilham-se as partidas e as separações. Tudo já foi dito. No medievo, possivelmente, menestréis e senhoras acrescentavam poucas palavras dentro de um escopo de acesso à cultura limitada. Hoje, expandem-se os sentimentos com, quem sabe, emoticons.

Ou ainda, Pessoa já falava de cartas de amor e disse delas: são ridículas. E o são, sim. Ridículas, patéticas, monótonas e… não inéditas. “amo você”, “você é tudo para mim”, “quero expressar todo meu sentimento por ti”. Já dito. Não são ridículas pelo sentimento. Elas são por já terem sido escritas, ou melhor, ditas. Longe de mim querer discorrer sobre enunciado e enunciação. Já disse (Ah! o óbvio…): estou beirando o nível da quase obviedade e redundância.

Por que rimos de piadas? Simples: nos fazem rir. E só nos fazem porque um dia, qualquer domingo ou terça-feira, já, de algum modo, vivemos a situação. Ou a presenciamos. Não é o inusitado da piada, a surpresa, a distorção do óbvio: é aquilo que já foi dito.

Já ouvi muito: “não me sinto preparada(o) para isso”, “não estou confortável com essa situação”, “não quero falar sobre isso”, “não é nada”, “vamos mudar de assunto…” O que todas as sentenças me indicam resume-se a uma coisa simples. Isso é o que podemos dizer: já passei por isso, não quero passar novamente. É o mundo das experiências entrando em conflito profundo e inegável com o mundo da razão. É o dito. O que já foi dito. (Caberiam aqui os esquecimentos de Pêcheux?).

E, se escrevo agora, não é para ser novo. Mesmo porque isso seria uma contradição. Simplesmente, é um ensaio para afirmar com minhas palavras o que tantos outros já disseram. Há um propósito? Nenhum. É um ensaio. Não há mistério nas palavras, há somente a recuperação de ditos esquecidos. Neles é que se cria o sentido (ou ao menos a sensação?) do novo. E seguimos, crendo piamente que dizer é o que nos liberta pelo fato de ser novo. Não. Dizer não liberta. Ouvir o já dito indica caminhos. Iremos percorrê-los sempre? Não tenho resposta, afinal, cada um parafraseia, diz o já dito conforme suas conveniências.

Nada melhor do que um vinho, após confirmar o óbvio: tudo já foi dito. In vino veritas.Até que finde o porre!

(E, não. Esse texto não está terminado.)

Estamos lendo pouco Dostoiévski

Há pouco tempo, li em uma de nossas revistas brasileiras de circulação semanal, uma caixa de texto com o mesmo título desse que ora escrevo. De antemão, empresto-me um pouco das considerações da autora responsável por essa observação sobre a leitura nos dias atuais para desenvolver um pouco algumas outras reflexões sobre os comportamentos sociais contemporâneos advindos das leituras situadas nessa mesma época, ou mesmo da falta de outras leituras.

Como profissional da área de Letras, nem mesmo discuto a importância do ato de ler. Isso deve ser óbvio. Algo já incorporado aos profissionais recém ou já há muito formados. Tento argumentar, e isso, sim, considero essencial, de um ponto de vista pessoal que, de certa forma foi construído a partir de um lugar que ocupei como estudante de Letras e, hoje, ocupo como profissional da área.

Tive contato com Dostoiévski na adolescência. Não fui e não sou um profundo conhecedor de sua obra, ao menos por enquanto, acredito. O primeiro trabalho que li do autor russo foi “Noites Brancas”. Segundo resenhas sobre a obra, trata-se de um conto (ou uma novela, ainda não posso precisar qual o mais adequado) sobre dois personagens que se encontram em uma ponte em São Petersburgo. Não reli a obra. Falo de uma perspectiva nostálgica, muito mais do que um lugar recente de lembranças sobre detalhes da obra. Recordo que me impressionou bastante o desenrolar da estória por me criar expectativas acerca de um possível final feliz. Mas, enganei-me. Não foi isso que aconteceu. Toda a expectativa criada sobre esse possível final feliz foi destruída. A jovem deixa o seu interlocutor e vai ao encontro de seu amor, personagem que só aparece de fato no final, que havia prometido voltar quando pudesse se casar com ela.

Por ocasião, pensei: “Que tipo de pessoa escreve uma estória sobre pessoas que, aparentemente, irão viver um final feliz juntas e, ao final, uma delas – apenas – encontra a felicidade?”. Coisas que qualquer um com poucos anos de vida pensaria. A felicidade não é pesada com a mesma medida para todos. E deixei Dostoiévski para lá. Havia muita coisa mais importante do que apenas um autor que me pudesse fazer entender a vida pela ótica da ficção.

