Elas

Gosto delas, das mulheres. Não qualquer gostar, não o gostar comum, dos homens. Detesto o comum. Gosto do inusitado, daquilo que me faz gostar somente por não saber a razão. E há várias mulheres, cada uma delas com nomes ou até as inomináveis. Vejo semblantes enfadonhos, crueis, tristes e sombrios. Vejo rostos endurecidos, vejo olhares perdidos, vejo gestos mecânicos, ouço palavras não pronunciadas. São elas, as mulheres. Elas me cercam, me incomodam por serem assim. Dizem que desejam apenas por medo.

Estar incomodado é estranho, porém bom. Ser incomodado por elas é bom e estranho ao mesmo tempo. Vezes presto atenção em detalhes, pequenos gestos e ponho-me a pensar em tudo. Soturnamente, enxergo um rápido gesto em busca do infinito. Brinco, e nem dou risada. Dizem que desejam apenas por medo. Outras vezes, nem me importo porque incomodado, deixo de lado. Mas não é sempre. É como se houvessem horas em que tudo o que faço é prestar atenção nos meneios.

Algumas são fortes, doem-se pelos filhos, pelo marido, pela família que é o mundo inteiro. Essas brigam, agem, são. Mas desmoronam sozinhas no banheiro durante o banho e não entendem. Eu também não entendo. Elas choram. Outras são bonecas frageis, delicadas, quase insanas. Estas são as que dançam, rodopiam no salão ao som de uma valsa qualquer. Elas não choram mais. Já estão rasgadas por dentro. Dizem que desejam apenas por medo. Continuam, parecendo frageis bonecas e são assim.

Elas me assustam. Elas me cercam e não posso viver incólume a isso. Pois há também o riso gratuito, o repentino olhar de interesse renovado, o breve suspiro de surpresa. Imagino cada uma delas em cenas brilhantemente ilustradas como pinturas de Monet. E todas passam a fazer sentido em um segundo. Mas não para mim. Elas continuam a me assustar. Dizem que desejam apenas por medo. Um riso de alegria me desperta curiosidade e o repentino olhar me corroi de um medo paralisante por não saber. Apenas isso: não sei.

O sombrio de cada uma delas é-me um mistério indecifrável. O olhar que critica é o mesmo que acolhe, a palavra que agride é a mesma que acalenta, o silêncio que destroi é o mesmo que grita “Avante!”. No meio desse jogo de luz e sombra, fico atento. Não para descobrir a diferença entro o claro e o escuro. Somente para ver, prestar atenção e me atordoar indefinidamente. Dizem que desejam apenas por medo. E ainda assim, não sei o que é isso. Gosto, com medo.

Dizem que desejam apenas por medo. Por não saberem não desejar. Por não saberem viver sem o medo. Por não saberem. E cada uma delas, com seus lados invisíveis, com suas facetas óbvias, com seus olhares indefinidos, são mulheres das quais gosto. Distante e assustado, são parte de mim. Assemelham-se a folhas caídas durante o Outono.

Rir do ridículo

Porque muitas vezes tudo que a gente quer de verdade é rir do ridículo que é um pedaço ou outro de nossas vidas.

Você é gordo? Se acha feio? Te acusam de chato, ignorante, bruto, insensível? Tem as pernas cabeludas demais para uma mulher? Sua barriga de tanquinho, sr. saradão, é daquelas ovais e murchas? Ou flácidas? Ou pontudas? Tem gente que acha que você fala demais? Fala alto demais? Um ou outro te ataca com sarcasmos mal colocados (porque até para ser sarcástico você tem de saber sê-lo) Qual é o problema? Aceite-se. Diga para todo mundo que você é assim, maravilhoso/a. Se você não se gosta, não se respeita, espera a condescendência dos outros… Sinto muito: você está fazendo do jeito errado. Está vivendo e sendo do jeito errado.

Ria de você mesmo. Há dois benefícios terapêuticos nisso. O primeiro é que rir é bom para a saúde (vejam qualquer pesquisa sobre isso no Google). O segundo é que, rindo de você, você não abre espaço para os outros rirem de você, ao contrário, você abre espaço para os outros rirem COM você. E, convenhamos, rir junto é bem mais engraçado. Até porque, alguém sempre pára de rir antes e o silêncio constrangedor depois do riso gera, nada mais, nada menos do que mais riso.

