Ponto de equilíbrio

O que nos une como pessoas? As vezes as diferenças são formas tão mais intensas de nos unirmos, de estarmos juntos, do que aquilo que consideramos como semelhanças cruciais para uma boa convivência. Uma convivência múltipla, tão variada quanto as diferenças que nos unem. Estamos juntos porque nos apaixonamos, porque trabalhamos no mesmo lugar, porque participamos de uma mesma congregação religiosa, porque gostamos da mesma música, porque partilhamos, em suma, dos mesmos valores. No entanto, se nos olharmos atentamente uns aos outros, iremos enxergar que são as diferenças que nos mantém todos juntos.

A nossa capacidade de tolerar as pequenas falhas dos outros nos permite encontrar nesse outro, ou melhor, em suas falhas, algo que, na verdade, gostaríamos de ter e não temos. Um gosto absurdo por camisas floridas, a preferência por filmes estranhos, a capacidade de nos emocionarmos diante de uma comédia romântica hollywodiana, a inclinação por tomar sorvete comendo salgadinhos de queijo, o desejo de nos tornarmos tietes, ao menos por um instante, diante de um ídolo internacional ou mesmo a capacidade de ignorar uma celebridade quando ela está na mesa ao lado da nossa em um restaurante chiquerrímo não pedindo autógrafo ou cumprimentando-a. São nossos traços de personalidade. São os traços de personalidade do outro. São as diferenças que percebemos nos outros e as toleramos porque gostaríamos de ser assim, ao menos em parte.

Não nos enganemos pensando que o outro não sente nada disso e que esse sentimento é uma inveja doentia que deve ser combatida. O outro nos vê de modo semelhante. Ele deseja ter aquilo que temos e por essa razão esse outro nos tolera. É isso que nos une. É isso que nos faz sermos humanos. Não se trata apenas de enxergar aquilo que o outro tem e não temos. Trata-se de perceber no outro aquilo que não conseguimos ser e, por essa razão, nos aproximamos dele. Chegamos perto, fazemos desse outro nosso irmão de coração, nosso melhor amigo (ou amiga), nosso amor platônico, nosso companheiro de farras e festas, nossa paixão desmedida. É uma necessidade incrível essa que temos de elevar esse outro à condição de complemento essencial à nossa situação humana.

Nunca algo foi tão verdadeiro quanto a Lei da Física: os opostos se atraem. Hoje, essa Lei caiu no senso comum. É a justificativa para relacionamentos amorosos que, boa parte do tempo, não dão certo. Mas a verdade é que nos atraímos pelo oposto, pelo diferente porque necessitamos dessa diferença para a constituição do nosso ser. Precisamos incorporar aquilo que não nos é igual como forma de sobrevivermos no mundo, na vida social. Precisamos achar engraçado quando, em um bar, tomando um vinho ou uma cerveja, notamos uma mesa próxima na qual todos falam alto, riem, se abraçam, tiram fotos o tempo inteiro. Engraçado, sim. É a nossa forma civilizada de dizermos constrangedor. Aquele comportamento nos constrange, algumas vezes, porque não conseguimos fazer isso. É claro, esse é apenas um exemplo. Mas e todas as situações em que percebemos que nosso ser mais próximo não entendeu o enredo de um livro óbvio, ou não reconheceu a beleza de um jazz, ou ficou estático diante de um seriado de comédia americana, não achando a menor graça naqueles personagens surreais. Enquanto nos deliciamos por experimentarmos todas essas coisas, o outro mostrou-se impassível, indiferente. Acho que essa é a beleza: apesar de sabermos disso, por que não tivemos alguém como nós ao nosso lado partilhando o que nos delicia? Simplesmente porque não nos queremos duas vezes. Queremos o contraponto de nós mesmos para sabermos que somos únicos, especiais, exclusivos.

Ter alguém igual a nós mesmos ao nosso lado, me parece, é deixar transparecer, ainda que timidamente, que precisamos do outro para sabermos quem somos. Esse igual nos diz que não gostamos disso ou daquilo. Esse igual nos mostra que somos falhos em dizer a verdade, em negar um favor, em não precisar dar satisfações. E esse mostrar não serve para mudarmos, até porque, será que precisamos? Esse mostrar serve para nos desculparmos a nós mesmos dizendo, interiormente, que se o outro é assim, não devemos ou não precisamos mudar em nada. Só que no fim, essa relação entre iguais nos afunda em nosso “ser-eu-mesmo” para sempre, sem tolerância, sem desculpas, sem vontades de experimentar o diferente, não necessariamente a novidade.

Havemos de perceber, todavia, que há limites para tudo, porque mesmo necessitando do outro para nos complementar, temos também nossas reservas. Os nossos limites em relação à diferença do outro são tão frágeis que, insistentemente, evitamos ser invadidos por essa mesma diferença. Esse limite é o exato ponto em que nossa subjetividade se mostra. É onde nos reconhecemos como pessoas que são as diferenças para o outro. Sabemos disso também. Sabemos que é o nosso jeito contrário de ser que atrai o outro. E no momento em que deixamos o outro nos invadir com suas diferenças, sentimos que deixamos de ser nós mesmos e nos perdemos. Ao nos perdermos, perdemos também o outro, pois ele perceberá que já não é com um ser diferente que ele se relaciona, mas como ele mesmo.

Eu não sei se há alguém que partilhe dessas reflexões. Se houver, prefiro saber e estabelecer as diferenças antes de conhecer suas semelhanças comigo mesmo. Também não sei se há alguma espécie de verdade aqui. Não é pretensão minha. Prefiro pensar que o que nos atrai no outro são suas diferenças em relação a nós mesmos. Prefiro pensar que, mesmo através dessas diferenças, temos também limites. O ponto de equilíbrio entre o igual e o diferente deve ser encontrado por aqueles que se relacionam, e mais nada.