A vida é “invivível”

Não sei se recordarei, no futuro, um certo diálogo que tive com uma respeitável pessoa em um desses dias indiferentes. Contávamos ambos um divórcio. Falávamos sobre anseios, dúvidas, certos medos inerentes à condição humana. Divagávamos a respeito do que não poderia ser evitado durante os pesados passos, resultantes de toda existência humana. Claro, entre tais divagações estava o inegável fato de que muito já era em si evitado por uma certa parcela da existência humana. Essa exata parcela que não prevê, que não antecipa, que não reflete sobre a inerência dos medos, dos anseios e das dúvidas. São o que posso chamar de ignorantes. Excetuando-se toda a conotação negativa do termo, refiro-me aos que ignoram aquilo que vivem. Indiscriminadamente ignoram. Do gozo quase celeste de algumas conquistas até mesmo a dor mais profunda de uma perda. Essa parcela, simplesmente – embora creia não ser tão simples assim -, vive sem questionar. Vive em uma aparente, ao menos para mim e para quem mantive o diálogo, margem de tudo que possa vir a ferir, a machucar, a ser irresolvível, a alegrar, a provocar êxtase. Vive: apenas.
Por ocasião da conversa, não decidimos se isso era bom ou ruim. Aliás, nem mesmo sei se importa ser algo. A vida, disse eu, é “invivível”. O fardo ao qual nos impomos pela exata e precisa condição de estar vivo torna-se suportável somente porque não há outras formas de deixarmos de carregá-lo. É possível deixar de lado, é possível ignorá-lo por um tempo, é possível, inclusive, acreditar que não há fardos, mas apenas consequências ou causas de qualquer outra coisa que não seja um fardo.
Verdade é que fardos existem. Toda nossa vida é um inevitável e lento caminhar para não-se-sabe-onde carregando não-se-sabe-o-quê. E seguimos, parando algumas vezes, reduzindo o passo outras, desistindo quase sempre. Ou, o contrário: nunca desistimos porque isso é inevitável. Viver é uma inevitabilidade, ainda que “invivível”.
Concluir logicamente: isso é um processo doloroso e sem fim. Possivelmente, até, sem saída. Vivemos porque vivemos. E com fardos que pesam, para uns, muito, para outros, nem isso. A alegria dos que vivem à margem de reflexões acerca da condição e fragilidade humanas deveria ser celebrada. Não sei, exatamente, de onde vem o dito “a ignorância é uma benção”, mas mesmo sem saber, admito que isso é uma verdade que não pode ser excluída de nossa oração diária (se é que é possível haver uma e uma só).
Estar alheio às dores que nos só comuns deve ser bastante enriquecedor. Parece-me que não pensar, que ignorar fatos, excluir traumas, mascarar o desagradável, desdenhar do penoso dormir e acordar permitem, aos que assim o fazem, gozar uma vida com um pouco mais de plenitude. E, sim, o verbo é “gozar” mesmo. Com todas as suas acepções.
Isolados não conseguimos viver. Fomos marcados, como bois: a ferro e fogo, a precisarmos viver com outros. Para o bem e para o mal. Para os que nos fazem sorrir e para os que nos fazem desabar em um choro convulsivo. Se nos afastamos daqueles que nos fazem mal, constitui-se um ato de coragem. Mas, o mal já foi feito. A dor já foi causada. O fardo já está sobre os ombros e não é mais possível retirá-lo de lá. Evitamos um que nos fez mal, que nos feriu e… vem outro e faz com que experimentemos a mesma sensação já vivida e já evitada.
E para os que nos fazem sorrir, cometemos o erro de necessitarmos tanto do outro a ponto de não mais distinguirmos nossa própria subjetividade. Aliás, a subjetividade também se constrói dessa forma: através do outro. E sufocamos com sua ausência. E o sufocamos com nossa presença. São dois olhares distintos sobre uma mesma situação: inevitável não haver equívocos.
Não sabemos ser sozinhos. Não conseguimos fazê-lo. A humanidade é uma condição impossível de ser vivida. Com o outro ou sem o outro, sempre carregamos os fardos que não deveríamos. E os poucos prazeres que sublimariam nossa existência são relegados pela própria necessidade de sobrevivência e subsistência. Constatar que para vivermos plenamente é necessário sobreviver e subsistir não é algo prazeroso. É penoso, é dolorido, é frustrante, é infinitamente pesado para ser, ironicamente, “vivido”. Creio que um tratado de vários volumes versando sobre a condição humana e sua necessidade de existir com o outro considerando as Artes, a Música, a Pintura, a Educação, a Filosofia, a Psicologia, a Literatura, a Política, a História… seria um trabalho irrealizável para apenas uma pessoa. Mas para duas, definitivamente seria impossível: a discordância imperaria.
Freud falava de sublimação. Na verdade, isso se resume a resignação. Diante da vida, só resta ignorar tudo e aceitar que, apenas pelo simples fato de não poder haver mudança, a vida, em si, para os que pensam sobre ela, ainda que pouco, é “invivível”.