Paradoxos

Apenas nascemos de fato ao morrermos. Toda a dor que passamos, todas as lágrimas, todos os sorrisos, todas as deixas (ou queixas?) para nos tornarmos alguém são, frequentemente, ignoradas. Com o tempo. E só nos é possível perceber que nascemos no exato momento em que – quase como Brás Cubas – nos isentamos de tudo e conseguimos perceber toda a paisagem que já nos passou. No vislumbre da morte.

Talvez seja um defeito. Talvez seja imaturidade. Talvez sejam as circunstâncias. Talvez seja genético. É possível que em nossa codificação de seres humanos exista um gene que determine que o nosso nascimento somente seja possível quando nos afastamos, quando deixamos de ver o óbvio e passamos a perceber o oculto, os implícitos, as nuances de cada instante.

E isso soa uma tarefa hercúlea para o material fraco e frágil de que somos feitos. Mas também não é defeito, é apenas parte. E de que mesmo importa se nascemos apenas ao morrermos? Vivemos de qualquer modo. Não há certo ou errado; há apenas o jeito de conduzir o que é possível.

Isso é paradoxal. Nascer é já, em si mesmo, viver. E morrer é constatar aquilo que nos recusamos a enxergar durante os dias todos em que acordamos e vivemos. Morrer é constatar que no último minuto que nos resta percebemos o quão grandioso foi o nosso nascimento. Ou, o quão grandioso foi aquilo que consideramos como prenúncio da inevitável morte.

Não se pense a morte como algo triste, soturno, irremediável. Aqui, ela apenas é o lugar da percepção do real nascer. Do reconhecimento de um parto longo, de vários anos. Nascer é o instante da percepção da morte. Morrer é o momento do reconhecimento do nascimento.

E que também não se pense a morte – aqui – como o fim da vida carnal. Morrer é todo o simbolismo inerente ao reconhecimento de algo que já passou. E – possivelmente – nem mesmo estejamos (sejamos?) corretos ao falarmos em nascimento. A probabilidade da certeza concentra-se muito mais em considerarmos o renascer.

A cada instante de morte, renascemos. A cada passo em direção à fuga da dor, a cada caminhada em busca de uma alegria, de um prazer, de um momento fugaz é quando morremos. Morremos de uma vida, iniciamos outra. Repetidamente agimos dessa forma. É o que nos sustenta, é o que nos mantém vivos, é o que nos permite nascermos em fases distintas (se é que são mesmo fases…).

Não existe permanência no viver, no nascer e no morrer. São fases. Ou, ainda, são permanentes as fases de vida, de nascimento e de morte. Inescapáveis, até. São fases, são modos de perceber, são formas de considerar. O tolerável de nós mesmos é somente dado a conhecer quando morremos, simbolicamente, a cada troca que realizamos com o doloroso prazer de nascer.