A solidão do Mal

Uma das coisas que mais acho curioso, embora o assunto seja trágico também, é a manifestação do Mal. Sim, com letra maiúscula mesmo que é para indicar a influência do tinhoso, do pé-de-cabra, do inimigo, do tentador de Jesus na vida de pobres mortais. Não irei discursar sobre religião nem afirmar que “Só Jesus Cristo Salva”. Meu intento é, a partir de um ponto de vista de fé mesclado com alguma lógica, refletir um pouco sobre a solidão do Mal. Precisamente, das consequências de suas ações na vida dos seus influenciados.

Ilustrando, começo citando a ficção. Na maioria dos filmes e séries, independentemente de gêneros, há o combate entre o heroi e o vilão. Uns querem dominar o mundo, outros querem o poder completo de uma companhia farmacêutica, de um país, de uma cidade ou, o nada original, do mundo. Lá se vai o heroi lutando, levando porradas, tomando balaços, sendo torturado, tendo seus familiares ou amores sequestrados ou mortos até que, pasmem, ele, depois de todo o infortúnio, derrota o vilão.

Bem, derrota em partes já que o Mal sempre deixa seu legado (veja por exemplo o Coringa na série Gotham…). E aí, já velho e cansado, cheio de dores pelo corpo, vai-se o heroi de novo enfrentar o mal. Lógico, em suas batalhas ele fez coleguinhas que estarão prontos a ajudá-lo e, em alguns casos, esse mesmo heroi também deixa um legado. Filhos, talvez. E a história se repete.

Nesse perde-ganha-perde-ganha entre vilões e herois, eu me pergunto: supondo que o Mal vença em definitivo, o que ele vai ganhar com isso? O mundo é a resposta mais óbvia, certo? Errado. O mundo é feito de pessoas. Pessoas têm livre-arbítrio. A escolha é, geralmente, por aquilo que faz bem as essas mesmas pessoas. Quer dizer, boa parte das vezes escolhemos aquilo que nos faz bem ou achamos que nos faz. Então, se o Mal vence, ele escraviza porque sendo senhor absoluto, conceder alguma coisa ao outro por bondade é o oposto de ser vilão. Na prática: ele poderá querer uma companhia, um, digamos, affair. Afinal, o Mal deve ter lá suas necessidades. Quem ficará com o vilão sem ser por obrigação? Somente outro vilão. Haverá amor? Pode até ser, mas com um baita interesse de uma das partes do tipo visto em Hamlet. E se for por obrigação, não há lá muito sentido nisso.

Pensemos em uma eventual situação: o Mal deseja sair e comer tacos mexicanos e convida a parceira/o parceiro. Provavelmente a companhia irá de má vontade, mas irá. Quem pagará a conta? Se o Mal domina o mundo, ele deve ser o dono do local, então isso não será problema. Sobre o que conversarão? O dominador não terá mais objetivos, pois já conquistou tudo. A dominada/o dominado ficará em silêncio já que está ali por obrigação e, possivelmente, deve temer o seu Senhor. Convenhamos, ficar sem falar é um saco algumas vezes. Aquele silêncio constrangedor que às vezes acontece entre pessoas normais nunca poderia ser quebrado pelo Mal com algo do tipo: “- Será que chove hoje?” Nesse caso, valeu mesmo a pena dominar o mundo? Eu particularmente acho que o mundo é muito grande para ser dominado. Em algum lugar sempre vai haver alguém tentando derrotar o Mal e ele não saberá, mesmo sendo Senhor de tudo. Um saco isso!

Entrando na vida real, pensemos na lógica de namorados, noivos, maridos ou amantes que cometem crimes por doentio ciúme. Estão lá os dois apaixonados no mesmo restaurante de tacos mexicanos que o Mal e sua companhia (é preciso um cenário, certo?) e uma discussão inicia. Palavrões para lá e para cá, a Maria da Penha ignorada pelos policias que fazem ronda pelo local e o marido diz que não aceita o término. Se ela não for dele não é de mais ninguém. Passa a noite e o outro dia, ele arrependido liga para ela sugerindo conversarem e na hora do encontro dá-lhe 30 facadas. Esconde o corpo e vai ao shopping. Depois liga para a polícia dizendo que a esposa não aparece em casa há uns três dias. No final, sabe-se que foi ele. Termina preso.

