Estamos lendo pouco Dostoiévski

Há pouco tempo, li em uma de nossas revistas brasileiras de circulação semanal, uma caixa de texto com o mesmo título desse que ora escrevo. De antemão, empresto-me um pouco das considerações da autora responsável por essa observação sobre a leitura nos dias atuais para desenvolver um pouco algumas outras reflexões sobre os comportamentos sociais contemporâneos advindos das leituras situadas nessa mesma época, ou mesmo da falta de outras leituras.

Como profissional da área de Letras, nem mesmo discuto a importância do ato de ler. Isso deve ser óbvio. Algo já incorporado aos profissionais recém ou já há muito formados. Tento argumentar, e isso, sim, considero essencial, de um ponto de vista pessoal que, de certa forma foi construído a partir de um lugar que ocupei como estudante de Letras e, hoje, ocupo como profissional da área.

Tive contato com Dostoiévski na adolescência. Não fui e não sou um profundo conhecedor de sua obra, ao menos por enquanto, acredito. O primeiro trabalho que li do autor russo foi “Noites Brancas”. Segundo resenhas sobre a obra, trata-se de um conto (ou uma novela, ainda não posso precisar qual o mais adequado) sobre dois personagens que se encontram em uma ponte em São Petersburgo. Não reli a obra. Falo de uma perspectiva nostálgica, muito mais do que um lugar recente de lembranças sobre detalhes da obra. Recordo que me impressionou bastante o desenrolar da estória por me criar expectativas acerca de um possível final feliz. Mas, enganei-me. Não foi isso que aconteceu. Toda a expectativa criada sobre esse possível final feliz foi destruída. A jovem deixa o seu interlocutor e vai ao encontro de seu amor, personagem que só aparece de fato no final, que havia prometido voltar quando pudesse se casar com ela.

Por ocasião, pensei: “Que tipo de pessoa escreve uma estória sobre pessoas que, aparentemente, irão viver um final feliz juntas e, ao final, uma delas – apenas – encontra a felicidade?”. Coisas que qualquer um com poucos anos de vida pensaria. A felicidade não é pesada com a mesma medida para todos. E deixei Dostoiévski para lá. Havia muita coisa mais importante do que apenas um autor que me pudesse fazer entender a vida pela ótica da ficção.

O fato é que há três ou quatro anos atrás, deparei-me com o romance “Crime e Castigo” disponível em uma banca de revista. E logo decidi adquiri-lo. Já havia me formado em Letras e optado por ter algumas obras em meu acervo para lê-las quando a maturidade me permitisse. Ruminei o livro por alguns meses. Lembro de tê-lo começado ao menos três vezes e o abandonado. Na quarta vez, que não lembro exatamente quando foi, decidi iniciar e terminar. Confesso, a leitura demorou mais do que havia me proposto a fazê-la. Mas terminei o romance.

Inquieto, não pude deixar de pensar como era possível tanta culpa, tanto remorso, tanta miséria, tanta resignação, tanta baixeza de caráter, inúmeros gestos de submissão, respeito, preocupação… nas páginas de uma ficção. Havia tanta dor nos personagens que eles pareciam vivos, pessoas com as quais um dia cruzamos e julgamos, por apresentarem comportamentos dessa ou daquela maneira.

Assassinato é o que move a estória. Pobreza é um dos fios que compõem o cenário. Aliás, miséria descreve bem melhor todo o espaço em que se desenrola a trama. Não somente a miséria do espaço físico, mas a degradação moral dos personagens. Uma gente que, por falta de opção, por destino, por predestinação estava condenada à submissão dos instintos. No entanto, esses mesmos instintos foram superados por ações da consciência dos próprios personagens.

O que destaco é a construção dos personagens dostoievskianos e sua semelhança com pessoas reais. E mais, a semelhança de atitudes desses personagens com atitudes muitas vezes vistas e ouvidas por mim. Enxergar o outro a partir de um ponto de vista que não o de nossa própria constituição como sujeitos me foi determinante para poder entender um pouco sobre a pobreza e, principalmente, a fragilidade humanas.

Quantos sujeitos, perto ou distantes de nós, não sentem culpa pelo mal causado ao outro? Quantos sujeitos superficialmente conhecemos que não estão imersos em uma esperança de redenção? Quantos sujeitos não conseguem agir no mundo porque lhes faltam a determinação e certeza de seus “pecados lhes serão perdoados”? Quantos outros não aguardam o dia de se confessarem publicamente para poderem acolher os benefícios da benevolência daqueles que os amam? Quantos personagens que são idênticos aos caracteres da vida real…

Atualmente estou imerso em “Os irmãos Karamázov”, obra prima da tragédia familiar. Não posso adiantar muito, ainda não o terminei. Contudo, as considerações que faço sobre a construção das personagens é a mesma: miséria humana, ódio, loucura, tragédia, raiva, estórias paralelas de personagens secundários tão trágicas quanto as que não observamos no cotidiano, excessos, dissimulação, dúvidas… Deixo o restante em suspenso, principalmente para mim.

Mas, porque estamos lendo pouco Dostoiévski? Talvez seja simples a resposta, mas precise de um pouco de conhecimento sobre algum de seus trabalhos. O escritor vale-se de descrições longas e, para os desavisados, enfadonhas sobre o perfil psicológico dos personagens, sobre as ações da trama, sobre o cenário onde se passa a estória. Isso tudo, a princípio, pode parecer cansativo. Mas necessário para refletirmos um pouco sobre os mínimos e máximos detalhes sobre pessoas e coisas  ao nosso redor.

