Iconoclastia (ainda racionalizando)

É, e foi assim mesmo. Amplamente, iconoclasta é aquele que destroi ídolos ou crenças já estabelecidas. Algumas personalidades são iconoclastas: Joplin, Hendrix, Gandhi, Chico, Tom Zé, só para citar uns mínimos que de alguma forma admiro. Músicas são iconoclastas: “Eu uso óculos escuros/para minhas lágrimas esconder/mas quando você vem para o meu lado/aí as lágrimas começam a correr”, “Pai, afasta de mim esse cale-se”,  “Um rei mal coroado não queria o amor em seu reinado/pois sabia não ia ser amado”. Poemas são iconoclastas: “Vou-me embora pra Passárgada, lá sou amigo do Rei”, “Vede como primo/ Em comer os hiatos!/ Que arte! E nunca rimo/ Os termos cognatos.” É, pessoas e coisas são iconoclastas. Até mesmo movimento (pseudo ou não) sociais: a Anarquia pode servir como exemplo e mesmo a democracia que nos obriga a votar.

Mas e os que conhecemos tão ou quase de perto? Serão eles, também, iconoclastas? Quais a crenças e ídolos que eles nos quebram? Às vezes, parecemos sapos: inchados de orgulho ao considerarmos (coaxamos?) nossa absurdamente ridícula capacidade de desvelar o outro através de análises. Umas superficiais, outras nem tanto. E falamos o que consideramos ser o que o outro é. Falácia! O outro é, apenas. Nos perdemos tentando solucionar um mistério que não existe, um segredo que precisa ser revelado, uma imagem criada para alimentar o nosso inconsistente desejo de encontrar no outro aquilo que precisamos e defendemos como o certo…  no outro. Não há certo. Não há errado. Há apenas o outro.

Nesse movimento de gangorra de parque infantil, nos perdemos quando percebemos que as análises, os brutais comentários, as invasões descabidas da subjetividade deste ser que está, perto ou longe (porque não é a geografia que define bem esse espaço interior), sendo analisado por nossas falhas, acabamos sentando no lado mais baixo do brinquedo e surge o inevitável, aquilo que nos permite (permite?) acusar o outro de iconoclasta: a decepção da expectativa causada pela nossa arrogância.

Então, talvez não sejam os outros os iconoclastas, mas nós mesmos. Mais confortável seria nos mantermos em nossa zona limítrofe de conforto e aceitar que um comentário ou outro não fará mal, ou melhor, não será iconoclasta ao outro.

Ou, quem sabe, nos tornemos sábios e passemos a esperar a hora do outro. Uma hora que certamente não será a nossa, mas permitirá que esperemos que não haja expectativas. Elas nos tornam arrogantes, elas cobram do outro aquilo que ele, possivelmente, não poderá ou não desejará dar, falar, revelar, comentar.

Equilíbrio pode ser isso. Contudo, incomoda-me o fato de reconhecer em mim essa incrível capacidade de observação que me torna um iconoclasta. Que me perdoem aqueles cujos ídolos foram quebrados por mim, ou crenças que foram por mim desconstruídas e mesmo reveladas.

Sou assim. Iconoclasta. Devo assumir como verdade a estória do mito da verdade: ela precisa ser revelada aos poucos, com véus caindo lentamente durante o caminhar com os outros. Essa é uma delicadeza indescritível, e no momento uma iconoclastia para mim.