Por que não se achar inigualável no universo? Todas as pessoas são. até gêmeos são diferentes entre si (mesmo que já tenham usado a mesma roupa de marinheiro durante os dias de infância). Por que pensar que o sol não nasce para todos, mas sim para você? É verdade. O sol nunca é visto do mesmo modo por mim e por você. Acordou e viu que seus olhos estavam mais verdes, pretos ou castanhos, mais brilhantes que ontem? Ótimo. São seus olhos, não os de outra pessoa. É o que você tem. É o que você é. E daí se os outros não acham a mesma coisa dos seus olhos? Elas tem os delas. Que se enxerguem a partir deles.

Acham que sua opinião é furada? Problema! Ela é sua. Ela te faz ser quem você é, e não outra pessoa. Já imaginou se todos fossem como os alunos do filme “The Wall” do Pink Floyd? Sem rostos, caminhando para o mesmo destino (a máquina de moer, para quem não viu)? Trágico! Hoje todo mundo quer pertencer a alguma tribo, grupo, seita ou sei lá. Mas tais pessoas esquecem o essencial: se pertencerem a si mesmas.

Goste do seu corpo. Goste dos seus olhos. Goste de suas neuroses. Goste de sua risada alta e ridícula. Goste do seu andar de pato. Goste de tudo que faz você ser quem você. E se há algo que você não gosta em você, mude por você ou se acostume com o suposto defeito. Até eles fazem de você quem você é. Só não espere que outros façam isso por você. Os outros não irão fazê-lo, a menos que de fato te amem, como você deve ser amado/a e se amar.

É isso. Faça os outros rirem. Ria, também.

Espalhar-se

E me espalho lentamente encontrando partes que deixaram de ser? Talvez agora. Não ontem. Espalhar-se é encontrar a graça de não saber quais pedaços nos compõem. É uma alegria insossa, mesclada com o inusitado de perder-se em partes. As cores menos vívidas surgem daí. Ainda assim, é alegria. Espalhar-se, deixar-se em partes, não encontrar o fio condutor é o destino de todos para a humanização? Não ontem. Talvez agora.

E se não me faço inteiro é pelo fato de não me querer completo. A completude dá medo. A completude tira o medo, também. Estar completo é negligenciar a necessidade de sermos completados pelos outros. O medo do outro e o medo pela ausência do outro. É inconstância, mas é composição humana. Quero-me humano e incompleto. Aprender é assim, do mesmo modo. Aprender a desconhecer o ser que achamos conhecer é o mais absoluto reflexo da condição de humanização pela qual experimentamos o milagre mundano de sermos. Mas, se não o somos, deixamos a experiência? Em absoluto.

Experimentar ou experienciar é igualmente imprescindível à nossa condição quanto as cores menos vívidas que percebemos no cotidiano. Não o fazendo deixamos apenas o vazio que poderia ter sido preenchido com as dúvidas. São elas o nosso porto-seguro? Talvez amanhã. Elas também colorem nosso espalhar. São tons pálidos, paralisantes, por vezes inadequados. E são nossos. Nossas tonalidades. Mistérios invisíveis que se desnudam a cada resposta obtida. Mistérios menos visíveis quando na boca se calam perguntas nunca feitas. E me espalho lentamente diante de partes que deixaram de ser.

Agrada-me a experiência de experimentar a mim mesmo nesse processo de partes conhecidas e reconhecidas e reaprendidas e negligenciadas. Não é novo, não é elétrico. Não é nada. Apenas agrada-me com essa certa alegria insossa do inusitado. É como ver Deus em mim. É encontrar a magnitude inapreensível de poder não-ser o que já deveria ter sido conhecido e continua um mistério insondável para a minha humanidade? Encontrar Deus em mim é ver tudo isso. É saber do mistério e nada poder fazê-lo. Ele está lá. E as experiências também.

E me espalho lentamente encontrando partes que deixaram de ser. Nesse exato instante. Pois espalhar-se é dar-se ao luxo excêntrico de poder olhar-se em partes pequenas e juntá-las, como em um jogo de crianças, para construir-se, moldar-se do modo que se quer. E quero-me desse modo: humano em partes espalhadas. Brincar com os outros nessa construção é, igualmente, parte da humanização necessária. E se me junto hoje, deixarei de sê-lo amanhã? Nunca o saberei. Espalho-me lentamente, ontem, hoje, indefinidamente.

