Esquecimento

Por mal ou por bem, nunca esquecemos. Nem o mal, nem o bem que nos fizeram. E resta, quase sempre, um sabor agridoce em nós. Vezes muito doce, são as memórias quase permanentes dos particulares instantes em que vemos o que de bom ficou ao nosso lado. Outras, o amargor das lembranças que nos perseguem.

De fato, menos importa distinguir se foram bons ou maus momentos. Resta somente o saber lidar com. Saber o que fazer com. Possivelmente, nem mesmo isso importa. Nunca esquecemos. Aliás, esquecer não nos é uma prerrogativa humana. Se fomos condenados ao livre-arbítrio, fomos, igualmente, marcados por essa marca indelével do não-esquecimento.

Seguimos sendo. Seguimos lembrando, nunca experimentando o luxo do esquecimento. Porque esse é um algoz inominável. Do mais puro e límpido nada do nosso pensar, surge o seu imperfeito antônimo: lembrar. Fere como lâmina afiada, desafia como ferida exposta, expõe como cicatriz aberta, revela como espelho iluminado. Impossível escapar do que a falta do esquecimento nos impõe.

Ora rimos, ora nem mesmo isso. Ainda que tentemos, não nos é parcial ou completamente possível. E de tantas facetas – como éramos, como poderíamos ter sido, como deixamos de ser – nunca conseguimos, efetivamente, sê-los. Ser esquecendo, ser não lembrando, ser apenas deixando de relevar (ou revelar?) o que lembramos.

São cadeias infinitas de pequenos gestos, de grandes ações, de incomensuráveis “algos” que impossibilitam um outro caminhar. Nunca esquecemos, sempre lembramos. Nunca permitimos por completo, sempre evitamos algumas partes. Talvez um duelo cujas regras não foram explicitadas. Ou, talvez, um explícito duelo sem regras. Nele digladiam-se o que já não desejamos porque repelimos e também o que pensamos querer porque rapidamente escolhemos. Em um ou outro caso, sequer conseguimos antever o que será parte do esquecimento e o que será parte da lembrança, mesmo porque o primeiro já não há mais. Nunca houve.

Se há um bem ou um mal, de fato, ambos são relativos. O meu bem pode ser o mal de outro. O bem de outro pode ser o meu mal. E ainda existe a possibilidade de que não haja bem algum. Sempre há um mal. E, novamente, não importa distinguir isso. Há sempre o mal. O do esquecimento, o do lembrar, o do amargor intransponível que nos permanece na boca.

E, quando podemos aliviar esse gosto, não o fazemos conscientes. Dormimos, trabalhamos involuntariamente o que nunca poderemos apreender e nos conformamos. Pois não há outra forma além dessa. Reféns que somos do que não conhecemos, do que não revela com clareza, tentamos nos adequar ao possível e suportável limite do existir inconsciente. É exatamente esse vulto gigantesco que nunca nos permite esquecer, que sempre insiste em nos fazer lembrar.

É essa sombra assustadora do que não sabemos sobre nós que insiste em impossibilitar nosso esquecimento. As lembranças de nós mesmos se diluem com o desconforto de não podermos esquecer (ou ser?). E seguimos sendo, pela metade, pela inconsistência de não sermos completos, por desconhecermos quem somos e o que não esquecemos.