Retoques

Toda dor sempre finda. Todo amor sempre começa. Tudo é sempre de novo. Nada há que não aconteça repetidamente. Mudam-se as cores, trocam-se os tecidos, renovam-se os modelos. Há sempre o mesmo insistindo em  ser diferente. Ou, há sempre o diferente apoiado no mesmo.

Funcionamos a partir de modelos já concebidos. É o que podemos fazer, é aquilo que conseguimos fazer. Nem mesmo há escapatória a isso, pois se houvesse, seria, também, repetição. Uma fuga repetida realizada por um outro caminho. Diferente? Sempre. Novo? Jamais.

Os amores são doces, são coloridos, são iluminados, são intensos, são para sempre. E um dia eles acabam e a dor inicia. Ela é cinza, amarga, não reluz mas possui a mesma intensidade do sol. Queima algumas vezes. Possuem um prazo de validade indeterminado até o instante em que a aniquilamos. E de novo ela finda, e de novo o amor começa, e de novo é sempre o mesmo.

Há retoques aqui ou ali. Inescapáveis. O existir é mesmo como uma sinfonia mal-composta. É monótono, é pesado, é sombrio e solitário. É o existir; e não pode ser diferente porque é o mesmo. Um mesmo que não é igual para cada um: existem os retoques.

Havendo ou não uma pincelada mais intensa, com mais cor, com mais profundidade, sempre existe um retoque. São eles que tornam o mesmo diferente. São os retoques que caracterizam o próximo movimento da monótona sinfonia do existir. E que nunca se pense monotonia como sinônimo de tristeza ou pesar. Um tom: é isso, apenas.

O tom do mesmo tentando ser diferente, o tom do diferente que já fora um dia o mesmo, mas nunca igual. Simplesmente porque as dores findam, os amores começam e tudo é sempre de novo.

É nossa inalienável condição de existência a busca pelo equilíbrio nesse abstrato pêndulo que – aos poucos – indica os passos prováveis de serem seguidos. Os caminhos só importarão a posteriori. Caminha-se, primeiro. Verifica-se o caminho durante o percurso, porque só então é possível o retorno ou o desvio. Só então é possível o óbvio: fazer o mesmo, o diferente. Aplicando retoques no tudo que é sempre de novo.