Limites

Há em nós uma peculiaridade, no mínimo, interessante. Chama-se limite. Os limites que impomos a nós mesmos e aos outros para nos protegermos de sabe-se lá o quê. É um certo quê de profano, de místico, de insondável nisso. Talvez, nenhuma das palavras que usamos possam, efetivamente, explicar a razão pela qual impomos nossas barreiras diante do outro. E, certamente, não há necessidade disso, da explicação. Sabemos apenas que impomos limites, e pronto.

Considero que esse não seja um defeito, nem tão pouco uma qualidade. Creio, até que possam me provar o contrário, que impor limites é intrínseco ao ser humano. Quantas estórias e quantas Histórias circundam as vidas ao nosso redor? Há tanto mais que não é sabido por nós em relação aos outros e mesmo até por nós mesmos. Por isso os limites, as barreiras, é nosso jeito de dizer: “é possível ir até esse ponto, e só”. É porque, nesse ponto, reside a nossa fragilidade. Contudo, não se pense fragilidade como fraqueza, mas como algo que não sabemos como lidar.

É a incapacidade característica de cada um de poder não enfrentar aquilo do qual não se conhece. Um insulto, um elogio, um choro, um riso descontrolado, um silêncio… Cada um sabe a exata forma que todas essas coisas podem tornar-se ou agigantar-se dentro de nós. E por não sabermos o que fazer com isso, impomos os limites.

O curioso é que mesmo impondo limites para isso ou para aquilo, findamos por impor limites a certos acontecimentos que, idealmente, não deveriam possuir limites, barreiras. O sentimento por alguém é um desses acontecimentos memoráveis. Todavia, impomos. E impomos, também, por não saber como lidar com isso. Não é que não saibamos lidar com o sentimento em si.Isso é claro para quem sente algo. A questão é que devido aos medos, aos receios, ao que passou e não foi agradável, o fato de estarmos sentimentalmente ligados a alguém nos incomoda. E é assim por não sabermos quais limites impor ou mesmo se devemos impô-los. Mas eis que surge a questão: se impomos limites, perdemos algo? Ou perdemos algo se não impusermos os limites? Ou ainda, no processo contínuo de imposição ou falta de imposição, perdemos ou ganhamos?

É possível, quase certo, quem saberá… que perder ou ganhar torne-se irrelevante. Afinal, em um momento ou outro, haverá uma imposição, mínima que seja, sobre algo. Somos assim, defeituosos – se é que posso dizer isso – por natureza. São esses defeitos que nos tornam quem somos, que permitem serem reveladas as subjetividades, os vícios, os enganos e desenganos de nossa condição. Sem limites, não há individualidade, sem individualidade, não há subjetividade e sem subjetividade, o óbvio: não há sujeito.

Melhor sermos cheios de limites do que não o sermos. Há, claro, que se estabelecer os limites para imposição dos limites. Entretanto, isso não implica não sermos neuróticos, ou absolutamente normais, seja lá o que isso signifique.

Esquecimento

Por mal ou por bem, nunca esquecemos. Nem o mal, nem o bem que nos fizeram. E resta, quase sempre, um sabor agridoce em nós. Vezes muito doce, são as memórias quase permanentes dos particulares instantes em que vemos o que de bom ficou ao nosso lado. Outras, o amargor das lembranças que nos perseguem.

De fato, menos importa distinguir se foram bons ou maus momentos. Resta somente o saber lidar com. Saber o que fazer com. Possivelmente, nem mesmo isso importa. Nunca esquecemos. Aliás, esquecer não nos é uma prerrogativa humana. Se fomos condenados ao livre-arbítrio, fomos, igualmente, marcados por essa marca indelével do não-esquecimento.

Seguimos sendo. Seguimos lembrando, nunca experimentando o luxo do esquecimento. Porque esse é um algoz inominável. Do mais puro e límpido nada do nosso pensar, surge o seu imperfeito antônimo: lembrar. Fere como lâmina afiada, desafia como ferida exposta, expõe como cicatriz aberta, revela como espelho iluminado. Impossível escapar do que a falta do esquecimento nos impõe.

Ora rimos, ora nem mesmo isso. Ainda que tentemos, não nos é parcial ou completamente possível. E de tantas facetas – como éramos, como poderíamos ter sido, como deixamos de ser – nunca conseguimos, efetivamente, sê-los. Ser esquecendo, ser não lembrando, ser apenas deixando de relevar (ou revelar?) o que lembramos.

