Inércia: desculpável

Não é o movimento que nos impulsiona a seguir adiante. É o seu oposto. O mais pleno e sincero travamento diante do que nos é impossível modificar é o que nos move. Estar parado, estar quieto, estar imóvel, ser quase imutável por uns segundos é a alternativa lógica capaz de indicar o exato instante em que mudanças precisam haver. Mudanças nem tão significativas, apenas suficientes para que saíamos da inércia, do lugar de sempre e nos movimentemos em direção ao que não se sabe existir depois da esquina.

Ser inerte é o que explica as possibilidades de criação do diferente, não necessariamente novo. Ou estar inerte é que o explique… Ainda não me foi revelada a diferença essencial entre o ser e o estar diante do mundo. Sei mesmo se um dia o será? Acredito que “sertar” devesse ser um verbo. Ele definiria os movimentos pendulares nesta troca de papeis entre o ser e o estar. Afinal, somos-estamos sempre alguma coisa. De desconhecida.
Ser inerte, estar quieto, estar travado, ser imóvel… São estados e ações que permeiam nosso lugar de existir no mundo, na vida e mesmo no que ainda há de vir – e pode ser mesmo a morte. E como não estar na morte? Como não sê-la? Simbolicamente, a morte caminha conosco, bem próximo, como se fosse um parente próximo ou mesmo uma melhor amiga. Não pensar nela, não falar sobre ela é perder tempo, um que já não temos. Ela é tão inevitável – a simbólica – quanto nossa inércia ou nosso desejo de movimento.
Agrada-me pensar na morte junto com a palavra tênue. É delicada, tem pouca espessura mas ainda assim é tão grandiosamente avassaladora que em conjunto com tal vocábulo estabelece um rico paradoxo. Há quem sequer perceba isso. Mas a nossa incapacidade de agirmos em certas circunstâncias é uma morte simbólica. Quando silenciamos, decretamos o nosso fim diante do outro que nos fala. Quando consentimos por não saber o que fazer, como agir, de que modo pensar, esse é o nosso suicídio. E nada há de absurdo ou anormal nisso. Somos nosso algozes, nossos juízes e executores. Ninguém há de desempenhar tal papel a não ser nós próprios. Se há mal nisso? Neurose ou paranoia? Nenhuma. Somos a medida exata daquilo que podemos ser – ou estar – nesses instantes.
Por isso, crer que o que nos impulsiona a seguir adiante não é o movimento das ações, mas uma resposta à nossa inércia e travamento diante de nossa própria morte simbólica, diante de nosso suicídio pessoal, particular e necessário é um modo relativamente saudável de compreendermos o porquê de não reagirmos, de não respondermos quando não conseguimos. Claro, há sempre os contraditórios. Há sempre os defensores do “avante!”, “não se deixe abater”, “reaja” e similares. Porém, quantas vezes nem conseguimos alcançar a primeira sílaba de tais palavras encorajadoras? Muitas. E é apenas isso. Porque somos feitos de nós mesmos, com pitadas agridoces de outros… Nossa mistura é heterogênea e fraca. Tentamos (e como o fazemos…) solidificar essa matéria tão insípida de que somos feitos. Não há defeitos, que se esclareça: há apenas humanidades. E travamos muitas vezes. E morremos muitas vezes. E outras renascemos, pois não há nenhuma desculpa para que isso não ocorra.