Interdiscursos

Ando-me às voltas com um conceito particularmente caro à Análise do Discurso: o Interdiscurso. Quem de fato tiver interesse acadêmico, não faltam artigos, teses, ensaios, livros e dissertações sobre o tema, seja na grande rede ou nas livrarias. Minhas reflexões ficarão no nível da quase obviedade para a maioria já versada sabe sobre o assunto. E nem mesmo é pretensão minha ir além disso.

Tudo já foi dito. Nada do que dissemos é nosso, nossa propriedade. Sequer temos a capacidade de criar algo com as palavras. Quem sabe um arranjo aqui, ou acolá e – abracadabra! – iludimo-nos acreditando na nossa (pseudo)inédita criação, artística ou não. E não nos enganemos: de um banal “bom dia” ao mais rebuscado “agradecemos a vossas senhorias a ilustre presença nesse simplório recital poético”. Tudo, tudo já foi dito.

Não podemos sequer gozar da prerrogativa do ineditismo. Nossas reclamações, nosso furor contra a injustiça, nosso posicionamento diante do que cremos ser possível mudar, nosso instinto de sobrevivência, nossa eterna busca por um algo melhor, nosso deleite em tentarmos agradar um outro qualquer… Tudo, simplesmente, já foi dito.

Nesse vão do já dito, que é um vazio de significações porque essas já se perderam ou se diluíram de tanto serem usadas, acabamos sempre os mesmos. Quer dizer, os mesmos porque é através do dito, da palavra proferida que nos construímos. Findamos, por assim dizer, por não sermos originais. Não há nada de novo em nós. Nosso dizer – e que se tome por discurso isso – é tão ferozmente vazio que só os ruídos de uma vírgula ou de reticências são capazes de permitir que se crie um algo novo. Interessante, pois nas pausas e nos silêncios é que – considero agora – surgem os mais rebuscados significados. Aqueles que podem mesmo ser tidos como a novidade. (Creio ser isso também uma ilusão).

O novo não é o dito, mas o silêncio. O calar por cansaço de insistir em desvendar o que já não se pode mais. Os segredos foram revelados, as mentiras foram descobertas, os ocultos não mais pairam na escuridão: tudo é às claras. Aliás, tudo é já dito. Não se busque mais o desbravamento: o óbvio já existe por si só. E não há além dele.

Tome-se uma carta de despedida (nos tempos de Internet, assuma-se o e-mail como gênero transmutado). O que ela contém de novo? São formas parafraseadas de dizermos: adeus. Os motivos variam entre o desespero de não suportar mais as angústias de tanto vividas e o libertar-se de dores tão vívidas experimentadas. Às vezes, um ou outro pedido de desculpas e, de culpas, partilham-se as partidas e as separações. Tudo já foi dito. No medievo, possivelmente, menestréis e senhoras acrescentavam poucas palavras dentro de um escopo de acesso à cultura limitada. Hoje, expandem-se os sentimentos com, quem sabe, emoticons.

Ou ainda, Pessoa já falava de cartas de amor e disse delas: são ridículas. E o são, sim. Ridículas, patéticas, monótonas e… não inéditas. “amo você”, “você é tudo para mim”, “quero expressar todo meu sentimento por ti”. Já dito. Não são ridículas pelo sentimento. Elas são por já terem sido escritas, ou melhor, ditas. Longe de mim querer discorrer sobre enunciado e enunciação. Já disse (Ah! o óbvio…): estou beirando o nível da quase obviedade e redundância.

Por que rimos de piadas? Simples: nos fazem rir. E só nos fazem porque um dia, qualquer domingo ou terça-feira, já, de algum modo, vivemos a situação. Ou a presenciamos. Não é o inusitado da piada, a surpresa, a distorção do óbvio: é aquilo que já foi dito.

Já ouvi muito: “não me sinto preparada(o) para isso”, “não estou confortável com essa situação”, “não quero falar sobre isso”, “não é nada”, “vamos mudar de assunto…” O que todas as sentenças me indicam resume-se a uma coisa simples. Isso é o que podemos dizer: já passei por isso, não quero passar novamente. É o mundo das experiências entrando em conflito profundo e inegável com o mundo da razão. É o dito. O que já foi dito. (Caberiam aqui os esquecimentos de Pêcheux?).

E, se escrevo agora, não é para ser novo. Mesmo porque isso seria uma contradição. Simplesmente, é um ensaio para afirmar com minhas palavras o que tantos outros já disseram. Há um propósito? Nenhum. É um ensaio. Não há mistério nas palavras, há somente a recuperação de ditos esquecidos. Neles é que se cria o sentido (ou ao menos a sensação?) do novo. E seguimos, crendo piamente que dizer é o que nos liberta pelo fato de ser novo. Não. Dizer não liberta. Ouvir o já dito indica caminhos. Iremos percorrê-los sempre? Não tenho resposta, afinal, cada um parafraseia, diz o já dito conforme suas conveniências.

Nada melhor do que um vinho, após confirmar o óbvio: tudo já foi dito. In vino veritas.Até que finde o porre!

(E, não. Esse texto não está terminado.)