Zelo

Estranhamente, observo o descuido. Atentamente, percebo certas nuances de cuidados não mais encontrados no trato diário, ainda que inconstante, com os outros. Estranhamente, não há mais cuidado, não há zelo. Algumas singelezas são capazes de dizer aquilo que volumes e volumes de enciclopédias não podem abarcar.

Por isso observo o descuido. E estranho sua existência. Como estranho a mim, como estranho o outro, como estranho as coisas. Repentinamente, apenas uma troca ínfima de experiências – uma palavra, uma frase, uma confissão, um dizer qualquer – ressignifica a nossa subjetividade. O descuido é o oposto disso. É a falta de disposição para com o outro. Disposição para ouvir, gritar, chorar, calar, esquecer, animar, rir, brincar e quantos mais forem possíveis os verbos.

As experiências com os outros são partes e partículas essenciais para nossa definição de sermos o quê e quem somos. É o cuidado em cultivá-las, não apenas as experiências. Elas, encerradas em si, nada dizem e nada são. Como nós, sozinhos, nada somos. As experiências que demonstram explicita ou implicitamente o cuidado como o outro são gestos que, também, revelam nosso cuidado consigo próprios. É, decerto, bem óbvia tal constatação. Todavia, ainda me pergunto se de fato há alguém que já – efetivamente – tenha constatado tal obviedade.

O descuido é hoje parte de um discurso da coletividade. O que está bom para um, deve, obrigatoriamente, satisfazer a todos. Mas, e se em uma brincadeira dizemos “se eu adivinhar o nome do filme, quero um chocolate”? Todos devem ganhar apenas o chocolate? Ou será que dentre vários bilhões de pessoas, não existe alguém que espere ganhar um algo a mais, talvez um simples laço de fita ao redor do chocolate, ou quem sabe uma embalagem diferenciada, apenas para criar o suspense sobre o presente ou a aposta ganha? Esse é um desejo de um dos bilhões que habitam o mundo, claro. O grande diferencial é perceber numa simples assertiva o desejo do outro e a partir de então cuidar dele, isto é, do desejo. É observar que em uma brincadeira qualquer somos capazes de exercer o zelo, o cuidado. Afinal, o outro não são bilhões de pessoas. Eu não sou bilhões de pessoas.

Cuidamos de acordo com o que somos e também com quem o somos. E novamente afirmo: observo estranhamente o descuido. Não me questiono a razão de tal imperativo. Nem o quero. Agrada-me pensar que é sempre possível o diferente. Nesse caso, o cuidado, o zelo, a atenção nos atos singelos que praticamos para o outro.

É bizarro perceber que o termo “customização”, advindo do inglês, cujo equivalente em português é personalização, simplesmente vem sendo apagado de nossas relações. O personalizar tornou-se em agir igual em tudo e com todos, inclusive com nós mesmos. Há o apagamento do eu e do outro para uma singularização do neutro. Não somos: fazemos parte. Descuido. Ausência de zelo.

Isso me é estranho. Gosto do cuidado que me dispensam, gosto de dispensar cuidados aos outros. Embora os estranhe tanto quanto a mim, ainda assim prefiro zelar por uma subjetividade que aos poucos será revelada pelo gesto simples do cuidado. Penso, mesmo que equivocadamente, que sejam essas coisas todas, a atenção, o zelo, o cuidado, que nos ajudam a perceber a nossa própria existência não-neutra assim como também a do outro. A neutralidade implica em zero, absoluto vazio.

O descuido é vazio. O cuidado é sempre soma de diversas peculiaridades que se nos apresentam ao longo dos minutos que existimos. E não existimos sem cuidado, sem cuidar.