Idiossincrasias

Idiossincrasia é uma característica comportamental ou estrutural peculiar a um indivíduo ou grupo. Me agrada o dito cujo termo. Características peculiares de um indivíduo. Somos idiossincráticos por natureza, isso é o óbvio. Mas há também o espelho. Objeto que nos reflete e por vezes refrata as mesmas características peculiares dos outros. Curioso, porque, do mais absurdo acaso, não é apenas uma imagem distorcida que vemos, mas o reflexo nítido das mesmas peculiaridades que temos, que somos, nos outros que surgem feito tempestade não prevista.

Ao mesmo tempo em que temos as nossas idiossincrasias, as encontramos nos outros. Isso é faca de dois gumes. Corta com gozo intenso e fere com dor profunda. Porque de fato, o que não queremos é ser diferente. Queremos a impossível e fictícia ilusão de sermos iguais. Não o podemos. Mas ainda assim nos encontramos nos outros, nas peculiaridades dos outros.

Penso que as pessoas são curiosas. Elas são cheias de culpa, de medos, de desejos, de coisinhas escondidas que, vez ou outra, surgem. Na verdade, desabrocham. É como uma árvore que só revela suas flores uma vez por ano, por dia, e você precisa estar lá para ver. Ali, naquele momento, é como se nada mais existisse. Só o evento que por si só já é o bastante. As idiossincrasias, as peculiaridades também são assim. As nossas, de todos nós. Precisamos estar lá para vê-las. Se aceitaremos ou não, essa é outra questão. Não merece ser discutida agora.

Importa que somos peculiares. Cada qual leva consigo uma neurose, um segredo, um detalhe que somente pode ser percebido no exato instante em que nos encontramos nas mesmas peculiaridades dos outros. São dos outros, mas também são nossas. É o espelho de que falei. Por vezes ele refrata – mas não é culpa dele, nossos olhos enxergam o que desejam – e por vezes ele reflete. Interessantíssimo, pois só somos idiossincráticos a partir do outro que nos observa e aponta o que nem mesmo conseguimos, diante do espelho, enxergar.

Por isso gosto do outro. Dos outros todos que compõem e definem minhas peculiaridades. E também nisso há um certo ar de saudade, já que nos sentimos falta. Sentimos falta de quem de fato podemos ser ou mesmo somos. E uma revolta também (ou impotência?), porque nunca podemos ser sem o outro. E fica assim, a saudade de sermos quem não podemos ser sozinhos e a saudade do outro que nos deixa ser quem somos e nos reconhecemos nisso.

Gosto das idiossincrasias.