Em uma época em que as trilogias, as séries, as sagas e os best-sellers pseudo-eróticos estão na moda, ler literatura russa parece ser coisa de um passado quase pré-histórico. Bruxos que transitam entre o mundo real e uma escola de magia situada em um mundo paralelo, vampiros que brilham à luz do sol e jovens que assinam contratos delegando a outrem o tipo de prazer sexual que querem sentir são o divertimento de uma parcela que se diz leitora mas não consegue ter o senso crítico apurado para ver quão incipiente são essas “obras”.

É fato que gosto não se discute tanto mais quando isso é uma ação livre, resultante do livre-arbítrio. Mas consideremos: uma jovem que passa a ser escrava sexual de um homem mais velho é sucesso e uma adolescente que se deprime porque ama alguém (!) morto não são, necessariamente, metáforas exemplares da expressão “a vida imita a arte”.

Por que tantas mulheres leram “50 tons…”? Curiosidade sexual? Pode ser. Mas ter curiosidade sobre perversões pedófilas (ou quase isso…) expressa um certo traço de frustração dentro de um relacionamento. Não estou julgando ninguém, são fatos retirados de postagens de facebook encontradas em diversos sites. Já li várias passagens cujo discurso era sempre: “- Melhorei minha vida sexual graças a esse livro”  ou “Incrementei o sexo com meu marido com algumas ideias do livro”. Esse é, de fato, um retrato bem preciso da miséria humana. Se um casal não consegue explorar sua sexualidade, seja lá de que forma for, através do diálogo, carecendo de um livro de perversões sexuais para tanto, o que se tem não é um relacionamento. São apenas duas pessoas que estão juntas vivendo uma vida sem cumplicidade. Sexo é algo físico, mas também emocional. Se não houver conexão emocional para a realização do ato, o que existe é somente liberação de química no cérebro. Nenhuma fantasia romanesca pode ser superada pela fantasia real de duas pessoas que vivem um relacionamento.

E por fantasias reais, refiro-me a reconhecer no outro suas falhas, seus defeitos, lembrar das mágoas, das palavras rudes e ásperas ditas, perceber a incapacidade do outro de agir positivamente em certas ocasiões e, mesmo assim, fazer sexo com ele. Ah, se soubéssemos compreender que nesse ato sexual não se apagam as torpezas do outro, mas que o perdão cotidiano é a força motriz para execução de tal ato, talvez fossemos capazes de entender que estamos lendo pouco Dostoiévski.

Ou ainda, se compreendermos que a angústia vivida por uma adolescente que deseja o amor de um ser condenado a não morrer, amaldiçoado a não dormir e a beber sangue como fonte de alívio para uma fome impossível de ser saciada, entenderíamos que uma representação pelo desejo da imortalidade, uma fuga do tempo que nos obriga a sermos sábios com e para os outros que são parte de nós e uma desobediência fatal ao núcleo que nos permite sermos melhores em razão dos exemplos mostrados – a família – são apenas alguns dos elementos de uma trama que flui entre a desestruturação da subjetividade e o encontro com o ideal inexistente. Isso sem contar com a ridícula junção de um Drácula pós-moderno com licantropos bem distantes da Grécia Antiga…

A saga “Crepúsculo” mostra em enfadonhas, medíocres e, infelizmente, bem sucedidas linhas do ponto de vista comercial o que se está lendo atualmente. Não questiono o gênero literário ou o tipo de literatura. Não sou crítico literário e nem pretendo sê-lo. Falo do ponto de vista (já disse antes) de um mero leitor que reflete sobre metáforas possíveis de um mundo que não lê Dostoiévski. Em linhas gerais, a obra poderia compor a chamada de uma matéria policial de jornal: “Jovem deprimida por amor não correspondido tenta o suicídio, é salva pelo garoto bad boy que depois a leva para seu mundo transviado”. Só faltam mais quarenta e cinco minutos parafraseando a notícia acima para compor uma das reportagens especiais dos programas dominicais da televisão brasileira.

Que se entenda bem: não estou comparando os personagens desse livros com os personagens criados pelo autor russo em questão. Afirmo que, tão desprezíveis são os personagens do autor de “Crime e Castigo” que, de certa forma, podem prever a miséria e a pobreza de construção dos personagens dessas obras mencionadas.

A minha reflexão baseia-se mais no desejo de alcançar o impossível, de ignorar o que está próximo no dia a dia das pessoas, tão presente nas leituras atuais, que se deixa de lado as verdadeiras misérias reais e fictícias de nossa sociedade. Pessoas reais são retratos fieis dos personagens miseráveis de Dostoiévski. Só não foram devidamente retratadas em prosa. Pessoas que leem literatura comercial por acharem-na mais interessante do que enfadonhas descrições de traços psicológicos e espaços físicos deixam de lado a mais delicada obviedade da boa literatura: a arte imita a vida.

Infelizmente, o outro lado está sendo bem mais cultuado: a vida imita a arte. Pela superficialidade das pessoas, pelo desejo coletivo de mergulhar na superficialidade de conhecer o outro, pela repulsa em compreender as complexidades daqueles que nos estão pŕoximos, pelas paupérrimas metáforas contidas em ações de personagens inócuas é que penso: estamos lendo pouco Dostoiévski. E talvez Joyce, Machado, Clarice, Graciliano, Verne…