São cadeias infinitas de pequenos gestos, de grandes ações, de incomensuráveis “algos” que impossibilitam um outro caminhar. Nunca esquecemos, sempre lembramos. Nunca permitimos por completo, sempre evitamos algumas partes. Talvez um duelo cujas regras não foram explicitadas. Ou, talvez, um explícito duelo sem regras. Nele digladiam-se o que já não desejamos porque repelimos e também o que pensamos querer porque rapidamente escolhemos. Em um ou outro caso, sequer conseguimos antever o que será parte do esquecimento e o que será parte da lembrança, mesmo porque o primeiro já não há mais. Nunca houve.

Se há um bem ou um mal, de fato, ambos são relativos. O meu bem pode ser o mal de outro. O bem de outro pode ser o meu mal. E ainda existe a possibilidade de que não haja bem algum. Sempre há um mal. E, novamente, não importa distinguir isso. Há sempre o mal. O do esquecimento, o do lembrar, o do amargor intransponível que nos permanece na boca.

E, quando podemos aliviar esse gosto, não o fazemos conscientes. Dormimos, trabalhamos involuntariamente o que nunca poderemos apreender e nos conformamos. Pois não há outra forma além dessa. Reféns que somos do que não conhecemos, do que não revela com clareza, tentamos nos adequar ao possível e suportável limite do existir inconsciente. É exatamente esse vulto gigantesco que nunca nos permite esquecer, que sempre insiste em nos fazer lembrar.

É essa sombra assustadora do que não sabemos sobre nós que insiste em impossibilitar nosso esquecimento. As lembranças de nós mesmos se diluem com o desconforto de não podermos esquecer (ou ser?). E seguimos sendo, pela metade, pela inconsistência de não sermos completos, por desconhecermos quem somos e o que não esquecemos.

Em tempo

Há solidões. Há momentos. Há fugacidade. Há, também, sincretismo. Nas quais estamos cercados, mas nenhum rosto é conhecido. Quando paramos e fixamos o olhar em um ponto distante e esquecemos que eles passam. Porque, assim, conseguimos encarar o fato de que precisamos retornar ao que nos parece de mais concreto, mesmo que irreal. Pois, somente assim é possível unir pontas, unir pontos, ou apenas unir algo.

E há dispersão de sentidos. É como o discurso, sempre disperso, sempre plurivocalizado, sempre feito de equívocos. Somos como o discurso. Somos feitos pelo discurso. Por vezes, revelamo-nos, e por tantas outras nos escondemos nele mesmo. De facetas e facetas nos constituímos. Porque há solidões que não permitem a revelação total do que nos permeia os sentidos.

Sentir todos os sentidos só é possível quando esquecemos que eles existem. A plena consciência do enxergar a si próprio ofusca o ouvir-se a si mesmo, o pensar-se a si próprio, o falar consigo. Pois, se paramos e perdemos o olhar em um lugar qualquer, esquecemos. É, então, quando sentimos todas as possibilidades de estar – inexistindo -, ou de ser não permanecendo. Porque há momentos em que a inexistência é o único lugar desejável para não sucumbirmos ao sermos quem somos.

Não ser é o que, possivelmente, nos permite Ser. Vivemos de fugas rápidas, de modelos quase-prontos, de prontidões inacabadas. É mais seguro, mais confortável, e menos Ser. Assumirmos a nós mesmos, sendo o que forçosamente evitamos ao sentir, é apenas uma parte de quem talvez nunca sejamos. São as irrealidades que nos impomos em busca de nossas absurdas (in)sanidades. Porque é não-sendo que identificamos como quereríamos ser. Não-ser é o lugar dos encontros com nosso desejo animal de querer ser. E eternizamos isso por dois ou mesmo cinco minutos.

Somente havendo solidões, somente havendo momentos, somente havendo fugacidade é que torna-se tolerável existir sozinho e fugindo. Mas também é por isso que suporta-se o fato de não existirmos acompanhados e com certa constância. Regularidades, dispersões, significados, implícitos, silêncios, vozes multiculturais… São apenas termos, palavras nesse momento. E por isso o necessário sincretismo: a possibilidade de unirmos o que parece incorrigível, o que prenuncia a ambiguidade, o que possibilita unir algo. O que seja, em tempo.

