Sobre músicas

Sempre gostei de música. Desde menino-pivete. Não gostava das músicas feitas para minha idade. Nunca ouvi coisas bizarras como Xuxa, Mara Maravilha, Bozo (nem mesmo lembro se ele cantava) etc, mas confesso que ouvi muito o Balão Mágico e Trem da Alegria. Bom, digressões encerradas, porque o texto não é sobre infância, voltemos. MInha preferência sempre foi o rock and roll. Meu primeiro disco foi o Live after death do Iron Maiden. Acho que foi um bom começo. De lá pra cá (isso foi em 1989), passei por rock brasileiro, heavy metal, hard rock, rock progressivo, bluesjazz e por aí vai.

Passei a gostar de outras coisas também, como MPB. E ultimamente tenho escutado várias coisas da música brazuca, seja rock ou não. E, para minha estupefata surpresa, comecei a relacionar músicas ouvidas com o seu contexto de produção (talvez a Análise do Discurso prefira “condições de produção”), algo me me fez pensar muito seriamente. Quando o Aborto Elétrico cantava Veraneio Vascaína eles estavam criticando a polícia corrupta, quando o Legião cantava Que País é Esse?, novamente, a reflexão girava em torno da corrupção, dessa vez política, que impedia o Brasil de crescer. Década de 1980.

Há ainda outros exemplos. Zé Ramalho, ao cantar Cidadão, punha uma realidade bem conhecida dos pobres do país: a falta de acesso aos bens materiais e culturais que ele próprio – aliás, o eu lírico da canção – ajudou a construir. Talvez pudéssemos incluir uma certa referência a Cristo nos últimos versos. Caetano e seu Circuladô traz a música Fora da Ordem, refletindo sobre a “onda” da globalização que deixa os limites do estável para o ser humano reconfigurados. Uma leitura bem crítica do que a sociedade se transformaria por falta de um equilíbrio entre avanços, acesso à informação e outras coisas (não estou analisando nada detalhadamente, vejam a letra). O Chico Buarque e suas várias mulheres, as de Atenas, a Beatriz, a Carolina, a Bárbara e a esposa que não entende nada e sufoca o marido com o cotidiano, a rotina inescapável do casamento (e também não estou criticando essa instituição…).

Quantas letras falam de um amor não correspondido, de uma sociedade calada por imposição na década de 60, da rebeldia da Geração Coca-Cola, do vazio dos Anúncios de Refrigerante, das Lanternas dos Afogados que iluminam navegantes perdidos, dos amigos que se guardam do lado esquerdo do peito, dos amores de índio, das cores que enfeitam a paisagem vista pela janela do trem, do caderno que guarda segredos e deseja não ser abandonado, da luta dos jovens em não serem iguais aos seus pais, apesar do culto aos mesmos ídolos, das dores de oratório, do gavião que pega, mata e come, do tempo perdido, de estar tão feliz porque o amor atrai, do amor entre uma mulher de leão e um garoto de dezesseis, do amor que, simplesmente, invade e fim, do ra-ta-ta-tá ouvido pelo garoto que não mais pode ouvir os rolling stones, da garota bonita e cheia de graça, do Cristo de madeira que não dizia nada, e, para não dizer que não falei das cores, de todas as manifestações que criticavam o governo em diferentes épocas ou não criticavam, eram formas de expressão. Enfim, eram músicas com conteúdo.

Havia alguma mensagem nessas músicas. Eram expressões de um pensamento complexo, crítico, questionador, reflexivo, romântico, apaixonado, respeitoso. Seus compositores pensavam não apenas nas melodias e nos acordes que tornaram essas músicas sucessos; eles pensavam, principalmente, nas letras, no conteúdo de cada verso. Essa era uma das formas dessas artistas contribuírem com a construção de uma sociedade diferente. Uma sociedade que, endurecendo, jamais poderia perder a ternura. Afinal, reivindicar dias melhores era, igualmente, vivê-los apaixonadamente.

Pergunto-me: e hoje? Quais são os compositores que pensam e fazem música assim? Deus me livre escutar com fruição coisas do tipo “tô pagando pau”,”só as cachorras, as preparadas”, “vai rolar bunda-le-lê”, “você não vale nada mais eu gosto de você”, e outras coisas que o meu limitado intelecto se recusa a lembrar.

Se a música fosse apenas música, talvez não houvesse maiores problemas. Quer dizer, talvez eu não me incomodasse tanto. Todavia, isso não é verdade. Música não é só música. É algo mais. É reflexo do comportamento de uma sociedade, ou de grupos específicos da sociedade.

Obviamente não vivi o movimento estudantil de 60 ou 70, mas sei que os assuntos giravam em torno de discussões acadêmicas sobre pensadores como Marx, Freud, Foucault e outros. As discussões eram embaladas por músicas, ou representados nas músicas. isto é, o pensamento de mudança, de crítica estava lá, presente de alguma forma. Qual pensamento se representa hoje nas discussões embaladas por músicas que tratam o homem como se estivéssemos no tempo das cavernas, em que ele “pega” a mulher e faz o que quer com ela porque ela não passa de uma “rapariga de festa”?

O que estamos produzindo com essa falta de censura em nossas músicas será (ou melhor: É) o que já vemos hoje nos noticiários: brigas entre meninas na escola, agressões gratuitas contra professores, massacres armados em escola… Não me entendam mal: não estou falando de censura dos orgãos do governo quando da época da ditadura. Falo uma censura do tipo ter vergonha em produzir letras de conteúdo tão baixo (nem me refiro a melodia, já que são todas iguais. Acho que um ré ou dó mudam vez ou outra por um lá ou um si) que propagam a cultura do vazio, do desrespeito, da vulgaridade, do insulto à condição humana. Uma autocensura, na verdade.

Gostaria de poder organizar um manifesto e que seu resultado permitisse a proibição dessas músicas bizarras e grotescas. Mas acho que só irei perder tempo com isso. Negativismo? Não, mas pensem comigo: se a maioria das mensagens de e-mail que você recebe são piadas, correntes, superstições e se a maior parte da leitura das pessoas que te enviam isso são scraps do orkut ou murais do facebook (sem contar com o inócuo – modesta opinião – twitter), como contar com a participação delas? (E não estou aqui atacando a tecnologia, entendam).

Não vou iniciar uma discussão sobre o uso da tecnologia e o falso argumento de que hoje as pessoas estão lendo mais do que antes em função da internet. Isso fica para outro texto (talvez) Só aponto que, estamos em uma encruzilhada: de um lado música ruim nos bombardeando, de outro as pessoas que escutam essas músicas e que, por estarem em uma encruzilhada, possuem quatro possíveis saídas, estão também na terceira saída. O que nos resta? Reclamar em alto em bom som e correr pelo único lado possível antes que isso tudo nos alcance.

Seria tão bom se ao invés de dizermos “você não vale nada mas eu gosto de você”, mostrando um amor incondicional por alguém que, supostamente não vale a pena, indagássemos: “e hoje em dia, como é que se diz eu te amo?”