Contrários

Porque ser é apenas o contrário de tudo. Porque a vida não é o óbvio das coisas. Porque a morte é o motivo do abandono. Porque as coisas se resumem ao contraditório. Porque o espelho não reflete o que pensamos. Porque calamos é a razão de um silêncio maior.

Somos infinitamente moldados por razões fugidias, partes díspares de uma tentativa crescente em busca de um sentido – maior ou menor – qualquer que seja. Os sentidos são os contrários. Do que pensamos, do que julgamos, do que aprendemos, do que sangramos, do que desejamos. Os sentidos lógicos constituintes de nossa subjetividade apontam para o infinito momento de percepção dos nossos equívocos. Paradoxal que seja, são momentos infinitos. Não se apagam, não se esvaem em uma névoa qualquer. Buscamos o sentido no óbvio inexistente. E deles construímos a aparente segurança das escolhas feitas. Ela, também, nos molda. Não há segurança alguma, somente ilusão. De sermos. Porque ser é apenas o contrário de tudo.

Não ser é a própria vida. Ela inexiste no óbvio, no que salta aos olhos dos sentidos. É sempre uma percepção errônea. Há sempre uma percepção errônea. Se há alegrias, é porque precedeu-se a tristeza. Se há alento, é em razão da existência da solidão. Se há abandono, é devido a ausência dos que ora se fizerem presente. Se há choro (e, talvez até, ranger de dentes), é porque houve já um sorriso. Tudo é sempre ao avesso. E, em havendo prazer, este é precedido de uma dor tão aguda e voraz que consome até a penúltima gota de vislumbre de horas mais ricas do provir. Porque a vida não é o óbvio das coisas.

Mesmo a morte, tão sombria, tão assustadora, tão  causadora de silêncios é errônea. Morte maior não é quando se perde o óbvio. O abandono é a consequência da morte. Deixar de ser, deixar de estar, deixar, apenas. Poucos segundos bastam, são suficientes para senti-la. E sentimos, no abandono. Abandonar é o motivo maior da morte. Recusas, afastamentos, negações, despropósitos, argumentos inócuos, ausências… nomeiem! São abandonos. É a morte revelando, sem obviedade, a sua finalidade. Abandonamos quando desejamos matar e também morrer. Abandonamos em cada gesto carregado da intencionalidade de morte. Porque a morte é o motivo do abandono.

Não é real conceber o contrário. Não é o abandono que causa a morte, tampouco a presença que acende a vida. As ausências são formas de viver e apenas a morte pode ocasionar o abandono. Uma ausência não é capaz de causar óbito. Matamos porque desejamos que o outro seja abandonado por nós. O abandono que impomos ao outro é consequência de sua morte. Nunca sua causa. Vezes lento, vezes longo, demorado e penoso. O tempo é sem medida para isso. Porque as coisas se resumem ao contraditório.

E, talvez parecendo ilógico, seja essa mesma a intenção. Uma vida que não é no óbvio, um ser que deixa de existir pela ausência de sentidos, um abandono que finda por causa da morte… Os reflexos que vemos nunca podem ser verdadeiros. Sempre olhamos o que conseguimos, nunca o necessário. Nossos olhos se detêm na fachada possível de enxergar. Os limites ultrapassáveis são – indubitavelmente – intransponíveis.  Porque o espelho não reflete o que pensamos.

Porque calamos é a razão de um silêncio maior. E quando o fazemos, não é por razões alheias à nossa razão. Sabemos o que calamos. Calamos pelo não reconhecimento do óbvio que supostamente nos sustentaria. Silenciamos por reconhecer que o abandono não é consequência da morte, mas sua causa. Travamos as palavras na garganta, afogamo-las no pensamento por ter a certeza de que a vida só é possível através da vivência dos paradoxos. Porque, afinal, tudo é somente parte do que sequer saberemos sobre nós.