Normose

Há algum tempo atrás recebi um e-mail muito legal sobre uma nova “doença”: a normose. Essencialmente, a mensagem dizia que, em tempos de respeito às diferenças, a normose poderia ser definida como a doença de ser normal. Mas, o que é hoje ser normal?

>> Veja aqui um post da revista Superinteressante sobre o assunto.

Hoje se prega o respeito às diferenças até o limite. Se alguém é homosexual, deve-se respeitá-lo, se uma criança é ativa ao ponto de aborrecer outras pessoas, há a justificativa de que pode ser hiperativa, se um chefe é sisudo, é porque deve ter problemas em casa, se um adolescente é emo, justifica-se pelo fato dessa ser uma época em que se deve experimentar as coisas para se definir a personalidade, e os exemplos podem crescer quase indefinidamente.

Pessoalmente, isso tudo é bobagem. Uma forma que encontraram de justificar certos comportamentos absurdos em favor do respeito a diferença. Considero bobagem porque nesse grosso caldo de insensatez, não se percebe a falta de valorização que o ser humano em si vem ganhando. O respeito não é mais com o José ou a Maria, mas com sua condição de mulher falada ou homem gay.

Por favor, não me entendam mal. Não estou aqui falando mal dos gays ou das mulheres sexualmente independentes. O que chamo atenção é para o fato de que, nos dias em que vivemos, os rótulos, as categorias, são mais importantes do que a essência do ser humano. Propagandas não faltam defendendo isso ou aquilo, essa ou aquela condição. Mas, onde fica o ser humano que se constitui, também, através de outras coisas? Parece que se perdeu no meio de tantas etiquetas.

E por falar nelas, também por etiquetas, dessa vez não metaforicamente, se reconhece um grupo por elas. O grupo das marcas famosas, dos gostos requintados, dos vinhos diferenciados, de tudo o mais que se possa identificar através de uma etiqueta.

Aí, nessa prateleira de supermercado gigantesca que se transformou a humanidade e as relações sociais, não há mais espaço para as pessoas doentes de normose. Aquelas pessoas que não se definem por rótulos, títulos ou etiquetas. São aquelas pessoas que não conseguem evitar e demonstram estarem tristes, com saudade, com “dor de cotovelo”, ansiosas, inseguras, melancólicas, às vezes de mau humor com a vida, os estudos, o trabalho, a vida a dois, enfim.

São pessoas que estão doentes por serem… seres humanos. Por sentirem o vazio que muitas vezes a vida lhes impõe ou até eles próprios se impõem, pessoas que se entristecem porque não sabem falar de coisas importantes como a luta constante dos grupos minoritários, a liberdade de expressão dos GLS ou mesmo do discurso pró-natureza… Ora, novemente, não desmereço tais assuntos, apenas acho que existem coisas tão ou mais importantes quanto isso.

Existe a vontade de se confiar no vizinho ou amigo para lhe confidenciar um segredo bobo, a vontade de chegar em uma loja e ser atendido por um belo bom-dia não invasivo, a necessidade de ser respondido pelo médico de forma adequada (para não dizer atenciosa), o medo de contar aos pais que a virgindade foi perdida ou que o namorado/a está causando um sofrimento grande, ou mesmo aquele desejo enorme de ver o cachorro saltar de alegria quando se volta do trabalho. São coisas simples, bem tolas, mas que fazem uma diferença enorme em um mundo que não tolera mais tais manifestações tolas.

O mundo que deveríamos viver está se tornando um pesadelo. Um pesadelo de rótulos, de coisas importantes que não passam de preocupações vãs, de ações que ao invés de aproximarem acabam afastando as pessoas. Qual foi a última vez que saímos com alguém do trabalho para dizermos que estamos ali somente para “jogar conversa fora”? E a última vez que nos encontramos em uma discussão sobre os efeitos da coca-cola para alguém com prisão de ventre?

O mundo precisa de bobagens. Nós precisamos de bobagem. Não podemos insistir na perpetuação de comportamentos que defendem, respeitam, exigem de nós uma postura diferente SEM QUE, também, saibamos respeitar a tristeza, a melancolia, a saudade alheias. Que saibamos respeitar os grandes grupos, mas que respeitemos, igualmente ou com maior intensidade, os pequenos grupos. O grupo de pessoas que está ao nosso redor querendo um pouco de atenção, muitas vezes negligenciada por nos ocuparmos com as grandes coisas do mundo.

Não sei, mas acho que sofro de normose. Há lugar para muitas coisas na vida de cada um. Prefiro ficar doente do que me ocupar das grandes coisas do mundo e tentar ver as pequenas.