Constância

A constância é-me aprazível. Confesso gostar de uma certa rotina, em especial nas relações humanas. Surpresas em demasia são enfadonhas e, em algum momento, passam, também, a ser um tipo de rotina. Algumas vezes seguir em um sentido diferente do linear é atrativo, todavia, ziguezaguear por aí como esse essa deslinearidade fosse o caminho a percorrer, por ser a vida surpreendente, não é algo que ma faça soltar rojões.

Estranho, inclusive, mudanças bruscas de pensamentos, orientações, caminhos, desejos, aspirações. Para mim, exclusivamente para mim, soa como se não houvesse a certeza. O ato de mudar, de ser ou estar inconstante, aparenta incerteza diante das convicções.

É inegável reconhecer que as mudanças são, em certa medida, necessárias para o crescimento de qualquer pessoa. Contudo, acredito cegamente, que esse tipo de mudança, que nos faz a todos crescer, acontece vagarosamente. O passar dos dias, dos meses, dos anos, das experiências, das alegrias, das dores, das tristezas, das frustrações, dos risos, dos gritos e de tudo o mais conta, indiscutivelmente, para que mudemos. E, de modo sincero, não acho que em 24 horas ou em 7 dias alguém passe por todas essas sensações de modo que elas todas sejam significativas. Claro, até um ponto alguma delas pode ser extremamente relevante. Mas, todas ao mesmo tempo e com a mesma intensidade me faz duvidar de certas mudanças.

Há casos e casos, importante não esquecermos isso. Um trauma de cinco minutos é capaz de transformar toda uma existência. E, às vezes, para  outros, trauma semelhante pode se repetir por toda uma existência e não causar, sequer, espanto.

Prefiro seguir, agora em especial, sem pressa, sem o desejo de mudar, sem a ânsia de ver coisas diferentes todo o tempo. Penso que na constância, nas rotinas, no mesmo, somos, nas relações humanas, capazes de solidificar algumas certezas, destruir receios, incrementar o igual. Ou ainda, o oposto: solidificar receios, a fim de que se tenha outras certezas, destruir certezas para que alguns receios deem lugar ao medo – que considero, em equilíbrio, essencial – e constantemente tornar o igual o mesmo sendo diferente.

Talvez por isso me incomode tanto a inconstância. Ou talvez por várias vezes ter sido inconstante e perceber que agora o igual, o mesmo (não se trata de algo enfadonho, mas do prazer das pequenas coisas simples) são bem mais atrativos do que o alvoroço da novidade. Bruscas e súbitas alterações de atitudes nas relações humanas me fazem recuar e desejar não estar ali, não ser partícipe.

Admito que para a convivência, isso é também complexo. A diversidade de universos em que cada um de nós está imerso tornam delicadas as relações humanas. Felizmente, sempre é possível escolher o momento que nos agride menos e, assim, buscar a inconstância ou a constância, conforme for a inclinação de cada um.