Uma música, talvez

Há certos momentos cotidianos que nos mobilizam profundamente. Há certas ações pequenas que assumem um significado quase que transcendental. Uma breve lembrança de uma manhã de setembro, o rever de uma mensagem no celular (antes da tecnologia eram os bilhetes…), o gole de um vinho melancólico no fim de uma tarde de sábado, a melodia de uma música que ouvimos no som de um carro que passa ao longe, uma nota que escrevemos a nós mesmos que, depois de um tempo, é relida com a mais pura estupefação – pensamos: escrevi mesmo isso? era assim que eu pensava e sentia?

Todas essas coisas são capazes de nos tocar de maneiras bem variadas. Algumas vezes sentimos medo, outras solidão, outras uma alegria incontrolável e há ainda os momentos de riso, que não sabemos ser de surpresa, indignação, constrangimento ou qualquer outra coisa. Tudo isso provocado apenas por lembranças, momentos cotidianos.

No entanto, ainda acredito que nada se iguale ao que ouvimos e reouvimos em casa em um momento de pura distração com as atividades diárias. Há certas músicas que nem sequer sabemos quem compôs a letra ou a melodia, mas nos cortam feito navalha afiada. Sentimos que naquele instante tudo nos invade. Há um misto de raiva, rancor, tristeza, gozo, superação, esperança, choro… e, por mais que queiramos descrever, não conseguimos dizer com palavras o que aquela melodia, aquela letra ou mesmo aquele único verso nos dizem. Ou melhor: nos significam.

Recorremos às nossas experiências para tentar encontrar o sentido daquilo. Tantas vezes falhamos. É bem verdade que parte de nossa memória é seletiva e talvez por isso nos esforçamos para lembrar de algo que nos explique o sentimento (inexplicável?) e não conseguimos fazê-lo. Ele – o sentimento – fica lá. Audível e silencioso. Profundamente significativo e inócuo. Revelador e obscuro. Não sabemos, apenas sentimos.

É como se fossemos pegos de surpresa. Um susto enorme nos acontecesse e não pudéssemos reagir. Ao mesmo tempo em que estáticos ficamos, toda uma série de reações nos revolucionam por dentro. Um dedilhar de um violão, o piano suave ao fundo, um sax longo e melancólico, o pulsar de um contrabaixo ou mesmo as vozes agudas, graves, roucas, curtas, pausadas, arrastadas são capazes de provocar uma tempestade. Nosso coração dispara, nossa imaginação vai longe, nossas mãos se aquietam, nossas pernas relaxam e com elas todos os nosso músculos também. É a sensação de susto mais paradoxal que pode existir. A surpresa nos ataca e ficamos absolutamente relaxados, acompanhando o desenrolar daquela música. O coração, mesmo disparado, não nos trava. E depois que percebemos o que acontece, a sensação é a de que estamos caindo de uma altura enorme.

Tudo isso não dura mais que alguns minutos, o tempo da música acontecer. O tempo de percebermos o que o refrão nos diz, o que a melodia é capaz de nos fazer, o que a voz grave nos fala. Mas são minutos inestimáveis para compreendermos aquilo que nos move e nos toca. Uma música.