Se hoje

Se hoje fosse seu último dia? Se hoje você não pudesse mais sentir o perfume de sua esposa? Se hoje você não pudesse mais ver seus filhos brincarem? Se hoje você percebesse que o seu cão não vem mais ao seu encontro? Se hoje as suas músicas preferidas não tocassem? Se hoje o seu prato favorito não fosse mais servido a você? Se hoje você não relesse mais as cartas que um dia trouxeram alegrias e expectativas para sua vida? Se hoje você não pudesse mais tomar o café da manhã sem olhar o jornal?

Se hoje sua vida parecesse grandiosa demais para quem você realmente é? Se hoje você não pudesse ir à igreja? Se hoje não houvesse mais tempo para seu encontro com Deus? Se hoje você não pudesse mais aproveitar o seu carro a caminho para o trabalho? Se hoje tudo que você construiu em sua vida parecesse apenas uma, de tantas outras etapas ignoradas? Se hoje não houvesse jazz? Se hoje a sua luta parecesse inócua? Se hoje o seu labor diário não valesse a pena? Se hoje não houvessem dúzias de e-mails para serem respondidos?

Se hoje ninguém te chamasse de “meu amor”? Se hoje você não ouvisse ninguém te responder bom dia em francês? Se hoje os pássaros se recusassem a cantar? Se hoje o dia fosse cinza? Se hoje o seu terapeuta não pudesse te atender? Se hoje a sua voz presa fosse calada para sempre? Se hoje a sua voz presa pudesse se libertar com um grito forte e alto? Se hoje você não recebesse ligações de nenhum amigo? Se hoje os seus amigos desaparecessem de sua existência? Se hoje houvesse apenas você sentado no bar?

Se hoje uma cerveja gelada lhe fosse negada? Se hoje houvesse silêncio ao seu redor? Se hoje a música cessasse? Se hoje você não assistisse TV? Se hoje Drummond não fosse seu poeta predileto? Se hoje a poesia de Bandeira lhe fosse percebida como pobre e sem graça? Se hoje toda a miséria do mundo coubesse em suas mãos e você a destruísse? Se hoje você depositasse sua confiança em alguém? Se hoje você fosse apenas você, sem categorias ou classificações? Se hoje só você fosse trabalhar? Se hoje você não risse de alguma piada?

Se hoje você chorasse como uma criança pequena nos braços da mãe, buscando amparo e alento? Se hoje todas as coisas não existissem mais?

E se hoje, apenas hoje, você conseguisse ser apenas você e viver apenas a sua vida e apreciar somente as suas coisas e falasse apenas o que fosse agradável a você. E se hoje não fosse hoje?

Paradoxos

Apenas nascemos de fato ao morrermos. Toda a dor que passamos, todas as lágrimas, todos os sorrisos, todas as deixas (ou queixas?) para nos tornarmos alguém são, frequentemente, ignoradas. Com o tempo. E só nos é possível perceber que nascemos no exato momento em que – quase como Brás Cubas – nos isentamos de tudo e conseguimos perceber toda a paisagem que já nos passou. No vislumbre da morte.

Talvez seja um defeito. Talvez seja imaturidade. Talvez sejam as circunstâncias. Talvez seja genético. É possível que em nossa codificação de seres humanos exista um gene que determine que o nosso nascimento somente seja possível quando nos afastamos, quando deixamos de ver o óbvio e passamos a perceber o oculto, os implícitos, as nuances de cada instante.

E isso soa uma tarefa hercúlea para o material fraco e frágil de que somos feitos. Mas também não é defeito, é apenas parte. E de que mesmo importa se nascemos apenas ao morrermos? Vivemos de qualquer modo. Não há certo ou errado; há apenas o jeito de conduzir o que é possível.

Isso é paradoxal. Nascer é já, em si mesmo, viver. E morrer é constatar aquilo que nos recusamos a enxergar durante os dias todos em que acordamos e vivemos. Morrer é constatar que no último minuto que nos resta percebemos o quão grandioso foi o nosso nascimento. Ou, o quão grandioso foi aquilo que consideramos como prenúncio da inevitável morte.

Não se pense a morte como algo triste, soturno, irremediável. Aqui, ela apenas é o lugar da percepção do real nascer. Do reconhecimento de um parto longo, de vários anos. Nascer é o instante da percepção da morte. Morrer é o momento do reconhecimento do nascimento.