O fato é que há três ou quatro anos atrás, deparei-me com o romance “Crime e Castigo” disponível em uma banca de revista. E logo decidi adquiri-lo. Já havia me formado em Letras e optado por ter algumas obras em meu acervo para lê-las quando a maturidade me permitisse. Ruminei o livro por alguns meses. Lembro de tê-lo começado ao menos três vezes e o abandonado. Na quarta vez, que não lembro exatamente quando foi, decidi iniciar e terminar. Confesso, a leitura demorou mais do que havia me proposto a fazê-la. Mas terminei o romance.

Inquieto, não pude deixar de pensar como era possível tanta culpa, tanto remorso, tanta miséria, tanta resignação, tanta baixeza de caráter, inúmeros gestos de submissão, respeito, preocupação… nas páginas de uma ficção. Havia tanta dor nos personagens que eles pareciam vivos, pessoas com as quais um dia cruzamos e julgamos, por apresentarem comportamentos dessa ou daquela maneira.

Assassinato é o que move a estória. Pobreza é um dos fios que compõem o cenário. Aliás, miséria descreve bem melhor todo o espaço em que se desenrola a trama. Não somente a miséria do espaço físico, mas a degradação moral dos personagens. Uma gente que, por falta de opção, por destino, por predestinação estava condenada à submissão dos instintos. No entanto, esses mesmos instintos foram superados por ações da consciência dos próprios personagens.

O que destaco é a construção dos personagens dostoievskianos e sua semelhança com pessoas reais. E mais, a semelhança de atitudes desses personagens com atitudes muitas vezes vistas e ouvidas por mim. Enxergar o outro a partir de um ponto de vista que não o de nossa própria constituição como sujeitos me foi determinante para poder entender um pouco sobre a pobreza e, principalmente, a fragilidade humanas.

Quantos sujeitos, perto ou distantes de nós, não sentem culpa pelo mal causado ao outro? Quantos sujeitos superficialmente conhecemos que não estão imersos em uma esperança de redenção? Quantos sujeitos não conseguem agir no mundo porque lhes faltam a determinação e certeza de seus “pecados lhes serão perdoados”? Quantos outros não aguardam o dia de se confessarem publicamente para poderem acolher os benefícios da benevolência daqueles que os amam? Quantos personagens que são idênticos aos caracteres da vida real…

Atualmente estou imerso em “Os irmãos Karamázov”, obra prima da tragédia familiar. Não posso adiantar muito, ainda não o terminei. Contudo, as considerações que faço sobre a construção das personagens é a mesma: miséria humana, ódio, loucura, tragédia, raiva, estórias paralelas de personagens secundários tão trágicas quanto as que não observamos no cotidiano, excessos, dissimulação, dúvidas… Deixo o restante em suspenso, principalmente para mim.

Mas, porque estamos lendo pouco Dostoiévski? Talvez seja simples a resposta, mas precise de um pouco de conhecimento sobre algum de seus trabalhos. O escritor vale-se de descrições longas e, para os desavisados, enfadonhas sobre o perfil psicológico dos personagens, sobre as ações da trama, sobre o cenário onde se passa a estória. Isso tudo, a princípio, pode parecer cansativo. Mas necessário para refletirmos um pouco sobre os mínimos e máximos detalhes sobre pessoas e coisas  ao nosso redor.

Em uma época em que as trilogias, as séries, as sagas e os best-sellers pseudo-eróticos estão na moda, ler literatura russa parece ser coisa de um passado quase pré-histórico. Bruxos que transitam entre o mundo real e uma escola de magia situada em um mundo paralelo, vampiros que brilham à luz do sol e jovens que assinam contratos delegando a outrem o tipo de prazer sexual que querem sentir são o divertimento de uma parcela que se diz leitora mas não consegue ter o senso crítico apurado para ver quão incipiente são essas “obras”.

É fato que gosto não se discute tanto mais quando isso é uma ação livre, resultante do livre-arbítrio. Mas consideremos: uma jovem que passa a ser escrava sexual de um homem mais velho é sucesso e uma adolescente que se deprime porque ama alguém (!) morto não são, necessariamente, metáforas exemplares da expressão “a vida imita a arte”.

