Encenação ou Retratos

Parafraseando Shakespeare, a banda canadense Rush escreveu: All the world’s indeed a stage / And we are merely players / Performers and portrayers. E penso nisso. Esse palco beirando o ridículo, esse palco criando absurdos, esse palco que se mantém riscado, rasgado, arranhado, pisoteado, camuflado, usado. Quase sinto pena dele. Mas essa vem, vez ou outra. Nesse lugar que serve para provocar riso, arrancar lágrimas, prender a atenção é apenas um lugar. Quem, de fato, realiza as ações são aqueles que performam e que retratam.

É um grande absurdo. É um grande ridículo. As pompas e as circunstâncias, os rituais que, na falta de um adjetivo melhor, os qualifico como “adequados” são seguidos detalhadamente para atribuir à peça (melhor seria dizer espetáculo) o seu grandioso tom. Novamente: do ridículo e do absurdo. Poderia dizer patético, até. E talvez esse seja mais adequado do que a própria palavra em si já dita. Elogios (ou elegias?), promessas vazias, declarações automáticas e automatizadas, agrados sem sentido – um presente chamado de lembrança – agregam-se, como se fizessem parte de pequenos atos que devessem conter toda a encenação. Há um clímax, um ápice, um charme brega nesse agir no mundo.

Procuro convencer-me de haver mistérios ainda não descobertos por mim e por essa razão não consigo compreender, em sua totalidade, a delicadeza do grande espetáculo. Insisto em acreditar, de alguma forma, que a responsabilidade pelo não entendimento é minha, exclusivamente. Busco a parcimônia, tento ser parcimonioso. Mas eis que ausente e isento, o que se põe diante de mim é apenas a performance e a refração daquilo que em sua essência poderia ser e jamais será. Culpa dos atores? Ou apenas responsabilidade compartilhada com quem dirige o espetáculo? Irrelevante.

Os atos são ridículos e absurdos. Possivelmente até mesmo falhos. Indesculpável! Não existe álibi para isenção. Ser no mundo é também estar nele para formá-lo. Construir o que se quer é nossa função. (Mas há que custo, José?).

Retratamos, apenas. Imperfeitamente. Tudo o que nos for capaz de revelar-se como uma fotografia colorida e desfocada, o fazemos. E, acreditem, nos gloriamos com isso. Achamos que é sempre nosso melhor. Não existe melhor. Nem tampouco pior. Apenas existe. Como as vãs esperanças. Existem para nos alimentar. São senhoras cruéis a nos prometer guloseimas que, sabemos, nunca iremos provar. É uma engorda falsa. Um saborear o desejo, somente.

Quem sabe seja por isso mesmo que as performances e os retratos imperfeitos ainda continuem a existir. Uma vã esperança de aplausos, de reconhecimento, de glória, de finalização, de gozo e de sucesso. Em vão, vãos. O palco é um lugar. Só isso. Os atores são os mesmos que performam e retratam. Todo resto é delírio inconstante de uma necessidade de certezas certamente incertas. E nos consumimos com os aplausos, com as luzes, com a ovação do público.

Eles, depois, irão embora. Os que performam e retratam, revisam o espetáculo para o dia seguinte. Mínimos detalhes, ínfimos ajustes: sempre precisos. Nunca necessários. Saciados pelas mãos agitadas, aquelas batendo com força para exaltar o que viram, recolhem-se em um semi-algo.

Verdade: “All the world’s indeed a stage / And we are merely players / Performers and portrayers.”