E que também não se pense a morte – aqui – como o fim da vida carnal. Morrer é todo o simbolismo inerente ao reconhecimento de algo que já passou. E – possivelmente – nem mesmo estejamos (sejamos?) corretos ao falarmos em nascimento. A probabilidade da certeza concentra-se muito mais em considerarmos o renascer.

A cada instante de morte, renascemos. A cada passo em direção à fuga da dor, a cada caminhada em busca de uma alegria, de um prazer, de um momento fugaz é quando morremos. Morremos de uma vida, iniciamos outra. Repetidamente agimos dessa forma. É o que nos sustenta, é o que nos mantém vivos, é o que nos permite nascermos em fases distintas (se é que são mesmo fases…).

Não existe permanência no viver, no nascer e no morrer. São fases. Ou, ainda, são permanentes as fases de vida, de nascimento e de morte. Inescapáveis, até. São fases, são modos de perceber, são formas de considerar. O tolerável de nós mesmos é somente dado a conhecer quando morremos, simbolicamente, a cada troca que realizamos com o doloroso prazer de nascer.

Uma música, talvez

Há certos momentos cotidianos que nos mobilizam profundamente. Há certas ações pequenas que assumem um significado quase que transcendental. Uma breve lembrança de uma manhã de setembro, o rever de uma mensagem no celular (antes da tecnologia eram os bilhetes…), o gole de um vinho melancólico no fim de uma tarde de sábado, a melodia de uma música que ouvimos no som de um carro que passa ao longe, uma nota que escrevemos a nós mesmos que, depois de um tempo, é relida com a mais pura estupefação – pensamos: escrevi mesmo isso? era assim que eu pensava e sentia?

Todas essas coisas são capazes de nos tocar de maneiras bem variadas. Algumas vezes sentimos medo, outras solidão, outras uma alegria incontrolável e há ainda os momentos de riso, que não sabemos ser de surpresa, indignação, constrangimento ou qualquer outra coisa. Tudo isso provocado apenas por lembranças, momentos cotidianos.

No entanto, ainda acredito que nada se iguale ao que ouvimos e reouvimos em casa em um momento de pura distração com as atividades diárias. Há certas músicas que nem sequer sabemos quem compôs a letra ou a melodia, mas nos cortam feito navalha afiada. Sentimos que naquele instante tudo nos invade. Há um misto de raiva, rancor, tristeza, gozo, superação, esperança, choro… e, por mais que queiramos descrever, não conseguimos dizer com palavras o que aquela melodia, aquela letra ou mesmo aquele único verso nos dizem. Ou melhor: nos significam.

Recorremos às nossas experiências para tentar encontrar o sentido daquilo. Tantas vezes falhamos. É bem verdade que parte de nossa memória é seletiva e talvez por isso nos esforçamos para lembrar de algo que nos explique o sentimento (inexplicável?) e não conseguimos fazê-lo. Ele – o sentimento – fica lá. Audível e silencioso. Profundamente significativo e inócuo. Revelador e obscuro. Não sabemos, apenas sentimos.

É como se fossemos pegos de surpresa. Um susto enorme nos acontecesse e não pudéssemos reagir. Ao mesmo tempo em que estáticos ficamos, toda uma série de reações nos revolucionam por dentro. Um dedilhar de um violão, o piano suave ao fundo, um sax longo e melancólico, o pulsar de um contrabaixo ou mesmo as vozes agudas, graves, roucas, curtas, pausadas, arrastadas são capazes de provocar uma tempestade. Nosso coração dispara, nossa imaginação vai longe, nossas mãos se aquietam, nossas pernas relaxam e com elas todos os nosso músculos também. É a sensação de susto mais paradoxal que pode existir. A surpresa nos ataca e ficamos absolutamente relaxados, acompanhando o desenrolar daquela música. O coração, mesmo disparado, não nos trava. E depois que percebemos o que acontece, a sensação é a de que estamos caindo de uma altura enorme.

Tudo isso não dura mais que alguns minutos, o tempo da música acontecer. O tempo de percebermos o que o refrão nos diz, o que a melodia é capaz de nos fazer, o que a voz grave nos fala. Mas são minutos inestimáveis para compreendermos aquilo que nos move e nos toca. Uma música.

