Escrever

Porque escrever não é um alívio, mas um tormento a me consumir cada nervo tenso que me corta o corpo. Escrever não é aquela vontade de decalcar os sentimentos em uma folha de papel um dia já rabiscada ou mesmo em branco. Escrever é uma necessidade. Uma visceral necessidade de sanidade. No espaço vazio da folha em branco não me encontro, não me alivio, não me busco. Disperso-me por inteiro até que nada de mim sobre e tudo possa, ilogicamente, ser reunido. Não há partes coerentes. Há somente partes. Há partes de mim, há partes do outro, há partes dos Outros. São todas elas que constituem essa escrita, que não me pertence. Nenhuma delas constitui o meu ser, que também me é tomado pelo ato único, próprio e singular de escrever.

É sina, é castigo, é ansiedade. São traços de um discurso reunido? não é o meu discurso. Escrever é lugar onde não falo. Calo-me diante do que pode vir a ser o que nunca pode tornar-se um dia. Quem sabe se o será? Tornar-se-á. Ninguém. É nesse espaço de angústia que reúno os pequenos detalhes capazes de me tornar invisível. Entre mim e o que escrevo há o espaço. No interior desse espaço há cantos iluminados e obscurecidos que não se revelam nem revelam nada. Há apenas os espaços. Vazios? Jamais. Ocupados, todos, pela ininterrupta necessidade de escrever.

Sou-me. Entregue a essa vontade necessária de manter-me lúcido ante a reunião de sentidos desconexos em um todo único – a escrita – que possa, distraidamente, compor uma sinfonia qualquer. Eis que escrevo e perpetuo a perda da lógica capaz de reunir-me em partes esparsas. Sou-me em partes. Parte escrita, parte silêncio, parte desconexa. E não me sou, por inteiro ou por partes, o ser que fala durante a escrita. Não me sou durante a escrita. Ela me é necessária. É um ato de vontade insana à procura de vagos lampejos de unicidade.

Não me sou preciso. Sou irregular, quase desnecessário. Porque escrever não é exigência do ser. A escrita exige um ser. Ela impõe, ela grita, ela esperneia por aquele que toma a massa informe das letras, das sílabas e das palavras e o exige uma fôrma possível – capaz? – de encaixá-la em um sopro qualquer de sentidos complementares. A escrita exige um ser e exige o outro. O seu complemento é o outro, viajante perdido caminhando de norte a sul, de leste a oeste, da direita para a esquerda, para cima e para baixo procurando um ponto de sentido, um porto de sentido. Lá o outro ancora-se. E lá também se perde. Completam-se os que não se encontram em direção alguma. Dispersos, estão lado-a-lado.

Escrever é essa tal angústia. Uma mistura de finalização inacabada com a excitação do início do perder-se a si, em si. Escrever é maldição. Rasga cada parte, fere cada canto, machuca todo o ser incapaz de se encontrar por segundos ou minutos no ato mesmo de tentar enunciar. É insano. Uma loucura essencial para manutenção das capacidades de raciocinar sobre mim mesmo, sobre tudo, sobretudo. Ou não me penso? Acho. Calo. A escrita me cala e surge uma voz neutra. Ela avoluma-se a cada frase construída. Não é de ninguém, é de todos, é do outro, é dos Outros. São vozes que sussurram segredos indecifráveis, notas imperceptíveis, compassos sem ritmo. E escuto a todos, a todas, como o próprio bombear do meu coração. O escuto.

Suspendo o ritmo, a respiração é ofegante, o dizer-calar-se suspende o tom natural de viver sem escrita e tudo se transforma em lágrimas. Uma dor profunda. Escrever é esse custo. O custo de não poder ser e precisar ceder ao que desconheço, deixar-me guiar num labirinto de mão única chamado impulso. Necessidade? Cortante como pequenas lascas de gelo cortando a carne, marcando-a. Não cicatriza, é ferida, é doído. Escrever é não ser. É não se encontrar. Escrever é deixar-me calar, silenciar e, sofregamente, encontrar forma e fôrmas imperfeitas prováveis de admiração.

E o faço apenas pela incondicional devoção à loucura impulsionante de não encontrar a saída para os segundos que marcam os instantes necessários dedicados ao ato de encontro do desconhecido: escrever.