Perceber

Há um certo limite, por vezes inperceptível, nas ações humanas. Vezes grandiosas, vezes minúsculos atos sem sentido. Esse limite ultrapassa aquilo que é o senso mais comum do cotidiano do Chico. no entanto, mesmo nessa quase imperceptibilidade, há momentos e instantes em que tal limite se revela. Como  uma luz qualquer atravessando a fresta de uma porta entreaberta ou semi-cerrada. É aquele rasgo na escuridão quando ao acaso voltamos nossos olhares para ele. Por vezes, atentos, por vezes, distraídos. Olhos que pomos na finíssima camada de luz a se avolumar diante de nós, pasmos, por percebê-la.

Em tal preciso instante, o que antes era nada, desfuncional, avoluma-se e funciona qual guia para ações do porvir. Aquelas que nos definem rumos quaisquer ou os rumos definitivos em direção aos caminhos que seguiremos (optaremos!). Ocasiões como essas, da percepção do mínimo que se transforma em gigante, são dellicadas percepções dessa quase ínfima fonte de claridade. Fato: ela revela as ações do porvir. E pode ser qualquer coisa. Quer dizer: nossas ações, a se realizarem a partir do instante de lucidez instantânea, tornam-se capazes de definir o grau de delicadeza delas mesmas.

Tantas ocasiões sequer notamos que agimos para nós mesmos. Agimos para nos protegermos, para nos recriarmos, para nos reconduzirmos, para nos perdermos em lugares possíveis de um gozo maior com nossa particularíssima subjetividade. Um sorvete em tarde quente, dez minutos em um banco de uma praça debaixo de fresca sombra de uma árvore centenária, cantarolar músicas sem ritmos, errando a letra e a melodia, repetir incasavelmente o refrão… Isso nos transmite as nossas verdades. De fato, isso são nossas verdades, varridas, excluídas, esquecidas (e são muitas).

De uma forma ou de outra, nos reinventamos, nos recriamos, nos reconduzimos, nos perdemos. Lugares novos ou velhos, não importa. A roupagem é diferente. Nisso, também, consiste a delicadeza de nossos atos. Não, possivelmente, pelo ato em si, mas só e somente só, pela percepção do próprio agir em si. Perceber, parece, é como olhar o mesmo objeto, o mesmo ser, a partir de um lugar diferente, um ótica não comum. Cada instante conta. Mesmo os enfadonhos, tediosos e tristes. Os que não conseguimos descrever com precisão porque não os entendemos, porque nos feriram, porque nos fizeram mal. É a delicada percepção de nossas ações, sim, nossas. A minha humanidade me inclui no que enuncio ou talvez enunciou em função mesmo dela própria.

Decerto, se fossemos únicos no mundo, nem as perceberíamos. Mas não somos. Somos nós, com vários nós. Sempre somos com alguém, sempre o somos com nós e, certamente, é isso que torna o ato de perceber algo tremendamente delicado. Ações não existem encerradas nelas mesmas; estão intimamente conectadas á existência de um outro. E capazes somos de perceber minúsculos segundos de nossas ações, mesmo as que ainda virão (e sabemos que virão) e também as dos outros que estão aqui, lá ou acolá. Isso nos faz ser quem somos: percepção.

Acredito, posso me enganar, lógico, que ainda mais delicadas são as percepções das necessidades do outro. O mesmo sorvete, os mesmos dez minutos de descanso podem ser apenas aquilo que o outro deseja naquele minuto que passou ou está passando diante de nossos olhos fixos na fresta da porta que revela uma luz qualquer. E o outro sequer sabe disso. Eis a beleza: enxergamos o outro através dessa luz que surge da porta semi-cerrada e permitimos que isso nos construa e constitua como quem somos.

Atendemos uma necessidade mútua. Nos constituímos e construímos o outro nesse movimento de troca de percepções. Vivenciamos o processo de percepção. Vivenciamos nossa existência. Uma existência que exige um “bom dia”, um elogio, um dizer de saudade, ou mesmo o romantismo extremos da afirmação de que a presença do outro nos é necessária para nossa vivência e sobrevivência.

Não importa o que seja. Irrelevante é a ação, pois tantas vezes não fazemos nada. O silêncio também é uma forma de ação como também o é a quietude, a “in-ação”. Perceber  é a necessidade visceral dos que desejam reconhecer a delicadeza das ações humanas. Perceber não é enxergar necessidades ou ações, é ver o outro. E sermos vistos no outro e pelo outro também.

Essa troca nos reconduz, nos recria, nos perde, nos reinventa, nos deixa de ser o que éramos antes da percepção. Nos deixa ser o que éramos há um ou dois segundos atrás. Nos tornamos o outro de quem o outro, e nós mesmos, precisamos. Porém, o fundamental, é apenas isso: perceber. Sermos capazes disso.