Aconteceu

Não sabemos quando certas coisas nos acontecem. Elas apenas surgem, acontecem, fazem parte de nossa vida. Achamos que amadurecemos, que seremos capazes de lidar de modo sensato, ponderado e, até certo ponto, indolor. O fato é que com 30, 40 ou 50, ainda somos os mesmos adolescentes. Sentimos um frio na barriga ao nos aproximarmos de alguém interessante, tememos alguém com maior autoridade do que a nossa, trememos ao nos depararmos com algo que não sabemos resolver, choramos porque fomos abandonados por alguém, gritamos desesperados (ainda que em silêncio) quando somos feridos por alguém, nos alegramos quando alguém nos considera o melhor amigo, exultamos ao saber que fomos procurados por sermos confiantes e seguros…

Acho que não existe passagem entre a vida adulta e a adolescência. Seremos os mesmos jovens temerosos que fomos até o fim de nossos dias. A única mudança são as máscaras que usamos. Muitas vezes elas são tão incorporadas a nós (e por nós) mesmos que achamos impossível sermos outra pessoa. A máscara cola em nosso ser e passamos a agir conforme suas características, seu molde.

Não importa se reconhecemos se essas características são boas ou ruins porque agora elas são nossas. Imputamos a nós mesmos essas características, já que não conseguimos deixar de ser aquela pessoa que se constitui entre os 14 e os 19 anos de idade. Ainda sonhamos com o que gostaríamos de fazer de nossa vida, fantasiamos os amores que ainda viveremos, afirmamos que nunca mais nos deixaremos machucar por ninguém, idealizamos a nossa vida pessoal, profissional e afetiva. A verdade, é que não vivemos como deveríamos.

Acredito que isso não seja uma doença, um desequilíbrio emocional qualquer. É apenas a forma que encontramos de (sobre)vivermos. Queremos dizer o que pensamos e não podemos, queremos expressar nossa raiva a quem nos machuca, queremos chorar e gritar com alguém só por que essa foi a primeira pessoa que encontramos para exorcizar nossos demônios. No fim, nada disso podemos fazer sem sermos considerados insanos. E por que não? Melhor um adulto insano do que um adulto sem sê-lo.

Ouvi, certa vez, que a vida era como uma doença grave que precisava de cirurgia. A doença nos acaba, lenta ou rapidamente, e para seguirmos adiante precisamos ser invadidos. No princípio, há anestesia, depois o corte e o sangramento. Mas depois que somos invadidos, cortados, sangrados, somos também curados. A cicatrização demora, mas nos livramos da doença. Cada decepção, cada tristeza, cada choro, cada momento de angústia, cada dor que sentimos no peito nos anestesiam profundamente. Achamos que daquele momento em diante não iremos mais sentir coisa alguma. Só que a anestesia não dura para sempre. Precisamos ser cortados pelas verdades que nos dizem no momento de dormência. As verdades que, muitas vezes, nós mesmos nos dizemos. Por vezes, é fato, não queremos ouvir nem a nós mesmos nem ao outro, porém isso passa. A anestesia não dura e o corte prevalece. Nesse instante de verdade, sangramos tanto que sentimos não haver mais nenhuma gota de sangue que nos faça retornar da mesa de cirurgia. Tudo parece se esvair dentro de nós: medos, desejos, esperanças, incômodos, tristezas, alegrias, sorrisos, lágrimas, silêncios, gritos… nada mais parece restar. Apenas parece. Resistimos tão bravamente à intervenção que ao sairmos somos quase outra pessoa. A cicatrização começa, começamos a sarar.

Não nos curamos completamente. As cicatrizes ficam. Marcas indeléveis de nossa doença, de nossa vida. Mas ainda assim superamos o mal. Não saímos da mesa de cirurgia ilesos. Não nos tornamos outra pessoa. Voltamos a ser os mesmos adolescentes com medo. Talvez um ano ou dois mais velhos, mas ainda na faixa etária dos 14 aos 19. A diferença são as bandagens que poremos nas cicatrizes. Talvez maiores, talvez menores e mais audaciosas… sempre bandagens.

E como a vida não se vive em um dia ou dois, como as cirurgias, somos diariamente operados. A cada instante nós somos anestesiados, cortados e sangrados, mas sempre nos recuperamos, sempre teremos cicatrizes.

Por isso, o melhor remédio para nossas cicatrizes chama-se “simplesmente aconteceu”. Não há cura por vivermos. Há intervenções que prolongam nossa existência. Há máscaras que utilizamos para não revelar quantas vezes fomos invadidos por cirurgias.