Parcialmente

Parcialmente liberto. Hoje, agora, é assim essa sensação estranha. Mas também de incompletude, pois não há ainda que dizer completamente ou absolutamente. É fato que existe essa uma tal liberdade. Tênue, porém, é essa linha divisória entre o completamente e o parcialmente. Aliás, não pode ser diferente. Somos, apesar do que digamos, humanos. Todos somos incompletos, inconclusos. Todos somos parciais. Não há nada, não há ninguém capaz de nos privar dessa parcialidade, dessa incompletude, dessa inconclusão. Todavia, e isso é outro fato, há o Outro. Esse ser singular com uma habilidade indecifrável de nos fazer sentir absolutos. É esse outro, que também é inconcluso, que nos permite enxergar dentro dessa delicada linha que nos torna como pêndulos, buscando sempre ou um lado ou um outro. Nunca um lado e o outro.

É nessa busca que findamos por perceber o que há de mais profundo em cada natureza que nos cerca. Nunca diremos, sem incorrer no risco de uma hipocrisia das palavras, que temos uma única natureza. Somos parciais e se assim o somos, possuímos naturezas diferenciadas. Ora coabitam pacificamente, ora desejam digladiar-se tentando prevalecer como vitoriosas no local que vivem: o humano. E somos desse modo. O Outro é igualmente assim. Relegamos, quando sentimos, qual natureza prevalece em qual momento. Quando sentimos é que percebemos que, distintas, diversas, diversificadas que sejam as naturezas permitidas a nos habitarem e a nos constituírem, é essa a única verdade humana: precisamos de um Outro. Precisamos das naturezas do Outro, inclusive daquelas que se engalfinham a cada centésimo de milésimo de segundo de nossa existência.

É no Outro que vemos a suavidade de um sim, a força de um não, a sutileza de um talvez. É no Outro que nos encontramos para nos vermos e nos enxergarmos como realmente esse outro nos reflete. E ainda existem os momentos em que nos percebemos no Outro e, por vezes, também o deixamos perceber a nós mesmos. É um jogo, não esqueçamos. Sempre escolhemos o Outro, suas naturezas e seus momentos de nos perceberem. Semelhantemente, também escolhemos nos perceber no outro. É novamente essa linha tênue, finíssima, que nos separa dessa completude esperada. Ou mais ainda, de uma liberdade completa e absolutamente esperada. É o jogo.

No movimento que faz o pêndulo, é lá que nos identificamos. Não estamos nem de um lado, nem estamos do outro lado. Estamos sempre em um movimento contínuo de uma eterna busca de completude. Nisso, também, devemos considerar como parte do jogo. E nossas naturezas complexificam-se ainda mais quando percebemos que além de nós e do Outro, existem ou outros e os Outros. Aqueles que num instante fugaz percebemos ao nosso lado porque escolhemos admirá-los enquanto, insisto, perto de nós, esses Outros ressonavam, deixando-se entregues. Uma entrega tão profunda que nos tornamos incapazes de desejar mal, fazer mal, tampouco pensar algo de mal. Pois, se assim o fizéssemos, estaríamos o fazendo a nós mesmos. Afinal, são esses outros que nos completam. São esses outros e Outros que nos são também.

São eles que vivenciam conosco a rede intrincada de relações humanas que nos cortam a alma tão delicadamente. São eles que possibilitam esses cortes que levamos conosco durante as horas e os dias que se passam. Esses outros, que vemos chorar, rir, abraçar, argumentar, seguir nossos devaneios, são os mesmos que lá estão, silenciosos, pacientes, tolerantes, esperançosos diante do palco iluminado no qual, parcialmente libertos, encenamos nossos atos, muitos deles até falhos.

É esse o jogo. Falhar sempre para no Outro e nos outros encontrarmos as correções que precisamos para atuar primorosamente. E não falemos de máscaras, já que esse é um lugar comum. Falemos de papéis que desempenham nossas naturezas. Não falemos de atores, pois esse é também uma fala comum, até mesmo política. Falemos tão somente dos instantes que as naturezas tão diversas, minhas e dos Outros encontram espaço para se entreolharem fixamente e decidirem qual prevalecerá.

Há os momentos da satisfação do Outro. Preciosos instantes nos quais renunciamos uma vontade pessoal imperiosa apenas para ver um quase-deslumbramento nos olhos do Outro. Um doce, um abraço, ou mesmo um bom-dia são capazes de fazer reluzir o mais opaco dos olhares. Instantes em que optamos por seguir adiante mesmo sabendo, ainda pela força da vontade pessoal, que o nosso esforço em precisar do Outro é tão menos grandioso do que a opção feita por essa criatura essencial em estar ali, transformando os minutos únicos de sua existência em minutos múltiplos de um estar-conosco.