Elas

Gosto delas, das mulheres. Não qualquer gostar, não o gostar comum, dos homens. Detesto o comum. Gosto do inusitado, daquilo que me faz gostar somente por não saber a razão. E há várias mulheres, cada uma delas com nomes ou até as inomináveis. Vejo semblantes enfadonhos, crueis, tristes e sombrios. Vejo rostos endurecidos, vejo olhares perdidos, vejo gestos mecânicos, ouço palavras não pronunciadas. São elas, as mulheres. Elas me cercam, me incomodam por serem assim. Dizem que desejam apenas por medo.

Estar incomodado é estranho, porém bom. Ser incomodado por elas é bom e estranho ao mesmo tempo. Vezes presto atenção em detalhes, pequenos gestos e ponho-me a pensar em tudo. Soturnamente, enxergo um rápido gesto em busca do infinito. Brinco, e nem dou risada. Dizem que desejam apenas por medo. Outras vezes, nem me importo porque incomodado, deixo de lado. Mas não é sempre. É como se houvessem horas em que tudo o que faço é prestar atenção nos meneios.

Algumas são fortes, doem-se pelos filhos, pelo marido, pela família que é o mundo inteiro. Essas brigam, agem, são. Mas desmoronam sozinhas no banheiro durante o banho e não entendem. Eu também não entendo. Elas choram. Outras são bonecas frageis, delicadas, quase insanas. Estas são as que dançam, rodopiam no salão ao som de uma valsa qualquer. Elas não choram mais. Já estão rasgadas por dentro. Dizem que desejam apenas por medo. Continuam, parecendo frageis bonecas e são assim.

Elas me assustam. Elas me cercam e não posso viver incólume a isso. Pois há também o riso gratuito, o repentino olhar de interesse renovado, o breve suspiro de surpresa. Imagino cada uma delas em cenas brilhantemente ilustradas como pinturas de Monet. E todas passam a fazer sentido em um segundo. Mas não para mim. Elas continuam a me assustar. Dizem que desejam apenas por medo. Um riso de alegria me desperta curiosidade e o repentino olhar me corroi de um medo paralisante por não saber. Apenas isso: não sei.

O sombrio de cada uma delas é-me um mistério indecifrável. O olhar que critica é o mesmo que acolhe, a palavra que agride é a mesma que acalenta, o silêncio que destroi é o mesmo que grita “Avante!”. No meio desse jogo de luz e sombra, fico atento. Não para descobrir a diferença entro o claro e o escuro. Somente para ver, prestar atenção e me atordoar indefinidamente. Dizem que desejam apenas por medo. E ainda assim, não sei o que é isso. Gosto, com medo.

Dizem que desejam apenas por medo. Por não saberem não desejar. Por não saberem viver sem o medo. Por não saberem. E cada uma delas, com seus lados invisíveis, com suas facetas óbvias, com seus olhares indefinidos, são mulheres das quais gosto. Distante e assustado, são parte de mim. Assemelham-se a folhas caídas durante o Outono.