Por que tantas mulheres leram “50 tons…”? Curiosidade sexual? Pode ser. Mas ter curiosidade sobre perversões pedófilas (ou quase isso…) expressa um certo traço de frustração dentro de um relacionamento. Não estou julgando ninguém, são fatos retirados de postagens de facebook encontradas em diversos sites. Já li várias passagens cujo discurso era sempre: “- Melhorei minha vida sexual graças a esse livro”  ou “Incrementei o sexo com meu marido com algumas ideias do livro”. Esse é, de fato, um retrato bem preciso da miséria humana. Se um casal não consegue explorar sua sexualidade, seja lá de que forma for, através do diálogo, carecendo de um livro de perversões sexuais para tanto, o que se tem não é um relacionamento. São apenas duas pessoas que estão juntas vivendo uma vida sem cumplicidade. Sexo é algo físico, mas também emocional. Se não houver conexão emocional para a realização do ato, o que existe é somente liberação de química no cérebro. Nenhuma fantasia romanesca pode ser superada pela fantasia real de duas pessoas que vivem um relacionamento.

E por fantasias reais, refiro-me a reconhecer no outro suas falhas, seus defeitos, lembrar das mágoas, das palavras rudes e ásperas ditas, perceber a incapacidade do outro de agir positivamente em certas ocasiões e, mesmo assim, fazer sexo com ele. Ah, se soubéssemos compreender que nesse ato sexual não se apagam as torpezas do outro, mas que o perdão cotidiano é a força motriz para execução de tal ato, talvez fossemos capazes de entender que estamos lendo pouco Dostoiévski.

Ou ainda, se compreendermos que a angústia vivida por uma adolescente que deseja o amor de um ser condenado a não morrer, amaldiçoado a não dormir e a beber sangue como fonte de alívio para uma fome impossível de ser saciada, entenderíamos que uma representação pelo desejo da imortalidade, uma fuga do tempo que nos obriga a sermos sábios com e para os outros que são parte de nós e uma desobediência fatal ao núcleo que nos permite sermos melhores em razão dos exemplos mostrados – a família – são apenas alguns dos elementos de uma trama que flui entre a desestruturação da subjetividade e o encontro com o ideal inexistente. Isso sem contar com a ridícula junção de um Drácula pós-moderno com licantropos bem distantes da Grécia Antiga…

A saga “Crepúsculo” mostra em enfadonhas, medíocres e, infelizmente, bem sucedidas linhas do ponto de vista comercial o que se está lendo atualmente. Não questiono o gênero literário ou o tipo de literatura. Não sou crítico literário e nem pretendo sê-lo. Falo do ponto de vista (já disse antes) de um mero leitor que reflete sobre metáforas possíveis de um mundo que não lê Dostoiévski. Em linhas gerais, a obra poderia compor a chamada de uma matéria policial de jornal: “Jovem deprimida por amor não correspondido tenta o suicídio, é salva pelo garoto bad boy que depois a leva para seu mundo transviado”. Só faltam mais quarenta e cinco minutos parafraseando a notícia acima para compor uma das reportagens especiais dos programas dominicais da televisão brasileira.

Que se entenda bem: não estou comparando os personagens desse livros com os personagens criados pelo autor russo em questão. Afirmo que, tão desprezíveis são os personagens do autor de “Crime e Castigo” que, de certa forma, podem prever a miséria e a pobreza de construção dos personagens dessas obras mencionadas.

A minha reflexão baseia-se mais no desejo de alcançar o impossível, de ignorar o que está próximo no dia a dia das pessoas, tão presente nas leituras atuais, que se deixa de lado as verdadeiras misérias reais e fictícias de nossa sociedade. Pessoas reais são retratos fieis dos personagens miseráveis de Dostoiévski. Só não foram devidamente retratadas em prosa. Pessoas que leem literatura comercial por acharem-na mais interessante do que enfadonhas descrições de traços psicológicos e espaços físicos deixam de lado a mais delicada obviedade da boa literatura: a arte imita a vida.

Infelizmente, o outro lado está sendo bem mais cultuado: a vida imita a arte. Pela superficialidade das pessoas, pelo desejo coletivo de mergulhar na superficialidade de conhecer o outro, pela repulsa em compreender as complexidades daqueles que nos estão pŕoximos, pelas paupérrimas metáforas contidas em ações de personagens inócuas é que penso: estamos lendo pouco Dostoiévski. E talvez Joyce, Machado, Clarice, Graciliano, Verne…

A vida é “invivível”

