Aconteceu

Não sabemos quando certas coisas nos acontecem. Elas apenas surgem, acontecem, fazem parte de nossa vida. Achamos que amadurecemos, que seremos capazes de lidar de modo sensato, ponderado e, até certo ponto, indolor. O fato é que com 30, 40 ou 50, ainda somos os mesmos adolescentes. Sentimos um frio na barriga ao nos aproximarmos de alguém interessante, tememos alguém com maior autoridade do que a nossa, trememos ao nos depararmos com algo que não sabemos resolver, choramos porque fomos abandonados por alguém, gritamos desesperados (ainda que em silêncio) quando somos feridos por alguém, nos alegramos quando alguém nos considera o melhor amigo, exultamos ao saber que fomos procurados por sermos confiantes e seguros…

Acho que não existe passagem entre a vida adulta e a adolescência. Seremos os mesmos jovens temerosos que fomos até o fim de nossos dias. A única mudança são as máscaras que usamos. Muitas vezes elas são tão incorporadas a nós (e por nós) mesmos que achamos impossível sermos outra pessoa. A máscara cola em nosso ser e passamos a agir conforme suas características, seu molde.

Não importa se reconhecemos se essas características são boas ou ruins porque agora elas são nossas. Imputamos a nós mesmos essas características, já que não conseguimos deixar de ser aquela pessoa que se constitui entre os 14 e os 19 anos de idade. Ainda sonhamos com o que gostaríamos de fazer de nossa vida, fantasiamos os amores que ainda viveremos, afirmamos que nunca mais nos deixaremos machucar por ninguém, idealizamos a nossa vida pessoal, profissional e afetiva. A verdade, é que não vivemos como deveríamos.

Acredito que isso não seja uma doença, um desequilíbrio emocional qualquer. É apenas a forma que encontramos de (sobre)vivermos. Queremos dizer o que pensamos e não podemos, queremos expressar nossa raiva a quem nos machuca, queremos chorar e gritar com alguém só por que essa foi a primeira pessoa que encontramos para exorcizar nossos demônios. No fim, nada disso podemos fazer sem sermos considerados insanos. E por que não? Melhor um adulto insano do que um adulto sem sê-lo.

Ouvi, certa vez, que a vida era como uma doença grave que precisava de cirurgia. A doença nos acaba, lenta ou rapidamente, e para seguirmos adiante precisamos ser invadidos. No princípio, há anestesia, depois o corte e o sangramento. Mas depois que somos invadidos, cortados, sangrados, somos também curados. A cicatrização demora, mas nos livramos da doença. Cada decepção, cada tristeza, cada choro, cada momento de angústia, cada dor que sentimos no peito nos anestesiam profundamente. Achamos que daquele momento em diante não iremos mais sentir coisa alguma. Só que a anestesia não dura para sempre. Precisamos ser cortados pelas verdades que nos dizem no momento de dormência. As verdades que, muitas vezes, nós mesmos nos dizemos. Por vezes, é fato, não queremos ouvir nem a nós mesmos nem ao outro, porém isso passa. A anestesia não dura e o corte prevalece. Nesse instante de verdade, sangramos tanto que sentimos não haver mais nenhuma gota de sangue que nos faça retornar da mesa de cirurgia. Tudo parece se esvair dentro de nós: medos, desejos, esperanças, incômodos, tristezas, alegrias, sorrisos, lágrimas, silêncios, gritos… nada mais parece restar. Apenas parece. Resistimos tão bravamente à intervenção que ao sairmos somos quase outra pessoa. A cicatrização começa, começamos a sarar.

Não nos curamos completamente. As cicatrizes ficam. Marcas indeléveis de nossa doença, de nossa vida. Mas ainda assim superamos o mal. Não saímos da mesa de cirurgia ilesos. Não nos tornamos outra pessoa. Voltamos a ser os mesmos adolescentes com medo. Talvez um ano ou dois mais velhos, mas ainda na faixa etária dos 14 aos 19. A diferença são as bandagens que poremos nas cicatrizes. Talvez maiores, talvez menores e mais audaciosas… sempre bandagens.

E como a vida não se vive em um dia ou dois, como as cirurgias, somos diariamente operados. A cada instante nós somos anestesiados, cortados e sangrados, mas sempre nos recuperamos, sempre teremos cicatrizes.

Por isso, o melhor remédio para nossas cicatrizes chama-se “simplesmente aconteceu”. Não há cura por vivermos. Há intervenções que prolongam nossa existência. Há máscaras que utilizamos para não revelar quantas vezes fomos invadidos por cirurgias.