Onde vivem os monstros

Em algum lugar, usualmente bem distante, bem escondido, habitam em nós monstros gigantescos. Não são assustadores até que os encaremos fixamente. Eles nos olham de volta e aquilo que deveria ser a nossa pergunta única, exclusiva, absoluta, torna-se – apenas isso – o silêncio. Aquilo que deveria deixá-los amedrontados porque ignorariam a resposta as nossas perguntas é a causa de nosso vexame, de nosso calar, de nosso medo. Diante de uma pergunta que não fizemos, simplesmente calamos.

É também nesse lugar ermo, quase inabitado que percebermos nossa responsabilidade. Nós os alimentamos. Nós os criamos, nós os educamos até que eles consigam se adequar às nossas exigências mais singulares. Há, todavia, um ponto, um trecho, uma parte desse processo em que nos permitimos sermos, por eles, devorados. Tantas vezes olhamos com compaixão paterna, querendo compreender a razão de tamanha feracidade, de gigantesco apetite, mas falhamos no primeiro gesto de aproximação. Eles nos devoram antes mesmo de compreendermos suas ações. As que os ensinamos.

A cada palavra calada na boca, a cada silêncio travado na garganta, a cada choro engolido são eles a nos devorar. E os educamos para isso. Nem mesmo sabemos se o seu habitat é tão mais irreal do que as traves impostas por esses filhos que vivem nas sombras. São nossos filhos, educados ou mal-educados: inevitáveis crias. Aprendemos a lidar com eles, com todas as limitações possíveis. As nossas.

Se nos aproximamos de súbito, nos assustamos. Desconhecida é a reação. Talvez bem violenta. De um só golpe os monstros que cultivamos nos encarceram e nos engolem. Deixamos de ser predadores e nos tornamos presas. E vivemos desse modo, com receio do que criamos. A criatura supera o criador não por possuir mais ou melhores qualidades. Apenas por ter compreendido o medo do criador diante da obra criada. Da criatura em si.

Se devagar chegamos diante deles, como querendo fazer as pazes após uma querela qualquer, o pavor é ainda maior por desconhecermos as reações. O que se revela e se desvela aos poucos pode assustar ainda mais do que o susto do ímpeto e da surpresa. Parece que a lentidão cria um suspense indesejável, um mal-estar, uma náusea. É como uma morte lenta que sabemos irá acontecer. Uma ruminância em direção àquilo do qual não é possível escapar. E cedemos. Deixamo-nos ser presas fáceis.

E, ainda, se desejamos esperar, observar, analisar, prever o possível entreolhar entre criador e criatura, falhamos também. São olhos que não se enxergam mais. Há nesse mesmo lugar ermo tantas e diversificadas direções que não existe mais espaço para entreolhares, para uma percepção das intenções, para um reconhecimento das reações. Mútuas ou singulares. Nós criamos e educamos os nossos monstros.

É nesse lugar bem escondido que reconhecemos aquilo que nos tornamos diante do que não escolhemos. É nessa comunidade habitada por nossos filhos alimentados, criados, educados que nos tornamos estátuas impassíveis diante do medo ensinado. Daquele que ensinamos. E nem mesmo sabemos o por quê de o termos feito. O fizemos.

Não há escape senão perceber e aceitar que parimos os monstros que nos assustam e nos devoram. Como também não há escape em admitir que, embora parimos sozinhos, nunca concebemos em isolado. Os nossos monstros são nossos filhos. Eles têm pai e mãe. Eles têm pais. São frutos gerados a partir de nosso encontro com o outro, essa inescapável figura constituidora de nós mesmos.

Até mesmo eles – os monstros – nos são inescapáveis (indesculpáveis?) representações de todas as formas sem forma que se moldam larga e lentamente para nos formarem quem somos. Não são nossos reflexos, são uma ínfima e mínima parte refratada do que poderíamos ou desejaríamos nos tornar. E até mesmo o fazemos. Incorporamos um modo assustador de concebermos o nosso ser em vida. Monstruosa? Sim. É a nossa.

De fato, existe um lugar bem escondido onde habitam os monstros que não nos assustam até que os olhemos fixamente. Vê-los, reconhecê-los, ser por eles assustados é somente isso: reconhecer aquilo que nos tornamos diante do que não escolhemos. Monstruoso? Inevitavelmente.