Não sei se recordarei, no futuro, um certo diálogo que tive com uma respeitável pessoa em um desses dias indiferentes. Contávamos ambos um divórcio. Falávamos sobre anseios, dúvidas, certos medos inerentes à condição humana. Divagávamos a respeito do que não poderia ser evitado durante os pesados passos, resultantes de toda existência humana. Claro, entre tais divagações estava o inegável fato de que muito já era em si evitado por uma certa parcela da existência humana. Essa exata parcela que não prevê, que não antecipa, que não reflete sobre a inerência dos medos, dos anseios e das dúvidas. São o que posso chamar de ignorantes. Excetuando-se toda a conotação negativa do termo, refiro-me aos que ignoram aquilo que vivem. Indiscriminadamente ignoram. Do gozo quase celeste de algumas conquistas até mesmo a dor mais profunda de uma perda. Essa parcela, simplesmente – embora creia não ser tão simples assim -, vive sem questionar. Vive em uma aparente, ao menos para mim e para quem mantive o diálogo, margem de tudo que possa vir a ferir, a machucar, a ser irresolvível, a alegrar, a provocar êxtase. Vive: apenas.
Por ocasião da conversa, não decidimos se isso era bom ou ruim. Aliás, nem mesmo sei se importa ser algo. A vida, disse eu, é “invivível”. O fardo ao qual nos impomos pela exata e precisa condição de estar vivo torna-se suportável somente porque não há outras formas de deixarmos de carregá-lo. É possível deixar de lado, é possível ignorá-lo por um tempo, é possível, inclusive, acreditar que não há fardos, mas apenas consequências ou causas de qualquer outra coisa que não seja um fardo.
Verdade é que fardos existem. Toda nossa vida é um inevitável e lento caminhar para não-se-sabe-onde carregando não-se-sabe-o-quê. E seguimos, parando algumas vezes, reduzindo o passo outras, desistindo quase sempre. Ou, o contrário: nunca desistimos porque isso é inevitável. Viver é uma inevitabilidade, ainda que “invivível”.
Concluir logicamente: isso é um processo doloroso e sem fim. Possivelmente, até, sem saída. Vivemos porque vivemos. E com fardos que pesam, para uns, muito, para outros, nem isso. A alegria dos que vivem à margem de reflexões acerca da condição e fragilidade humanas deveria ser celebrada. Não sei, exatamente, de onde vem o dito “a ignorância é uma benção”, mas mesmo sem saber, admito que isso é uma verdade que não pode ser excluída de nossa oração diária (se é que é possível haver uma e uma só).
Estar alheio às dores que nos só comuns deve ser bastante enriquecedor. Parece-me que não pensar, que ignorar fatos, excluir traumas, mascarar o desagradável, desdenhar do penoso dormir e acordar permitem, aos que assim o fazem, gozar uma vida com um pouco mais de plenitude. E, sim, o verbo é “gozar” mesmo. Com todas as suas acepções.
Isolados não conseguimos viver. Fomos marcados, como bois: a ferro e fogo, a precisarmos viver com outros. Para o bem e para o mal. Para os que nos fazem sorrir e para os que nos fazem desabar em um choro convulsivo. Se nos afastamos daqueles que nos fazem mal, constitui-se um ato de coragem. Mas, o mal já foi feito. A dor já foi causada. O fardo já está sobre os ombros e não é mais possível retirá-lo de lá. Evitamos um que nos fez mal, que nos feriu e… vem outro e faz com que experimentemos a mesma sensação já vivida e já evitada.
E para os que nos fazem sorrir, cometemos o erro de necessitarmos tanto do outro a ponto de não mais distinguirmos nossa própria subjetividade. Aliás, a subjetividade também se constrói dessa forma: através do outro. E sufocamos com sua ausência. E o sufocamos com nossa presença. São dois olhares distintos sobre uma mesma situação: inevitável não haver equívocos.
Não sabemos ser sozinhos. Não conseguimos fazê-lo. A humanidade é uma condição impossível de ser vivida. Com o outro ou sem o outro, sempre carregamos os fardos que não deveríamos. E os poucos prazeres que sublimariam nossa existência são relegados pela própria necessidade de sobrevivência e subsistência. Constatar que para vivermos plenamente é necessário sobreviver e subsistir não é algo prazeroso. É penoso, é dolorido, é frustrante, é infinitamente pesado para ser, ironicamente, “vivido”. Creio que um tratado de vários volumes versando sobre a condição humana e sua necessidade de existir com o outro considerando as Artes, a Música, a Pintura, a Educação, a Filosofia, a Psicologia, a Literatura, a Política, a História… seria um trabalho irrealizável para apenas uma pessoa. Mas para duas, definitivamente seria impossível: a discordância imperaria.
Freud falava de sublimação. Na verdade, isso se resume a resignação. Diante da vida, só resta ignorar tudo e aceitar que, apenas pelo simples fato de não poder haver mudança, a vida, em si, para os que pensam sobre ela, ainda que pouco, é “invivível”.