Em tempo

Há solidões. Há momentos. Há fugacidade. Há, também, sincretismo. Nas quais estamos cercados, mas nenhum rosto é conhecido. Quando paramos e fixamos o olhar em um ponto distante e esquecemos que eles passam. Porque, assim, conseguimos encarar o fato de que precisamos retornar ao que nos parece de mais concreto, mesmo que irreal. Pois, somente assim é possível unir pontas, unir pontos, ou apenas unir algo.

E há dispersão de sentidos. É como o discurso, sempre disperso, sempre plurivocalizado, sempre feito de equívocos. Somos como o discurso. Somos feitos pelo discurso. Por vezes, revelamo-nos, e por tantas outras nos escondemos nele mesmo. De facetas e facetas nos constituímos. Porque há solidões que não permitem a revelação total do que nos permeia os sentidos.

Sentir todos os sentidos só é possível quando esquecemos que eles existem. A plena consciência do enxergar a si próprio ofusca o ouvir-se a si mesmo, o pensar-se a si próprio, o falar consigo. Pois, se paramos e perdemos o olhar em um lugar qualquer, esquecemos. É, então, quando sentimos todas as possibilidades de estar – inexistindo -, ou de ser não permanecendo. Porque há momentos em que a inexistência é o único lugar desejável para não sucumbirmos ao sermos quem somos.

Não ser é o que, possivelmente, nos permite Ser. Vivemos de fugas rápidas, de modelos quase-prontos, de prontidões inacabadas. É mais seguro, mais confortável, e menos Ser. Assumirmos a nós mesmos, sendo o que forçosamente evitamos ao sentir, é apenas uma parte de quem talvez nunca sejamos. São as irrealidades que nos impomos em busca de nossas absurdas (in)sanidades. Porque é não-sendo que identificamos como quereríamos ser. Não-ser é o lugar dos encontros com nosso desejo animal de querer ser. E eternizamos isso por dois ou mesmo cinco minutos.

Somente havendo solidões, somente havendo momentos, somente havendo fugacidade é que torna-se tolerável existir sozinho e fugindo. Mas também é por isso que suporta-se o fato de não existirmos acompanhados e com certa constância. Regularidades, dispersões, significados, implícitos, silêncios, vozes multiculturais… São apenas termos, palavras nesse momento. E por isso o necessário sincretismo: a possibilidade de unirmos o que parece incorrigível, o que prenuncia a ambiguidade, o que possibilita unir algo. O que seja, em tempo.