Afinal, ganhou o que com isso? Perdeu, literalmente, a companheira. Não é dele, não é de ninguém. Para nunca mais. Ele preso pode até sair com pouco tempo, mas ficar enjaulado com um monte de outros homens, talvez muito mais violentos e desequilibrados do que ele valeu a promessa de não deixá-la ser de outro? Sairá como ex-presidiário e terá dificuldades de encontrar um trabalho. Sim, o receio existe e é normal – ao menos para mim. Perderá, no caso de filhos, o amor deles. A família, talvez com exceção dos pais, se afastará e o mesmo se aplicará aos amigos e conhecidos. Ficou só. Possivelmente, evitará isso mentindo. Mas eis o detalhe: mentir sobre si, para mim, é não ser quem se é de verdade. Uma outra solidão: é-se pela mentira. Meio louco isso!

Mais vida real ainda. Políticos! São eleitos, prometem mundos e fundos, fazem uns projetos de lei nomeando rodovias ou decretando feriados, votam contra o que é certo, apoiam os chefes de estado apenas por interesse. Essencialmente roubam o dinheiro das pessoas como eu e você que, acho, está me lendo. Um cálculo básico, bem básico mesmo me leva a considerar o seguinte: uma família de quatro pessoas, no Brasil, consegue viver bem, não ótimo com cerca de dez mil reais líquidos (para o ano de 2017…). O que danado se quer com 10, 20, 30… N milhões por mês? De propinas, de negócios excusos, de vantagens em negociatas. Mas é isso que se quer. Vamos a questão da solidão do Mal aqui.

Deodoro, um político fictício recebe 20 milhões de reais em vantagens nos negócios relacionados às licitações. Ele tem diversos apartamentos no Brasil e no exterior, viaja sem gastar nada já que usa aviões da Força Aérea Brasileira, tem várias férias por ano, possui cerca de 20 carros de luxo, entre nacionais e importados mas só tem duas pernas e um corpo para dirigir cada um dos carros, só pode ficar em uma casa de cada vez, só descansa em um lugar e em um período de cada vez. Por que? Ele é só um, claro. Então o Deodoro fica doente. O único corpo que ele tem está debilitado e a resposta dos diversos especialistas nacionais e internacionais é a mesma: não há cura. Você tem alguns meses, poucos de fato, de vida. Pronto, juntou tanto dinheiro para si e para a família e não poderá mais gozá-lo.

A família, exemplo um, acostumada com a boa vida, não sabe administrar o dinheiro e fica bem menos rica sem o patriarca. Ou, exemplo dois, a família segue o legado do Deodoro, a exemplo da ficção e repete tudo de novo. Independentemente de doenças, essas pessoas também irão morrer e como caixão não tem gaveta, nada levarão. Pode-se argumentar: De fato sobre o caixão está correto, ele não tem gaveta, mas sendo Maus, roubando, tiveram a vida que desejaram com muito conforto e luxo.

Entra aqui a minha questão de fé: seja qual for o seu Deus, uma mensagem é sempre idêntica em todas as religiões. Ame o próximo, seja honesto, ajude a quem precisa. Lembrando que não roubarás é um mandamento para católicos, judeus e, para os muçulmanos, corta-se a mão de um ladrão . Se morreu nessas circunstâncias, irá para o céu. Mas se morreu nas circunstâncias do roubo, vai passar a eternidade no limbo.

Certo, possivelmente o Mal irá fazer com que você deixe de acreditar no limbo ou mesmo na vida eterna. Bem, acho isso complexo porque viver sem acreditar em alguma coisa maior do que si próprio é atestado de autossuficiência, o que, algumas vezes, leva você a solidão. Sim, se você é suficiente a você próprio não sentirá falta de alguém para ir ao cinema, nem para fazer a feira de verduras semanal com você ou mesmo tomar uma cerveja com fritas e calabresa no domingo pela manhã na praia. Esses tolos exemplos podem levar a um isolamento. Nada mais “sinonímico” para solidão do que isso.

Acho que solidão, pela maldade, deve ser bem inconveniente. Por mais que se deseje, sempre se estará sozinho. A probabilidade de se ter companhia pelo bel prazer da companhia, ainda que existente, é reduzida. Os Maus arranjam um modo de se acharem, mas não será companhia verdadeira, aliás, será verdadeira, mas por interesse.

O Mal ou o mal ou as pessoas más vivem em uma solidão imensa no final das contas. E ainda assim insistem em vivê-lo. Ser bom é algo bom. Só se vive uma vez, acumular, roubar, matar, estuprar, enfim, fazer o mal é sempre solidão. Eu poderia estender esse texto a muitos parágrafos mais, porém creio que deixei claro minha perspectiva.