Somos ficção

Há que se considerar uma série de elementos constitutivos da condição humana. A fragilidade das relações, a emoção contida ou desmedida diante do não-sabido, a volatilidade dos sentimentos, a agressividade latente frente as frustrações, a delicadeza dos “adeuses”, a mesmice do cotidiano inevitável, o irresoluto silêncio que encara a impotência no agir, a falsa crença de que somos tudo e ainda podemos ser mais. Ao infinito tais elementos poderiam ser estender, todavia, findam pelo simples fato de serem constitutivos do ser humano. E, como tais, finitos somos.
Nada há que seja capaz de nos revelarmos como reais. Todo entorno é pura idealização do que poderia ser. É, realmente, uma condição criada pelo e para o imaginário necessário à sobrevivência como espécie. Tão frágeis somos que nossas interações, por mais que creiamos nelas, são frutos irrevogáveis do que imaginamos ser bom para nós. Não há bondade real, apenas ideal e, ironicamente, elas, as relações, tornam-se cínicas. Trata-se de um cinismo não jocoso, mas imprescindível. Somos o que conseguimos ser em cada instante de interação verbal e o outro, parte constitutiva de nossa humanidade, também dessa forma age. De simples saudações (um “bom-dia!” ou um “como vai?”) a complexas discussões filosóficas acerca da economia global são cenas teatrais que permeiam o ilusório dia a dia. E nesse quase palco, nos tornamos atores, diretores, cenógrafos, produtores e público. Tudo justificado tão somente pela nossa incapacidade de sermos quem de fato somos e, também, estarmos (conseguirmos, talvez?) inseridos em qualquer mundo social que seja. Conseguimos mais atuar do que efetivamente ser.
Nessa atuação contínua e constante, findamos por sublimar – para usar um termo freudiano – nossos mais intensos, secretos e obscuros desejos. Possivelmente ocultamos aqueles que nos doem mais: o desejo de saber. Desejamos saber a fofoca sobre o vizinho ou o colega de trabalho, desejamos conhecer aquilo que ainda não somos capazes de executar, ansiamos pelo dia da revelação em que todos os nossos anseios passem a ser justificados e racionalizados. Em uma palavra: compreendidos. Precisamos compreender pelo bem de nossa própria e particular (ainda que ilusória) sanidade. Contudo, nos contemos. E sempre o fazemos já que nosso agir nunca pode ser real, mas cínico – e até mesmo canalha algumas vezes. Nosso agir real, visto que inexistente, somente nos possibilita à contenção do desejo de saber. E, assim, contemos toda espécie de emoção possível: o choro, o riso, a raiva, a decepção, o desespero, a solidão, o abandono, a celebração… enfim, tudo o que for possível é sempre contido. Quase como uma consequência, contemos também nossa humanidade (claro, acreditando ainda que ela exista).
Se negamos um beijo, se cedemos ao mesmo beijo, se agredimos verbalmente, se ocultamos as lágrimas, se confessamos a paixão, se admitimos o ódio, se permitimos o silêncio, se sentimos… nada disso pode ser considerado como nosso real. Ou como alguma instância real de algo. São gestos, muito mais que ações reais. Gestos possíveis em instantes possíveis. Em outros instantes, outros gestos surgiriam. Nos confessamos amantes e nos revelamos distantes. Acreditamos na distância necessária ao mesmo tempo em que a negamos porque nossa incapacidade em lidar com as ausências exige a presença do ser gostado. Esse ser gostado, esse outro essencial, pode ser, sim, amado, esquecido, ignorado, cuidado, mas também pode ser, apenas, um outro indiferente. É o nosso ato teatral o responsável pela fala que poderá ser ocupada pelo outro. E, se não o quisermos, o outro existirá na medida em que for cabível a participação de um coadjuvante.
E, há ainda, que se considerar: quando não estamos imersos em um monólogo, os mesmos atos que praticamos servem – e em boa parte assim o são – como atos válidos do outro. Esse cínico coadjuvante se torna tão protagonista em nossas interações como nós próprios em relação a ele. Eis, então, apresentada a raiva em mais cinco atos. Ou dez, ou quantos mais forem possíveis. Frustrados, porque não é o real, mas o ideal possível e quase suportável, contemos, novamente, as emoções. Resta a raiva latente, pulsante, cortante e gritante a rasgar a frágil condição de humanidade que teimamos assumir como nossa. Ela, a raiva, fica lá, guardada, nunca exposta. Mostra-se apenas quando possível. Afinal, todo ato nosso não é outra coisa senão possível.
Nem percebemos chegar a hora dos “adeuses”. Dos longos, intermináveis, dolorosos e – inevitavelmente – possíveis “adeuses”. Talvez aí se perceba, do modo bastante rápido, uma certa delicadeza. Encararmo-nos como protagonistas e coadjuvantes exige mais um esforço em busca do adeus ideal. Entretanto, um adeus ideal não é possível. Por isso a delicadeza. Acredito que o mais próximo que nossa condição de humanidade nos permite chegar do real é no momento de um adeus. Por que despedir-se? Por que excluir o outro (e também ser cortado pelo outro) de outras interações? Por que não sermos mais capazes de manter o outro (ainda essencial? não creio…) junto de nós durante a execução de nossos atos? Porque não é mais possível, apenas isso. Despedir-se: ato delicado. Também ideal como os demais atos que praticamos.
No cotidiano é que sentimos essa idealização dos possíveis. Não queremos tantas coisas na mesma medida em que desejamos as mesmas e tantas outras. De um café amargo e requentado que tomamos (porque não há outro) até os mais excêntricos sonhos de consumo: titubeamos entre o querer e o negar esse mesmo querer. Porque nossos atos são cínicos. Se não queremos o café, porque insistimos em bebê-lo? Se ansiamos por infrutíferas interações, porque permanecemos negando o seu insucesso? Simples: cínicos e irreais são nossos atos possíveis e ideais. Precisamos deles, porque eles são os nossos possíveis. Entre um ato e outro, entre uma fala e outra, entre uma interação e outra existe o silêncio que, irresolutos, aceitamos. O vazio do que não foi dito preenche nossa condição de humanidade. Seguimos agindo acreditando que poderíamos ser mais, ter mais, poder mais, saber mais, sentir mais. Mais, sempre mais de um menos subtraído de nós mesmos: a impossibilidade de sermos reais diminui nossa capacidade de nos constituirmos através da pura e plena capacidade de sermos humanos em toda magnitude possível. E é somente isso: possível.