Limites

Há em nós uma peculiaridade, no mínimo, interessante. Chama-se limite. Os limites que impomos a nós mesmos e aos outros para nos protegermos de sabe-se lá o quê. É um certo quê de profano, de místico, de insondável nisso. Talvez, nenhuma das palavras que usamos possam, efetivamente, explicar a razão pela qual impomos nossas barreiras diante do outro. E, certamente, não há necessidade disso, da explicação. Sabemos apenas que impomos limites, e pronto.

Considero que esse não seja um defeito, nem tão pouco uma qualidade. Creio, até que possam me provar o contrário, que impor limites é intrínseco ao ser humano. Quantas estórias e quantas Histórias circundam as vidas ao nosso redor? Há tanto mais que não é sabido por nós em relação aos outros e mesmo até por nós mesmos. Por isso os limites, as barreiras, é nosso jeito de dizer: “é possível ir até esse ponto, e só”. É porque, nesse ponto, reside a nossa fragilidade. Contudo, não se pense fragilidade como fraqueza, mas como algo que não sabemos como lidar.

É a incapacidade característica de cada um de poder não enfrentar aquilo do qual não se conhece. Um insulto, um elogio, um choro, um riso descontrolado, um silêncio… Cada um sabe a exata forma que todas essas coisas podem tornar-se ou agigantar-se dentro de nós. E por não sabermos o que fazer com isso, impomos os limites.

O curioso é que mesmo impondo limites para isso ou para aquilo, findamos por impor limites a certos acontecimentos que, idealmente, não deveriam possuir limites, barreiras. O sentimento por alguém é um desses acontecimentos memoráveis. Todavia, impomos. E impomos, também, por não saber como lidar com isso. Não é que não saibamos lidar com o sentimento em si.Isso é claro para quem sente algo. A questão é que devido aos medos, aos receios, ao que passou e não foi agradável, o fato de estarmos sentimentalmente ligados a alguém nos incomoda. E é assim por não sabermos quais limites impor ou mesmo se devemos impô-los. Mas eis que surge a questão: se impomos limites, perdemos algo? Ou perdemos algo se não impusermos os limites? Ou ainda, no processo contínuo de imposição ou falta de imposição, perdemos ou ganhamos?

É possível, quase certo, quem saberá… que perder ou ganhar torne-se irrelevante. Afinal, em um momento ou outro, haverá uma imposição, mínima que seja, sobre algo. Somos assim, defeituosos – se é que posso dizer isso – por natureza. São esses defeitos que nos tornam quem somos, que permitem serem reveladas as subjetividades, os vícios, os enganos e desenganos de nossa condição. Sem limites, não há individualidade, sem individualidade, não há subjetividade e sem subjetividade, o óbvio: não há sujeito.

Melhor sermos cheios de limites do que não o sermos. Há, claro, que se estabelecer os limites para imposição dos limites. Entretanto, isso não implica não sermos neuróticos, ou absolutamente normais, seja lá o que isso signifique.